Capítulo 6
No dia seguinte, mal Adriana colocou os pés na empresa, Lorena a interceptou com um ar conspiratório, ansiosa para mostrar algo que descobrira naquela manhã.

— Parece que a Sra. Luciana passou a noite com o Sr. António. — Sussurrou Lorena, baixando o tom de voz para garantir que ninguém ao redor ouvisse a fofoca.

Na tela do celular que ela estendia, exibia-se a prova do delito, capturada furtivamente.

— Eles chegaram no mesmo carro hoje cedo. — Continuou Lorena, indignada. — E repare, a Sra. Luciana ainda está usando exatamente a mesma roupa de ontem.

Adriana lançou um olhar rápido e analítico para a fotografia. Na imagem, António estava parado junto à porta do carro, com metade do rosto oculto pelas sombras, observando Luciana enquanto ela se preparava para descer.

Talvez fosse o ângulo sutil em que a foto fora tirada, mas a cena transmitia uma intimidade quase palpável, uma conexão silenciosa entre os dois.

Após encarar a imagem em silêncio por alguns segundos, Adriana desviou o olhar e levou à boca, de uma só vez, o punhado de comprimidos que segurava na palma da mão. Bebeu vários goles de água quente para ajudá-los a descer, sentindo o líquido escaldante percorrer sua garganta. Não doeu, nem incomodou. De fato, ela já não sentia mais nada; a dormência emocional era seu novo normal.

Ela dedicou a manhã inteira a organizar os documentos dos projetos sob sua responsabilidade e, entre uma tarefa e outra, encontrou tempo para redigir sua carta de demissão. Naquele intervalo, Luciana foi ao escritório de António quatro vezes, permanecendo lá por mais de meia hora em cada visita. Pelo visto, a presença da bela companhia deixara o chefe de bom humor, pois António sequer cobrou Adriana pelo "bolo" que ela lhe dera na noite anterior.

Já perto do horário de almoço, António e Luciana saíram juntos do escritório. Ao passarem pela mesa de Adriana, ele não parou nem por um segundo. Luciana, sorridente, conversava com ele animadamente.

— O que você quer comer hoje? — Perguntou Luciana, com voz doce. — O almoço é por minha conta, considere um agradecimento por você ter bebido no meu lugar ontem.

— Tem um restaurante aqui perto, a Cozinha da Avó, que serve sopas medicinais excelentes. — Sugeriu António, com um tom de preocupação genuína. — O caldo especial deles é ótimo para repor as energias e o sangue, ideal para o seu estado atual.

Luciana pareceu visivelmente comovida e murmurou:

— António, você é muito atencioso.

Antes que as portas do elevador se fechassem bloqueando a visão do casal, Adriana digitou seu nome no final da carta de demissão. Quando Lorena enviou uma mensagem perguntando sobre o almoço, Adriana refletiu por um instante e respondeu:

— Vamos tomar sopa na Cozinha da Avó.

— Combinado. — Concordou Lorena.

Como era horário de pico, o restaurante estava lotado. Assim que entrou, Adriana avistou António e Luciana imediatamente; a localização deles era privilegiada e impossível de ignorar.

— Que azar, logo eles aqui? — Resmungou Lorena, preocupada que a amiga se chateasse.

A reação de Adriana, no entanto, foi calma. Seu olhar deslizou sobre o casal sem se deter, como se fossem estranhos.

— Há uma mesa vazia ali. — Apontou ela.

Uma garçonete que já conhecia Adriana se aproximou sorridente assim que elas se sentaram.

— Srta. Adriana! Veio buscar a sopa de sempre?

Adriana balançou a cabeça, exibindo um sorriso leve.

— Não, hoje não. Vou querer algo para o estômago.

— Ah, o problema de insônia do seu chefe melhorou? — Perguntou a atendente, por puro hábito.

Afinal, Adriana frequentava o local faça chuva ou faça sol, sempre para comprar a sopa que auxiliava no sono de António. Essa dedicação a tornara uma cliente conhecida por todos os funcionários.

— Sim. — Respondeu Adriana com uma expressão neutra. — De agora em diante, não será mais necessário.

No futuro, ela só precisaria cuidar do próprio estômago e de sua própria vida.

Aproveitando a deixa, Lorena perguntou à garçonete:

— Vocês têm alguma sopa para repor as energias? Estou naqueles dias, minha pressão vive caindo e me sinto fraca.

— Tem sim! Hoje temos a Canja de Galinha Especial, limitada a três porções diárias. — Explicou a moça, entusiasmada. — Você deu sorte, pegou a última. As outras duas foram compradas por aquele senhor ali para a namorada dele.

A garçonete suspirou, sem disfarçar a inveja na voz.

— Eles formam um par perfeito, não acha? Bonitos, elegantes e ele trata ela super bem! Um homem assim é raridade hoje em dia.

Lorena teve vontade de tapar a boca da moça. A "namorada" mencionada era, obviamente, Luciana. Então António a trouxe ali especificamente porque ela estava menstruada e precisava de cuidados para repor o sangue.

O gesto de beber por ela na noite anterior agora fazia todo o sentido. Era preciso ter um nível de intimidade profunda para saber desses detalhes do ciclo dela.

Em sete anos de convivência, António já tinha seus momentos de gentileza e carinho. Mas diziam que o amor esfria com o tempo, e eles não foram exceção à regra. À medida que a Ventura Investimentos expandia seu império comercial, António ficava sem tempo até para respirar, quem dirá para o romance. Adriana sequer conseguia lembrar quando fora o último encontro a sós dos dois, muito menos quando recebera uma preocupação tão minuciosa quanto aquela.

Assim que a garçonete se afastou, Lorena perguntou, tensa:

— Adriana, você está bem?

Adriana saiu de seus devaneios e balançou a cabeça.

— Estou ótima.

A fama das sopas da Cozinha da Avó era merecida. Após tomar duas tigelas pequenas, Adriana sentiu o estômago aquecido e confortável. A lição era clara. Ser boa para os outros nem sempre trazia retribuição, mas ser boa para si trazia resultados imediatos. E aquela era a recompensa mais direta que existia.

...

À tarde, houve uma reunião do comitê de investimentos. Era a estreia de Luciana como diretora do departamento, e a curiosidade sobre sua competência pairava no ar. Logo de início, ela apresentou suas credenciais acadêmicas, com doutorado em Economia pelo renomado Instituto WT de Negócios do País M.

Um murmúrio de admiração percorreu a sala de conferências.

Não era à toa que o Sr. António ia buscá-la pessoalmente no exterior! Não era surpresa que ela tivesse "caído de paraquedas" na diretoria da Ventura Investimentos. Luciana era uma "deusa" de alto nível acadêmico. O Instituto WT de Negócios estava entre as melhores instituições do mundo, e profissionais com um doutorado de lá eram raríssimos.

Somando isso à sua beleza estonteante, a derrota de Adriana parecia justificada. Alguns colegas que antes achavam injusta a substituição de Adriana começaram a mudar de ideia. O ser humano tem uma tendência natural a admirar o poder e o status, e ali a disparidade era clara. Adriana tinha apenas uma graduação em uma universidade nacional, sem nem mesmo um mestrado. Como competir com aquele currículo?

Adriana continuou fazendo a ata da reunião com seu foco habitual, mas seus dedos pararam sobre o teclado por alguns segundos ao digitar as palavras "Instituto WT de Negócios".

No passado, ela também havia recebido uma oferta daquela mesma instituição. Mas ela havia aberto mão da oportunidade, sacrificando seu futuro para ficar e ajudar António. Por causa daquela escolha, sua professora universitária, decepcionada, cortava relações com ela até hoje. Era uma ironia amarga pensar que, anos depois, ela estava perdendo justamente por causa daquele sacrifício.

Com o prestígio acadêmico de Luciana estabelecido, quando António anunciou que ela assumiria o projeto do Grupo Azevedo, ninguém achou estranho. Parecia até que era Luciana quem conquistava o contrato. Indignada com a injustiça, Lorena começou a enviar mensagens privadas para Adriana no meio da reunião.

Lorena: [Não é possível! Como o projeto do Grupo Azevedo foi parar na mão da Sra. Luciana?]

A jovem estava furiosa e enviou várias mensagens em sequência.

Lorena: [Adriana, você teve uma hemorragia gástrica de tanto beber para conseguir esse contrato! Com que direito?]

Lorena: [O Sr. António não pode ser tão parcial assim!]

Lorena: [Não aceito isso! Não entendo! Estou prestes a explodir aqui!]

Adriana tentou acalmar a colega.

Adriana: [Fica tranquila, querida. Não se estresse. Isso já não importa mais.]

Se ela era capaz de entregar de bandeja o homem que amou por sete anos, o que era um simples projeto em comparação?

Lorena, contudo, não se conformava.

Lorena: [Mas foi você quem suou sangue por isso! O Sr. António sequer sabe que você perdeu um bebê por causa desse maldito projeto?]
Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App