O dia avançou com uma calma enganosa. O tipo de tranquilidade que só existe quando algo está se preparando para acontecer — invisível, silencioso, inevitável.
Ela percebeu primeiro nos funcionários.
Os olhares demorados demais. As conversas interrompidas quando ela passava. O cuidado exagerado ao arrumar objetos que já estavam em ordem. A mansão, que antes parecia apenas rígida, agora estava alerta.
A criança também percebeu.
— Eles estão com medo hoje — disse, enquanto caminhavam pelo corredor que dava acesso à biblioteca.
Ela se abaixou ao lado dela.
— Por que acha isso?
— Porque quando adultos têm medo, eles fazem silêncio diferente — respondeu, com a seriedade de quem não brinca com palavras. — Não é o silêncio de dormir. É o silêncio de esconder.
Ela engoliu em seco.
— E o que você faz quando percebe isso? — perguntou.
A criança pensou por alguns segundos.
— Eu fico perto de você.
O peso daquela resposta a atingiu com força inesperada.
Na biblioteca, a luz entrava filtrada pelas