Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som dos estudantes saindo das salas de aula ecoou pelo corredor da faculdade como um chamado para o que seria meu destino. Enquanto os outros alunos corriam para seus próximos compromissos, eu caminhava lentamente em direção ao auditório de literatura do Professor Dorian Caine.
Ele estava de pé no palco do auditório, com aqueles olhos cinza que pareciam ver através de todas as minhas máscaras. Quando ele falou sobre Wuthering Heights para a turma de pós-graduação, sua voz era um feitiço por si só. Profunda, ressonante, cheia de uma paixão que fazia meu estômago se contrair.
— Heathcliff e Catherine… — Ele dizia, percorrendo o auditório com seu olhar penetrante. — Representam a obsessão em sua forma mais pura. Uma conexão que transcende a morte.
Seus olhos pousaram em mim por um segundo a mais do que necessário, e senti meu rosto arder. Ele não estava apenas ensinando sobre a obsessão — ele a personificava.
Após a palestra, enquanto todos se dispersavam, eu fingi organizar meus cadernos. Ele se aproximou da minha fileira, seu perfume amadeirado envolvendo-me como um abraço.
— Lara… — Disse ele, seu tom mais suave do que com os outros alunos. — Seu ensaio sobre a natureza gótica do amor em Brontë foi... Perspicaz.
— Obrigada, professor. — Respondi, mantendo a voz estável, embora meu coração disparasse. — Acho que o verdadeiro horror não é a rejeição, mas ser amado de forma incompleta.
Ele inclinou a cabeça, estudando-me como se eu fosse um texto complexo que ele estava tentando decifrar.
— Uma observação interessante. — Murmurou. — Talvez você devesse explorar isso em seu próximo trabalho.
Enquanto ele se virava para pegar suas anotações, meus olhos foram atraídos para a tela do seu laptop ainda aberto: ele e sua esposa, sorrindo em frente à biblioteca da faculdade. A mão dele estava envolvida na cintura dela, puxando-a para perto como se temesse que ela desaparecesse.
A facada da inveja foi tão física que quase perdi o fôlego. Eu queria aquilo. Não apenas ele — mas ser olhada daquela maneira. Ser a razão pela qual alguém respirava.
Naquela noite, no meu quarto envolto em sombras, abri o diário de Agnes. Minhas mãos tremiam enquanto passava pelas páginas até encontrar o feitiço que procurava: "Amarração por Obsessão".
Os ingredientes incluíam itens pessoais do alvo.
No dia seguinte, durante o horário de atendimento dele, enquanto outros alunos esperavam no corredor, me aproximei furtivamente de sua mesa no departamento. Meus dedos se fecharam em torno da caneta que ele tinha usado para corrigir trabalhos, ainda quente de seu toque.
— Encontrando tudo o que precisa, Lara? — Sua voz fez a batida do meu coração saltar.
Ele estava na porta do escritório, observando-me com expressão curiosa.
— Sim. — Menti, escondendo a caneta na minha bolsa. — Só... Revisando minhas anotações da palestra de ontem.
Ele se aproximou, e o mundo exterior desapareceu.
— Você tem estado distante ultimamente. — Comentou, seus olhos estudando meu rosto. — Tudo bem?
A preocupação em sua voz era quase pior do que a indiferença dos meus pais.
— Estou perfeitamente bem. — Sussurrei, me afastando antes que eu pudesse fazer algo estúpido, como tocar seu rosto.
Fui direto para o banheiro do departamento, trancando-me em uma cabine. Encostei a testa na porta fria, a caneta ainda quente em minha mão. Eu não queria apenas perturbá-lo ou seduzi-lo.
Eu queria arrancar aquela devoção que ele reservava para sua esposa. Queria que ele me olhasse como a única coisa que importava em seu universo.
E pelo diário de Agnes, eu sabia exatamente como conseguir isso.
Naquela noite, tracei um círculo de sal no chão do meu quarto, e acendi velas negras que peguei na mesma caixa onde encontrei o diário da vovó. Segurei a caneta do professor sobre uma chama, sussurrando as palavras que fariam seu desejo por mim consumir qualquer outra lealdade.
— Que ele me veja quando fechar os olhos. — Recitei, a chama refletindo em minhas lágrimas. — Que ele me queira até que isso doa.
Do lado de fora, o vento uivou como uma advertência. Mas eu não me importava com os avisos. Eu finalmente encontraria alguém que não conseguisse me abandonar.
Mesmo que isso significasse destruí-lo no processo.







