2|BEBENDO NA MESA ERRADA

HELOÍSA

O vidro do Uber refletia meu rosto como se fosse outra pessoa me encarando.

Fortaleza passava lá fora em cores quentes e vívidas, prédios misturados com o azul insistente do céu, o vento forte que envolvia as árvores, o mar surgindo e desaparecendo entre ruas que eu ainda não sabia nomear.

 Era tudo tão diferente do estado em que eu morava – cheia de cor e vida- mas ainda assim, não me sentia fazendo parte. Não completamente.

Encostei a testa no vidro frio, observando meu reflexo se misturar com a cidade. Às vezes eu parecia flutuar ali, suspensa entre o que fui e o que ainda estava tentando ser, em busca de me reencontrar.

Fechei os olhos por um instante, permitindo que meus pensamentos me maltratassem.

As imagens vieram como sempre vinham, sem pedir licença, sem aviso, como uma maré escura que se infiltrava por qualquer fresta.

O ar-condicionado ligado fazia com que eu me sentisse enfrentando uma nevasca, minha pele estava fria e eu tremia, em pé, segurando um relatório. 

Nelson , meu antigo chefe se encontrava atrás da mesa, sorrindo daquele jeito viscoso que me fazia querer lavar a pele, pelo olhar repugnante que me dava sempre que tinha a oportunidade.

‘’Você sabe que eu posso facilitar muita coisa pra você aqui, não sabe?- a voz dele ecoava na minha cabeça.’’

Outro flash vem, me deixando desnorteada.

Ele se levantando, se aproximando além do devido, a mão apoiada na minha cadeira.

Todo o meu estômago revira com a lembrança indesejada.

‘’ Não seja ingrata, Heloísa. Você não é nenhuma estrela pra ficar escolhendo.’’

‘’Você está se fazendo de difícil — ele disse, com um tom rancoroso. — Gente difícil não dura muito aqui.’’

Como não cedi, e jamais cederia. Ele me deu o golpe final.

‘’ A partir de hoje, seus serviços não são mais necessários. E se eu fosse você, não faria barulho. Eu tenho amigos que podem barrar a sua estadia no mercado de trabalho.’’

Essa frase nunca me deixou.

Eu tenho amigos que podem barrar a sua estadia no mercado de trabalho.

Abri os olhos com força, o coração disparado, a respiração curta fazendo com que eu levasse a mão até o meu peito numa tentativa de me tranquilizar.

— Tá tudo bem aí atrás moça? — o motorista perguntou me olhando pelo retrovisor com feição preocupada.

— Tá… sim. Só é um pouco de cansaço. 

Ele assentiu e se concentrou apenas em dirigir.

Era meia verdade, cansada estava, já que havia chegado pela madrugada e mal tive tempo para descansar, mas por outro lado eram os meus próprios pensamentos que me atormentavam e justamente isso que me aterrorizava.

Olhei novamente para fora, tentando me ancorar no presente.

Eu tinha conseguido um emprego e era isso que importava no momento

Um recomeço, repeti mentalmente.

Mas os fantasmas não se contentaram em ficar quietos. 

Quando a desgraça chega, ela nunca vem sozinha; e por que comigo seria diferente?

E então eu o vi

Meu ex-namorado.

A mão dele na cintura de sua meia-irmã enquanto os dois pareciam se engolir

Minha visão ficou turva.

‘’ Você acha mesmo que alguém como ela vai perceber? — a voz da meia-irmã dele soou debochada.’’

‘’ Relaxa — ele respondeu, rindo. — Esquece a trouxa da Heloísa’’

A trouxa da Heloísa

Aquilo me atravessou como uma espada afiada, deixando todo o meu interior doendo e inflamado como se estivesse em carne viva.

Eu não chorei na hora.

Só fiquei ali, congelada, ouvindo cada palavra, cada risada, cada gemido abafado, como se meu corpo tivesse sido abandonado por mim mesma.

As frases se misturaram, formando um coro cruel dentro da minha cabeça.

Respirei fundo, abrindo os olhos de vez, quase com raiva de mim mesma.

 Chega! - pensei endireitando a minha postura no banco. 

Aquilo tinha ficado para trás.

Eles tinham ficado para trás.

Eu tinha um novo emprego. Um teto temporário. Uma chance real de recomeçar e viver a minha vida.

Não permitiria que o passado continuasse me dominando e ferrando com o meu futuro. Era isso , não podia mais me sabotar. Não permitiria que essas malditas lembranças me confundissem.

O carro parou, finalmente chegando ao meu destino.

Desci, agradeci, e fiquei alguns segundos parada diante da casa da Débora; simples e acolhedora, tudo o que mais precisava no momento e se não fosse por ela, nem mesmo saberia o que seria de mim.

 — E aí? como foi lá? - ela perguntou lavando as mãos na pia.

Entrei e larguei a bolsa no sofá.

— Eu consegui — falei, ainda meio incrédula.

Os olhos dela brilharam ao me encarar.

— Eu sabia! — me abraçou forte. — Eu falei que você ia conseguir.

— Sério… se não fosse você, eu nem estaria aqui — admiti, com a voz embargando. — Obrigada por me indicar. Eu nunca imaginei que passaria naquela entrevista, todas as candidatas tinham nível superior, eu me senti menor do que um grão de areia. 

Débora segurou meu rosto com as duas mãos, me encarando fixamente nos olhos.

— Para com isso. Você é competente. Só esqueceu disso porque teve gente demais tentando te convencer do contrário.

Engoli em seco.

— E agora… — ela abriu um sorriso travesso — Vamos comemorar!

— Débora, eu tô sem dinheiro até para respirar — respondi, rindo sem humor.

— Relaxa. Hoje é por minha conta. - me deu uma piscadela

— Não precisa...- fiquei sem jeito

— Precisa sim. — Débora insistiu. — E além disso… preparei uma surpresa. - cantarolou empolgada.

— Surpresa? — arqueei a sobrancelha a olhando desconfiada.

— Na hora certa vai ver do que se trata! 

Não consegui arrancar mais nada dela ao longo do dia.

Quando estava próximo do horário, ela fez questão de me produzir e ainda dizendo que eu não possuía nada de interessante para vestir e curtir a noite. No final de tudo acabei dentro de um vestido de Débora, que segundo a mesma, havia ficado um escândalo de bonito em mim e tudo bem, realmente havia ficado, tive que concordar.

 Pouco depois estávamos em um bar animado, música alta, gente rindo, copos se chocando, enquanto Débora me incentivava a jogar as mágoas para fora.

— Aquele seu antigo chefe desgraçado — Débora dizia. — Um dia ele ainda vai pagar por todo o mal que te fez.

— E aquele filho da mãe do meu ex… — completei. — Lixo humano.

— Ai amiga, é até uma ofensa para o lixo — ela rebateu, fazendo eu rir de verdade pela primeira vez em dias.

Já estávamos na terceira rodada quando Débora olhou o celular.

— Droga… eu vou ter que ir.

— O quê? Agora?

— Calma — ela sorriu. — Eu marquei um encontro para você.

— Você fez o quê?!- quase me engasguei com a saliva

— Confia em mim. Ele é legal. E você precisa parar de viver como se ainda estivesse passando por um luto.

— Débora...eu não sei se eu estou pronta e...

— Mesa oito – ela me cortou- Aproveita a noite. —  me beijou na bochecha se despedindo. — E esquece aquele idiota.

Fiquei ali, meio zonza, mas ainda assim sentindo-me corajosa por causa do álcool.

Mesa oito.

Olhei em volta.

Vi uma mesa com um homem sozinho, mexendo no celular.

Fui até lá.

— Oi — falei, sorrindo. — Posso sentar? - perguntei já puxando a cadeira independente de sua resposta.

Ele levantou o olhar, surpreso… e sorriu de um jeito lento.

— Claro. Por favor.

Sentei, levantando meu copo.

— Que tal bebermos juntos e jogar conversa fora? - ergui uma sobrancelha oferecendo-lhe um sorrisinho todo trabalhado na malicia.

Um homem tão belo e sexy como este a nível de ser considerado como um Deus, com toda certeza não encontraria em uma esquina qualquer.

Débora tinha razão, estava na hora de esquecer de vez meu trauma com o ex.

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