####CAPÍTULO 04

VINTE ANOS DEPOIS

O aroma das folhas de lavanda misturava-se ao de raiz de valeriana recém-amassada, criando um bálsamo denso que preenchia o chalé com paz e acolhimento.

— Shira adorava verdadeiramente aquele momento sagrado do dia, onde o silêncio da mata encontrava a serenidade de seu lar.

— Suas mãos se moviam com extrema naturalidade, delicadas como as pétalas secas que descansavam entre os potes de cerâmica dispostos sobre a mesa de madeira.

— A luz tênue do entardecer, que entrava suavemente pelas janelas do chalé, acariciava seus cabelos prateados, fazendo-os parecer uma extensão límpida do próprio luar.

— Você tem um dom, minha filha. Essas ervas florescem nas tuas mãos como se te reconhecessem, disse Raven com um sorriso doce e acolhedor, mantendo os olhos cheios de um orgulho maternal profundo.

— Acho que elas têm pena de mim, mamãe. Sabem perfeitamente que eu não sou tão boa com lutas corporais como Nyra.

— Então, elas me escolhem com carinho para cuidar delas, respondeu Shira, fingindo graça e leveza, mas escondendo uma certa insegurança que há tempos habitava seu peito.

Raven se aproximou devagar e tocou suavemente a testa da filha com a sua, em um gesto silencioso e carinhoso de puro afeto.

— A cura é uma forma de luta também, minha querida, é muito mais rara de se encontrar.

Antes que Shira pudesse responder às palavras reconfortantes da mãe, a porta da frente do chalé se abriu com uma força incomum, e a voz grave de Zephyr preencheu de imediato todo o espaço da residência.

— Estou em casa, ele anunciou, com o tom de voz denso e pesado.

Shira sentiu um arrepio frio subir por toda a sua espinha no exato instante em que ouviu o pai.

— Algo na voz e na postura do respeitado Beta do clã estava completamente diferente do habitual. — Ele definitivamente não costumava entrar em casa com tanta urgência no olhar, nem mesmo em dias de reuniões intensas do Conselho da alcateia.

Raven enxugou as mãos no avental de pano grosso e adiantou-se preocupada na direção do marido.

— Já voltou da reunião, não era para você ficar no conselho até o nascer da lua? — pergunta a sacerdotisa, buscando compreender a situação.

— Zephyr não respondeu de imediato à pergunta de sua companheira.

Seu olhar sério percorreu toda a extensão da sala de estar até pousar fixamente sobre Shira, que ainda segurava um punhado de folhas secas de artemísia entre os dedos trêmulos.

— Precisamos conversar ", declarou o Beta com firmeza e gravidade.

— Todos nós.

Nesse instante de tensão contida, a porta da frente abriu-se novamente com rapidez.

— O que aconteceu no acampamento?

— O que o Alpha disse no Conselho? — perguntou Nyra ao entrar ofegante, exibindo os cabelos negros desgrenhados pelo vento forte da mata e ostentando um olhar inquieto, como se sentisse no próprio ar o peso do que estava prestes a ser revelado.

Logo atrás de Nyra veio Hunter, o irmão mais velho da família, apresentando seus ombros largos contraídos e um semblante visivelmente tenso, agindo como se já soubesse a gravidade do que viria a seguir.

— Papai? — murmurou Shira, sentindo a própria voz tremer diante do silêncio que se instalava.

Zephyr respirou fundo para buscar forças no peito e finalmente falou com a firmeza inabalável de um lobo guerreiro, mas mantendo o coração aflito de um pai protetor.

— Shira e Nyra, vocês duas chegaram oficialmente à idade do acasalamento.

— O Alpha tomou sua decisão definitiva durante a reunião, e vocês duas foram prometidas.

O silêncio sepulcral que se seguiu àquela declaração foi quase sagrado e assustador, como se o próprio tempo ao redor do chalé tivesse prendido a respiração em choque.

—'Shira largou imediatamente as ervas que segurava sobre a mesa.

—O perfume suave de cura que antes dominava o ambiente deu lugar instantâneo a um cheiro ácido de pavor absoluto.

— Prometidas? — ela sussurrou com a voz embargada pela descrença.

— Para quem? — questionou Nyra com os olhos faiscando de raiva, mantendo o corpo inteiro em alerta máximo.

— Shira será unida a Raffi Kunda, o primeiro batedor do Alpha, revelou Zephyr com a voz pesada.

— Nyra, você foi destinada a Darios Fiachra, o segundo batedor de Hector.

Nyra empalideceu no mesmo segundo ao ouvir a sentença de seu destino impostor.

— Isso é completamente impossível, ele... — a jovem parou a frase no meio e mordeu os lábios com força para reter a indignação.

— Ele definitivamente não é minha alma gêmea. Eu não sou a companheira dele!

Nyra ergueu o queixo com imponência, revelando olhos que faiscavam no escuro como lâminas afiadas.

— Eu não aceito isso, pai! — sua voz saiu cortante e firme como aço temperado.

— Não é justo nem correto que decidam por mim algo que é tão sagrado para o nosso povo.

— O vínculo sagrado não é uma escolha arbitrária do Alpha; é uma escolha soberana da própria Lua!

Zephyr manteve o semblante duro e inexpressivo, mas o peso amargo que carregava em seus olhos o denotava completamente diante da família.

— Não é sobre o que nós aceitamos ou deixamos de aceitar, minha filha explicou o Beta.

— É a decisão oficial do Alpha e, como Beta deste clã, eu devo respeitar e fazer cumprir a autoridade suprema de Hector.

Raven deu um passo à frente com determinação, trazendo a voz profundamente carregada de um temor antigo e bem conhecido.

— Decisão do Alpha?

— Não, isso definitivamente não soa como a postura habitual de Hector — ponderou a curandeira.

— Eu conheço perfeitamente o nosso Alpha.

— Seus olhos se estreitaram em suspeita.

— Isso traz perfume venenoso e manipulador de Sorcha.

Ela está manipulando as decisões de Hector, eu tenho absoluta certeza disso.

A simples menção do nome de Sorcha fez o ar dentro do chalé pesar instantaneamente.

— Shira sentiu a espinha gelar ao recordar a presença daquela mulher; a memória amarga daquelas mãos frias tocando o altar ainda a assombrava nas noites mais escuras.

— Sorcha sempre soube, continuou Raven com o tom firme e decidido que os nossos costumes mais sagrados não podem ser quebrados dessa forma.

— Nós sempre esperamos a revelação do vínculo verdadeiro, e não um acasalamento forçado por mera conveniência política.

— Ela sabe perfeitamente que, se isso acontecer, os filhotes dessa união nascerão fracos e sem força, e mesmo sabendo disso, ela insiste nessa loucura.

Hunter, que até aquele momento ouvia toda a discussão em absoluto silêncio, avançou dois passos pela sala com os punhos fortemente cerrados.

— Eu concordo totalmente com a mamãe, declarou o jovem guerreiro, adotando um tom abertamente voltado para a guerra.

— Pai, o senhor precisa ir conversar diretamente com o Alpha.

— Chame-o em particular e faça-o ouvir a razão. Porque, se o senhor não fizer isso, eu mesmo ajudarei minhas irmãs a fugirem deste território hoje mesmo.

Zephyr virou-se bruscamente para o filho mais velho, sentindo o peso esmagador da liderança do clã e da paternidade dividido em seu semblante.

— Hunter!

— repreendeu o pai, tentando impor ordem na casa.

— Não, pai! — o jovem o interrompeu sem hesitar, sentindo o próprio sangue ferver nas veias.

— Eu não aceito de forma alguma que minhas irmãs sejam entregues como meras moedas de troca política.

— Esses dois batedores de Hector sequer gostam delas de verdade.

— Não as respeitam, não confiam nelas e, ainda assim, as querem forçar em um vínculo sagrado? Isso não é uma escolha de união; isso é uma sentença de prisão.

Nyra girou o rosto rapidamente na direção do irmão mais velho, mantendo o coração batendo de forma acelerada no peito.

— Você acha que ele realmente não é o meu companheiro de alma? — perguntou a jovem com a voz hesitante.

Hunter respirou fundo antes de responder à irmã com sinceridade.

— Se ele fosse o seu verdadeiro companheiro, Nyra, você já teria sentido o calor do vínculo no seu peito, explicou o guerreiro.

— Teria dado todos os sinais da união, e até agora não houve absolutamente nenhum.

— Essa ideia pode ser apenas um feitiço ou uma ilusão perigosa plantada por Sorcha para te enganar.

As palavras duras de Hunter pairaram no ar do chalé como uma lâmina afiada suspensa sobre a família.

— Raven aproximou-se carinhosamente de Nyra e segurou a mão da filha entre as suas.

— Escute com atenção o seu irmão, minha menina.

Ele não é o seu verdadeiro companheiro de alma você quer acreditar que ele é apenas para tentar aceitar essa situação, mas você está iludida. — Sorcha sempre possuiu esse poder sombrio de manipulação, essa capacidade terrível de distorcer o que o coração enxerga com clareza.

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