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CAPÍTULO 6

O Caminho para Grinvale

Três dias se passaram desde a conversa na sala.

Durante esse tempo, a casa permaneceu estranhamente silenciosa.

Não porque Richard e Helena evitassem Lucien. Pelo contrário. Continuavam dividindo o café da manhã, perguntando como havia sido o trabalho e comentando as pequenas notícias da cidade, exatamente como sempre fizeram.

Era justamente essa normalidade que tornava tudo mais difícil.

Nenhum dos três sabia como agir diante da verdade que finalmente deixara de existir apenas entre quatro paredes.

Lucien também não voltou a tocar no assunto.

Não por falta de perguntas.

Elas continuavam ali, ocupando seus pensamentos desde a hora em que acordava até o momento de apagar a lamparina no fim da noite.

Mas compreendeu que Richard e Helena já haviam lhe contado tudo o que eram capazes de contar.

O restante das respostas não estava naquela casa.

Estava em Grinvale.

Naquela manhã, levantou-se antes do amanhecer.

A pequena mala permanecia aberta sobre a cama desde a noite anterior. Não havia muito para levar. Algumas mudas de roupa, documentos, um casaco mais pesado para enfrentar o frio e a caixa de madeira que Richard lhe entregara.

Antes de fechá-la, abriu a tampa mais uma vez.

Dentro estavam um relógio de bolso já sem brilho, uma fotografia antiga de um casal que nunca vira antes e um medalhão de prata envolvido por um lenço cuidadosamente dobrado.

Ainda não conhecia aquelas pessoas.

Mesmo assim, demorou alguns segundos observando seus rostos.

Talvez fossem seus pais.

Talvez apenas conhecidos da família.

Ainda era cedo para tirar conclusões.

Fechou a caixa e a acomodou com cuidado entre as roupas.

Quando terminou de arrumar a mala, permaneceu parado no centro do quarto.

Ali havia passado praticamente toda a infância.

As marcas na parede, a estante construída por Richard e a escrivaninha onde estudara durante tantos anos faziam parte da sua história tanto quanto qualquer lembrança da escola ou do escritório.

Respirou fundo.

Pela primeira vez, percebeu que partir não significava abandonar aquela casa.

Significava voltar algum dia sabendo exatamente quem era.

Quando Lucien desceu as escadas, o cheiro de café recém-passado já tomava conta da casa.

Helena estava de costas para a porta, terminando de colocar a mesa. O pão ainda soltava um pouco de vapor, e a chaleira permanecia sobre o fogão, aquecendo a água para o chá.

Ao ouvir seus passos, ela se virou.

Os olhos passaram rapidamente pela mala que ele carregava.

Não demonstrou surpresa.

Apenas puxou uma cadeira.

— O café vai esfriar.

Lucien deixou a mala próxima à porta e sentou-se.

Poucos segundos depois, Richard entrou na cozinha ajustando o relógio no pulso. Cumprimentou o filho como fazia todas as manhãs e ocupou seu lugar à mesa.

Durante alguns minutos, os três permaneceram em silêncio.

O som das xícaras sendo apoiadas sobre a mesa e dos talheres tocando os pratos preenchia o ambiente de maneira estranhamente confortável.

Era uma manhã igual a tantas outras.

E, ao mesmo tempo, completamente diferente.

Foi Richard quem quebrou o silêncio.

— Que horas parte o trem?

Lucien terminou de engolir o café antes de responder.

— No fim da manhã.

Richard apenas assentiu.

— Dá tempo de chegar com calma.

Ninguém mencionou Grinvale.

Ninguém falou sobre a carta.

Não havia necessidade.

Os três sabiam exatamente por que aquela mala estava encostada ao lado da porta.

Quando terminaram o café, Helena começou a recolher a louça.

Lucien levantou-se para ajudá-la, mas ela balançou a cabeça.

— Hoje não.

Ele hesitou.

— Eu posso...

— Eu sei.

Ela sorriu de maneira discreta.

— Mas deixe que eu faço isso.

Lucien abaixou lentamente as mãos.

Helena aproximou-se e ajeitou, mais uma vez, a gola de seu casaco.

Era um gesto pequeno.

O mesmo de tantos anos.

Quando terminou, manteve a mão sobre seu ombro por apenas um instante.

— Cuide de você.

Ele sorriu, embora sentisse um aperto silencioso no peito.

— Vou cuidar.

Richard aproximou-se logo depois.

Não era um homem acostumado a abraços.

Nunca fora.

Em vez disso, estendeu a mão.

Lucien olhou para ela por um segundo.

Depois sorriu de leve e a apertou.

Richard segurou sua mão um pouco mais do que o habitual.

— Faça o que precisa fazer.

Mas não tenha pressa para encontrar todas as respostas.

Algumas levam tempo.

Lucien concordou em silêncio.

Olhou uma última vez para os dois.

Naquele instante, compreendeu que nada do que descobrisse em Grinvale mudaria o lugar que Richard e Helena ocupavam em sua vida.

Eles talvez não lhe tivessem dado o sobrenome de nascimento.

Mas haviam lhe dado uma infância, um lar e tudo o que sabiam oferecer.

E isso jamais deixaria de existir.

Lucien fechou a mala devagar.

O fecho metálico estalou baixo, quebrando o silêncio do quarto.

Permaneceu alguns segundos com a mão apoiada sobre a alça, como se ainda esperasse encontrar um motivo para adiar a viagem.

Não encontrou.

Abriu a porta e desceu a escada.

O cheiro de café recém-passado já tomava conta da casa.

Helena estava na cozinha, de costas para a porta, terminando de cortar um pedaço de pão. Ouviu seus passos e voltou-se imediatamente.

Os olhos dela desceram até a mala.

Não disse nada.

Apenas compreendeu.

— Você já vai? — perguntou depois de alguns instantes.

Lucien fez um leve aceno com a cabeça.

— O trem parte no fim da manhã.

Ela respirou fundo.

— Vou colocar mais café.

Era sua maneira de ganhar alguns minutos.

Enquanto enchia a chaleira outra vez, Richard entrou na cozinha ainda ajustando os suspensórios. Parou assim que viu a mala ao lado da porta.

Seu olhar encontrou o de Lucien.

Nenhum dos dois precisou explicar o que estava acontecendo.

Richard aproximou-se da mesa e puxou uma cadeira.

— Sente-se.

Lucien obedeceu.

Os três tomaram café quase em silêncio.

Helena insistiu para que ele comesse mais um pedaço de pão.

Richard comentou que a previsão anunciava chuva para o fim da tarde.

E, por alguns minutos, parecia que nada havia mudado.

Quando terminaram, Helena recolheu as xícaras e levou-as até a pia.

Lucien levantou-se.

— Acho que preciso ir.

Ela enxugou as mãos no avental antes de se aproximar.

Parou diante dele por um instante, como se procurasse as palavras certas.

No fim, apenas ajeitou discretamente a gola de seu casaco.

Era o mesmo gesto que fazia desde que ele era menino.

— Cuide de você.

Lucien sorriu com tristeza.

— Pode deixar.

Richard aproximou-se logo depois.

Nunca fora um homem de abraços.

Mesmo assim, colocou uma das mãos sobre o ombro do filho e a apertou de leve.

— Faça o que precisa fazer.

Depois olhou diretamente para ele.

— Mas lembre-se de uma coisa.

Lucien esperou.

— Independentemente do que descobrir em Grinvale... esta sempre será a sua casa.

As palavras ficaram suspensas entre os dois.

Lucien apenas assentiu.

Naquele instante, percebeu que algumas ligações não dependiam do sangue.

Dependiam do tempo.

Da convivência.

E do amor silencioso que, durante tantos anos, nenhum deles soubera colocar em palavras.

Ele pegou a mala junto à porta.

Respirou fundo.

Então atravessou a soleira da casa sem olhar para trás, porque sabia que, se o fizesse, talvez lhe faltasse coragem para continuar.

O portão rangeu baixinho quando Lucien o empurrou.

Assim que colocou os pés na calçada, ouviu a porta da casa se fechar atrás dele.

Não olhou para trás.

Não porque quisesse partir sem se despedir, mas porque já havia dito tudo o que era capaz. Permanecer mais alguns minutos apenas tornaria a despedida mais difícil para todos.

A mala parecia um pouco mais pesada do que naquela manhã.

Talvez não pelo que carregava dentro dela.

Talvez pelo que deixava para trás.

Começou a caminhar pelas ruas de Coverglen sem pressa.

Conhecia cada esquina daquele bairro. Sabia onde as crianças costumavam brincar depois da escola, qual padaria assava o primeiro pão do dia antes do amanhecer e em que horário o florista colocava os vasos na calçada para receber o sol da manhã.

Durante muitos anos, acreditou que viveria ali para sempre.

A ideia de deixar a cidade jamais lhe passara pela cabeça.

Ao cruzar a praça central, diminuiu o passo.

Um grupo de idosos conversava em um dos bancos de madeira enquanto algumas crianças corriam atrás de uma bola improvisada. Um cachorro atravessou a rua abanando o rabo, seguido por um garoto que ria sem conseguir alcançá-lo.

Lucien observou a cena por alguns instantes.

A vida continuava.

Continuaria também depois que o trem deixasse a estação.

Mais adiante, passou diante do escritório onde trabalhava.

As janelas estavam abertas e, do lado de dentro, era possível ver um dos colegas organizando documentos sobre uma mesa.

Por impulso, quase entrou para avisar que ficaria alguns dias fora.

Mas desistiu.

Já havia deixado tudo organizado na tarde anterior e explicara ao doutor Álvaro que precisaria resolver um assunto pessoal fora da cidade.

Era verdade.

Só não soubera explicar qual.

Continuou andando.

O movimento aumentava à medida que se aproximava da estação. Carruagens cruzavam a avenida em ambas as direções, vendedores ambulantes anunciavam frutas e jornais, e o apito distante de uma locomotiva rompeu o burburinho da cidade.

Lucien ergueu os olhos.

Os trilhos já podiam ser vistos entre os telhados.

A viagem que imaginara tantas vezes durante aqueles três dias finalmente deixava de ser um pensamento.

Dentro de poucos minutos, seria uma realidade.

O ar da rua parecia mais frio do que dentro de casa.

Lucien ajustou a alça da mala no ombro e começou a caminhar devagar pela calçada.

Os sons da cidade voltaram imediatamente: carruagens passando, vozes ao longe, o barulho constante de passos apressados que seguiam suas próprias rotinas.

Tudo continuava igual.

Era estranho perceber como o mundo não mudava só porque alguém estava deixando ele para trás.

Ao dobrar a primeira esquina, diminuiu o passo.

A casa ficou fora de vista.

Mesmo assim, não olhou para trás.

Não porque não quisesse.

Mas porque sabia que, se o fizesse, carregaria aquela imagem com ele de uma forma que seria difícil abandonar.

Seguiu em direção ao centro da cidade.

O caminho até a estação já era familiar demais para precisar pensar. Ainda assim, naquela manhã, cada rua parecia ter um peso diferente. As coisas que antes passavam despercebidas agora chamavam atenção de forma quase incômoda.

Uma mulher regava as plantas na varanda.

Um homem carregava caixas de madeira para dentro de uma loja.

Duas crianças discutiam por algo pequeno demais para importar.

Lucien percebeu que tudo aquilo continuaria existindo da mesma forma depois que ele fosse embora.

E, de algum modo, isso o incomodava mais do que deveria.

Quando finalmente alcançou a avenida principal, o movimento aumentou.

A estação já estava próxima.

O som da locomotiva crescia aos poucos, misturado ao burburinho de passageiros e vendedores que se acumulavam na plataforma.

Lucien parou por um instante antes de atravessar a rua.

A mão apertou mais firme o cabo da mala.

Não havia mais retorno.

Dessa vez, ele sabia disso com uma clareza que não existia na noite anterior.

Respirou fundo.

E continuou andando.

Lucien atravessou a avenida principal quando o sinal abriu.

O som da estação agora dominava tudo ao redor. O apito distante da locomotiva, o eco das rodas de metal contra os trilhos e o movimento constante de pessoas que entravam e saíam carregando suas próprias histórias.

Ele acompanhou o fluxo até a entrada principal.

A estrutura da estação era mais antiga do que lembrava. As paredes de pedra escurecidas pelo tempo ainda guardavam marcas de reformas antigas, e o grande relógio no alto marcava alguns minutos antes da partida.

Lucien parou por um instante na entrada.

Observou a plataforma.

Pessoas se despediam rapidamente.

Alguns sorriam.

Outros evitavam olhar nos olhos de quem ficava.

E havia aqueles que simplesmente seguiam em silêncio, como ele.

Respirou fundo e entrou.

O cheiro de carvão, ferro quente e madeira antiga o atingiu assim que cruzou a porta.

Na plataforma, o trem já estava parado.

Vagões alinhados, janelas abertas, e passageiros entrando apressados antes do apito final.

Lucien caminhou devagar entre as pessoas.

A mala agora parecia menos pesada.

Não porque tivesse diminuído o peso.

Mas porque ele havia parado de tentar ignorá-lo.

Encontrou o vagão indicado em sua passagem.

Subiu os degraus com cuidado.

Por um instante, ficou parado no corredor, observando os assentos ocupados, as malas sendo guardadas e as conversas baixas que preenchiam o espaço.

Tudo parecia comum.

E ainda assim, nada era comum para ele naquele momento.

Avançou até seu lugar.

O número estava correto.

Sentou-se junto à janela.

Ajustou a mala ao lado das pernas e manteve as mãos sobre os joelhos por alguns segundos.

Do lado de fora, a plataforma começava a esvaziar.

Os últimos passageiros subiam.

Funcionários caminhavam rapidamente para fora dos trilhos.

E então o apito final ecoou pela estação.

Lucien encostou a testa levemente no vidro frio.

Sentiu o trem vibrar sob seus pés.

As rodas começaram a se mover.

Lentamente.

Depois com mais firmeza.

A estação ficou para trás.

A cidade também.

E com ela, tudo o que ele conhecia até aquele momento.

Lucien não sabia exatamente o que encontraria em Grinvale.

Mas pela primeira vez, não estava apenas reagindo à vida.

Estava indo em direção a ela.

E, em algum outro vagão daquele mesmo trem, Elara seguia o mesmo caminho sem saber que sua história estava prestes a cruzar a dele.

O trem seguiu adiante.

Sem voltar.

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