Capítulo 8 — O Chamado do Don

Estou dizendo que há pessoas tentando descobrir o que ele deixou para trás.

Giulia pensou nas vozes no corredor.

E se a garota souber o que o pai escondeu?”

Eu não sei de nada — ela disse.

Acredito em você.

A resposta a surpreendeu.

Acredita?

Sobre isso, sim.

Então por que seus homens me cercaram ontem?

O olhar de Lorenzo endureceu.

Aqueles homens não agiram sob minha ordem.

Mas eram da sua família.

Esse é um termo amplo.

Conveniente.

Realista.

Giulia cruzou os braços, tentando se proteger da sensação de que o chão sob seus pés mudava a cada frase.

Minha mãe disse que você é o chefe da família Vitale.

Lorenzo não respondeu de imediato.

Foi até uma mesa lateral e serviu café em uma xícara pequena. Não ofereceu a ela. Talvez porque soubesse que ela recusaria.

Sua mãe é uma mulher prudente.

Isso não foi resposta.

Foi confirmação suficiente.

Giulia sentiu um frio correr por dentro.

Mesmo já sabendo, ouvir daquela maneira transformava boato em fato.

Então é verdade — ela disse. — Você é o chefe.

Lorenzo tomou um gole de café.

Sim.

Uma palavra.

Sem dramatização.

Sem orgulho visível.

Mas o peso dela encheu a sala.

Giulia encarou o homem diante de si, tentando reconciliar as partes impossíveis: o homem que afastara cacos de vidro para ela não se ferir; o homem que mandava políticos tremerem; o homem que a olhava como se quisesse desmontar suas defesas; o chefe de uma família capaz de destruir vidas.

Quantas pessoas você já machucou? — ela perguntou antes de conseguir impedir.

Salvatore, parado perto da porta, ficou rígido.

Lorenzo não olhou para ele. Manteve os olhos nela.

Menos do que alguns mereciam. Mais do que você suportaria saber.

A honestidade foi como uma porta aberta para um lugar escuro.

Giulia sentiu náusea.

E espera que eu faça acordo com você?

Você já veio pedir isso.

Antes de saber.

Não. — Lorenzo colocou a xícara sobre a mesa. — Você já sabia. Talvez não os detalhes. Mas sabia o bastante. Mesmo assim, veio.

Aquilo a calou.

Porque era verdade.

Ela tinha visto o medo nos olhos dos outros. Tinha ouvido os avisos. Tinha ido mesmo assim.

Eu vim pela minha mãe.

Sei.

Você não sabe nada sobre cuidar de alguém.

A expressão dele mudou tão rápido que talvez outra pessoa não percebesse.

Mas Giulia percebeu.

Uma sombra. Um corte. Algo antigo.

Cuidado com o que presume — ele disse.

Então me diga que estou errada.

Ele se aproximou um passo.

Você não quer me conhecer melhor, Giulia.

Talvez eu queira saber com quem estou lidando.

Não é a mesma coisa.

A tensão entre eles voltou, espessa e incômoda.

Giulia odiava como ele conseguia puxar tudo para aquele fio perigoso, mesmo quando falavam de dívidas e morte. Odiava principalmente como seu corpo respondia antes que sua razão pudesse impedir.

Eu quero um acordo por escrito — ela disse, voltando ao que importava. — Um valor. Um prazo. Sem ameaças. Sem homens na frente da minha casa.

Lorenzo a observou por alguns segundos.

Você não está em posição de ditar termos.

E você não está lidando com alguém que vai se ajoelhar.

O olhar dele desceu lentamente por ela. Não de forma vulgar. Pior. Como se a frase tivesse acendido algo nele.

Ainda não descobri o que fazer com essa sua coragem.

Experimente respeitá-la.

Respeito é caro.

Então deve caber no seu orçamento.

Pela segunda vez desde que se conheceram, Lorenzo quase sorriu.

Salvatore tossiu discretamente, como se escondesse uma reação.

Lorenzo olhou para ele.

Saia.

Salvatore obedeceu imediatamente.

A porta se fechou.

Giulia percebeu tarde demais que agora estava sozinha com Lorenzo.

Isso era necessário?

Você queria falar sem homens me interrompendo.

Eu não disse isso.

Não precisou.

Ele voltou para trás da mesa e abriu uma pasta.

Seu pai devia uma quantia alta. Mas esse não é o motivo pelo qual mandei chamá-la.

Giulia ficou alerta.

Então qual é?

Lorenzo retirou uma fotografia da pasta e deslizou sobre a mesa.

Giulia se aproximou, contra a própria vontade.

A foto mostrava seu pai saindo de um restaurante, usando o casaco marrom de sempre. Ao lado dele, um homem que Giulia não conhecia. Alto, cabelo grisalho, rosto estreito.

Quem é?

Matteo Ricci.

O nome não significava nada para ela.

Deveria conhecer?

Espero que não.

Quem é ele?

Membro influente da família Ricci.

Outra família criminosa?

Rival.

Giulia olhou para a foto outra vez.

O pai parecia nervoso. A mão no bolso, os ombros curvados, o olhar de quem temia ser visto.

Quando foi tirada?

Duas semanas antes da morte dele.

O peito dela apertou.

Por que meu pai estava com ele?

É isso que quero saber.

Giulia levantou os olhos.

Você acha que eu sei?

Acho que talvez encontre algo entre os documentos dele.

Então é por isso. — Ela recuou, ferida. — Você me chamou para me usar.

Eu chamei para avisá-la.

Mentira. Quer que eu procure coisas na minha casa para você.

Lorenzo fechou a pasta.

Se eu quisesse revistar sua casa, já teria feito.

O sangue dela gelou.

Isso deveria me acalmar?

Deveria fazê-la entender a diferença entre o que posso fazer e o que escolhi fazer.

Que nobre da sua parte não invadir minha casa.

A mandíbula dele endureceu.

Não teste minha paciência.

Não confunda minha indignação com teste.

Eles se encararam sobre a mesa.

O sol entrava pelas janelas, iluminando partículas de poeira no ar, mas Giulia só sentia a escuridão daquele lugar. A foto do pai parecia queimá-la.

Meu pai morreu de ataque cardíaco — ela disse.

Foi o que o relatório afirmou.

Giulia perdeu o ar.

Está dizendo que não foi?

Estou dizendo que Carlo Moretti estava com medo antes de morrer. Homens com medo cometem erros. E homens que cometem erros perto dos Ricci não costumam envelhecer.

O chão pareceu se mover.

Não.

Giulia—

Não faça isso. — A voz dela falhou pela primeira vez. — Não entre aqui e transforme a morte do meu pai em mais um jogo de poder.

Lorenzo saiu de trás da mesa.

Eu não jogo com mortos.

Só com vivos?

Ele parou diante dela.

Com vivos, às vezes.

Havia frieza na resposta, mas também algo que parecia verdade.

Giulia respirou fundo, tentando controlar a emoção.

O que quer de mim?

Que tome cuidado. Que não fale com estranhos sobre os documentos do seu pai. Que não confie em ninguém que mencione o nome Ricci. E que, se encontrar qualquer papel, caderno, chave, fotografia ou número que pareça fora do lugar, me ligue.

Ela riu, incrédula.

Para você?

Sim.

Porque devo confiar no chefe da família Vitale?

Não deve.

Giulia piscou, pega de surpresa.

Lorenzo se aproximou apenas o suficiente para que sua voz baixasse.

Mas, neste momento, deve confiar menos em todos os outros.

Aquilo era horrível.

Porque fazia sentido.

Você quer me assustar.

Quero que viva.

A frase, dita de forma tão direta, tirou a resposta da boca dela.

Por um instante, Giulia viu não o mafioso, não o homem que todos temiam, mas alguém acostumado a medir o mundo em ameaças. Alguém que via perigo antes de ver esperança.

Por quê? — ela perguntou. — Por que se importa se eu vivo?

Lorenzo ficou em silêncio.

Dessa vez, a resposta não veio fácil.

A distância entre eles pareceu diminuir sozinha.

Porque seu pai talvez tenha morrido por algo que também ameaça minha família.

Giulia ignorou a pontada estranha de decepção.

Claro.

Não era sobre ela.

Era sobre poder. Estratégia. Controle.

Entendi — ela disse. — Sou útil.

O olhar dele escureceu.

Você é inconveniente.

Melhor ainda.

E imprudente.

Está fazendo elogios ou inventário?

Ainda estou decidindo.

Giulia pegou a foto do pai e de Matteo Ricci.

Posso ficar com isso?

Não.

É meu pai.

É minha investigação.

A raiva voltou.

Você é insuportável.

Já ouvi isso hoje.

Ouvirá muitas vezes se continuar perto de mim.

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