Mundo de ficçãoIniciar sessão— Estou dizendo que há pessoas tentando descobrir o que ele deixou para trás.
Giulia pensou nas vozes no corredor.
“E se a garota souber o que o pai escondeu?”
— Eu não sei de nada — ela disse.
— Acredito em você.
A resposta a surpreendeu.
— Acredita?
— Sobre isso, sim.
— Então por que seus homens me cercaram ontem?
O olhar de Lorenzo endureceu.
— Aqueles homens não agiram sob minha ordem.
— Mas eram da sua família.
— Esse é um termo amplo.
— Conveniente.
— Realista.
Giulia cruzou os braços, tentando se proteger da sensação de que o chão sob seus pés mudava a cada frase.
— Minha mãe disse que você é o chefe da família Vitale.
Lorenzo não respondeu de imediato.
Foi até uma mesa lateral e serviu café em uma xícara pequena. Não ofereceu a ela. Talvez porque soubesse que ela recusaria.
— Sua mãe é uma mulher prudente.
— Isso não foi resposta.
— Foi confirmação suficiente.
Giulia sentiu um frio correr por dentro.
Mesmo já sabendo, ouvir daquela maneira transformava boato em fato.
— Então é verdade — ela disse. — Você é o chefe.
Lorenzo tomou um gole de café.
— Sim.
Uma palavra.
Sem dramatização.
Sem orgulho visível.
Mas o peso dela encheu a sala.
Giulia encarou o homem diante de si, tentando reconciliar as partes impossíveis: o homem que afastara cacos de vidro para ela não se ferir; o homem que mandava políticos tremerem; o homem que a olhava como se quisesse desmontar suas defesas; o chefe de uma família capaz de destruir vidas.
— Quantas pessoas você já machucou? — ela perguntou antes de conseguir impedir.
Salvatore, parado perto da porta, ficou rígido.
Lorenzo não olhou para ele. Manteve os olhos nela.
— Menos do que alguns mereciam. Mais do que você suportaria saber.
A honestidade foi como uma porta aberta para um lugar escuro.
Giulia sentiu náusea.
— E espera que eu faça acordo com você?
— Você já veio pedir isso.
— Antes de saber.
— Não. — Lorenzo colocou a xícara sobre a mesa. — Você já sabia. Talvez não os detalhes. Mas sabia o bastante. Mesmo assim, veio.
Aquilo a calou.
Porque era verdade.
Ela tinha visto o medo nos olhos dos outros. Tinha ouvido os avisos. Tinha ido mesmo assim.
— Eu vim pela minha mãe.
— Sei.
— Você não sabe nada sobre cuidar de alguém.
A expressão dele mudou tão rápido que talvez outra pessoa não percebesse.
Mas Giulia percebeu.
Uma sombra. Um corte. Algo antigo.
— Cuidado com o que presume — ele disse.
— Então me diga que estou errada.
Ele se aproximou um passo.
— Você não quer me conhecer melhor, Giulia.
— Talvez eu queira saber com quem estou lidando.
— Não é a mesma coisa.
A tensão entre eles voltou, espessa e incômoda.
Giulia odiava como ele conseguia puxar tudo para aquele fio perigoso, mesmo quando falavam de dívidas e morte. Odiava principalmente como seu corpo respondia antes que sua razão pudesse impedir.
— Eu quero um acordo por escrito — ela disse, voltando ao que importava. — Um valor. Um prazo. Sem ameaças. Sem homens na frente da minha casa.
Lorenzo a observou por alguns segundos.
— Você não está em posição de ditar termos.
— E você não está lidando com alguém que vai se ajoelhar.
O olhar dele desceu lentamente por ela. Não de forma vulgar. Pior. Como se a frase tivesse acendido algo nele.
— Ainda não descobri o que fazer com essa sua coragem.
— Experimente respeitá-la.
— Respeito é caro.
— Então deve caber no seu orçamento.
Pela segunda vez desde que se conheceram, Lorenzo quase sorriu.
Salvatore tossiu discretamente, como se escondesse uma reação.
Lorenzo olhou para ele.
— Saia.
Salvatore obedeceu imediatamente.
A porta se fechou.
Giulia percebeu tarde demais que agora estava sozinha com Lorenzo.
— Isso era necessário?
— Você queria falar sem homens me interrompendo.
— Eu não disse isso.
— Não precisou.
Ele voltou para trás da mesa e abriu uma pasta.
— Seu pai devia uma quantia alta. Mas esse não é o motivo pelo qual mandei chamá-la.
Giulia ficou alerta.
— Então qual é?
Lorenzo retirou uma fotografia da pasta e deslizou sobre a mesa.
Giulia se aproximou, contra a própria vontade.
A foto mostrava seu pai saindo de um restaurante, usando o casaco marrom de sempre. Ao lado dele, um homem que Giulia não conhecia. Alto, cabelo grisalho, rosto estreito.
— Quem é?
— Matteo Ricci.
O nome não significava nada para ela.
— Deveria conhecer?
— Espero que não.
— Quem é ele?
— Membro influente da família Ricci.
— Outra família criminosa?
— Rival.
Giulia olhou para a foto outra vez.
O pai parecia nervoso. A mão no bolso, os ombros curvados, o olhar de quem temia ser visto.
— Quando foi tirada?
— Duas semanas antes da morte dele.
O peito dela apertou.
— Por que meu pai estava com ele?
— É isso que quero saber.
Giulia levantou os olhos.
— Você acha que eu sei?
— Acho que talvez encontre algo entre os documentos dele.
— Então é por isso. — Ela recuou, ferida. — Você me chamou para me usar.
— Eu chamei para avisá-la.
— Mentira. Quer que eu procure coisas na minha casa para você.
Lorenzo fechou a pasta.
— Se eu quisesse revistar sua casa, já teria feito.
O sangue dela gelou.
— Isso deveria me acalmar?
— Deveria fazê-la entender a diferença entre o que posso fazer e o que escolhi fazer.
— Que nobre da sua parte não invadir minha casa.
A mandíbula dele endureceu.
— Não teste minha paciência.
— Não confunda minha indignação com teste.
Eles se encararam sobre a mesa.
O sol entrava pelas janelas, iluminando partículas de poeira no ar, mas Giulia só sentia a escuridão daquele lugar. A foto do pai parecia queimá-la.
— Meu pai morreu de ataque cardíaco — ela disse.
— Foi o que o relatório afirmou.
Giulia perdeu o ar.
— Está dizendo que não foi?
— Estou dizendo que Carlo Moretti estava com medo antes de morrer. Homens com medo cometem erros. E homens que cometem erros perto dos Ricci não costumam envelhecer.
O chão pareceu se mover.
— Não.
— Giulia—
— Não faça isso. — A voz dela falhou pela primeira vez. — Não entre aqui e transforme a morte do meu pai em mais um jogo de poder.
Lorenzo saiu de trás da mesa.
— Eu não jogo com mortos.
— Só com vivos?
Ele parou diante dela.
— Com vivos, às vezes.
Havia frieza na resposta, mas também algo que parecia verdade.
Giulia respirou fundo, tentando controlar a emoção.
— O que quer de mim?
— Que tome cuidado. Que não fale com estranhos sobre os documentos do seu pai. Que não confie em ninguém que mencione o nome Ricci. E que, se encontrar qualquer papel, caderno, chave, fotografia ou número que pareça fora do lugar, me ligue.
Ela riu, incrédula.
— Para você?
— Sim.
— Porque devo confiar no chefe da família Vitale?
— Não deve.
Giulia piscou, pega de surpresa.
Lorenzo se aproximou apenas o suficiente para que sua voz baixasse.
— Mas, neste momento, deve confiar menos em todos os outros.
Aquilo era horrível.
Porque fazia sentido.
— Você quer me assustar.
— Quero que viva.
A frase, dita de forma tão direta, tirou a resposta da boca dela.
Por um instante, Giulia viu não o mafioso, não o homem que todos temiam, mas alguém acostumado a medir o mundo em ameaças. Alguém que via perigo antes de ver esperança.
— Por quê? — ela perguntou. — Por que se importa se eu vivo?
Lorenzo ficou em silêncio.
Dessa vez, a resposta não veio fácil.
A distância entre eles pareceu diminuir sozinha.
— Porque seu pai talvez tenha morrido por algo que também ameaça minha família.
Giulia ignorou a pontada estranha de decepção.
Claro.
Não era sobre ela.
Era sobre poder. Estratégia. Controle.
— Entendi — ela disse. — Sou útil.
O olhar dele escureceu.
— Você é inconveniente.
— Melhor ainda.
— E imprudente.
— Está fazendo elogios ou inventário?
— Ainda estou decidindo.
Giulia pegou a foto do pai e de Matteo Ricci.
— Posso ficar com isso?
— Não.
— É meu pai.
— É minha investigação.
A raiva voltou.
— Você é insuportável.
— Já ouvi isso hoje.
— Ouvirá muitas vezes se continuar perto de mim.







