Mundo de ficçãoIniciar sessão— Não. Escute. Lorenzo Vitale não é um playboy rico, nem um desses homens que aparecem em jornais sorrindo ao lado de políticos. Ele é o homem que políticos evitam contrariar. É o nome por trás de contratos, portos, cassinos, hotéis, campanhas eleitorais e funerais que ninguém investiga.
Giulia sentiu a garganta secar.
— Então os boatos são verdade.
— Boatos? — Amalia soltou uma risada curta. — Querida, boato é quando dizem que uma viúva da Via Roma envenenou o terceiro marido. Sobre os Vitale, ninguém espalha boato. As pessoas apenas sobrevivem sabendo quando calar.
Giulia olhou para a rua através da vitrine.
Um homem passava devagar demais.
Seu pulso acelerou.
— Ele me ajudou ontem — disse, sem saber por que sentia necessidade de defender aquela ideia.
Amalia estreitou os olhos.
— Homens como Lorenzo Vitale não ajudam. Eles investem.
A frase bateu perto demais do que Rosa dissera.
— Ele impediu que dois homens me machucassem.
— Homens dele?
— Ligados à família.
— Então ele a protegeu de uma ameaça que nasceu dentro do mundo dele. Isso não é bondade, é controle de danos.
Giulia ficou irritada porque a análise fazia sentido.
— Eu não sou ingênua.
— Não disse que era. Mas desespero deixa gente inteligente vulnerável.
Giulia baixou os olhos.
Amalia suspirou, mais suave.
— O que ele quer?
— Disse que alguém viria falar da dívida.
— Não será alguém. Será ele, se você chamou atenção o bastante.
Giulia lembrou do olhar dele. Do “ainda não”. Do “você pertence ao meu território”.
— Eu não chamei.
Amalia ergueu uma sobrancelha.
Giulia desviou.
— Talvez um pouco.
— Giulia...
A sineta da porta tocou.
As duas se calaram.
Um homem entrou.
Não era cliente.
Mesmo sem terno, sem arma visível, sem dizer uma palavra, ele carregava aquela mesma disciplina dos seguranças do palazzo. Cabelos escuros, barba rala, expressão fechada. Seus olhos encontraram Giulia imediatamente.
— Signorina Moretti.
Amalia ficou rígida atrás do balcão.
Giulia respirou fundo.
— Quem pergunta?
— Salvatore Greco. Trabalho para Don Lorenzo.
Don Lorenzo.
A livraria pareceu menor.
— Claro que trabalha — Giulia murmurou.
Salvatore não reagiu.
— O carro está esperando.
— Para quê?
— Don Lorenzo quer vê-la.
Amalia deu um passo à frente.
— Ela está trabalhando.
Salvatore olhou para a senhora com respeito frio.
— Não vai demorar.
Giulia cruzou os braços.
— Ele poderia ter marcado um horário como uma pessoa civilizada.
— Don Lorenzo não costuma marcar horários.
— Que triste para ele. Eu costumo cumprir os meus.
Pela primeira vez, algo parecido com diversão passou pelo rosto de Salvatore.
— Ele disse que a senhora falaria algo assim.
Giulia se irritou mais.
— E ainda assim mandou você?
— Ele também disse que, se a senhora recusasse, eu deveria informar que isto diz respeito à dívida do seu pai.
A menção a Carlo calou a resposta na boca dela.
Amalia tocou seu braço.
— Não vá sozinha.
Salvatore respondeu antes:
— Ela estará segura.
— Com os Vitale? — Amalia rebateu.
O olhar dele endureceu.
— Especialmente com os Vitale.
Giulia não gostou do modo como a frase soou verdadeira para ele. Como se aquelas pessoas realmente acreditassem em uma ordem própria. Uma lei paralela. Um mundo onde Lorenzo Vitale podia ser ameaça e abrigo ao mesmo tempo.
Ela pegou a bolsa.
— Se eu não voltar em uma hora, chame a polícia.
Salvatore olhou para ela como se tivesse acabado de dizer algo infantil.
Amalia, porém, segurou a mão de Giulia.
— Polícia nenhuma compra briga com ele.
Giulia apertou a mão da mulher.
— Eu volto.
Esperava que fosse verdade.
O carro não a levou ao Palazzo Belladonna.
Levou-a até a região antiga do porto de Palermo, onde armazéns restaurados dividiam espaço com restaurantes caros, barcos privados e construções que pareciam abandonadas apenas para quem não sabia olhar. O mar brilhava sob o sol da manhã, bonito demais para combinar com o peso no peito de Giulia.
O veículo parou diante de um prédio de pedra clara com janelas altas e portas negras.
Do lado de fora, nenhum letreiro.
Nenhum nome.
Apenas dois homens na entrada.
Salvatore abriu a porta.
— Por aqui.
Giulia saiu do carro com a sensação desagradável de estar atravessando outra fronteira invisível.
Dentro, o prédio era elegante e austero. Piso escuro, paredes claras, poucas obras de arte. Nada de ostentação desnecessária. O lugar não gritava riqueza. Sussurrava poder.
E isso era pior.
Salvatore a conduziu por um corredor até uma porta dupla. Bateu duas vezes e abriu sem esperar resposta.
— Signorina Moretti.
Giulia entrou.
Lorenzo estava atrás de uma mesa ampla, falando ao telefone em italiano baixo. Usava terno cinza-escuro naquela manhã, a camisa branca aberta no primeiro botão, os cabelos perfeitamente arrumados. Parecia descansado. Controlado. Intocado.
Isso a irritou profundamente.
Ela, que passara a noite acordada, remoendo medo e perguntas, estava diante de um homem que parecia ter sido esculpido no próprio controle.
O escritório tinha janelas voltadas para o mar. A luz natural desenhava seu perfil com uma beleza quase ofensiva.
Lorenzo ergueu os olhos para ela enquanto terminava a ligação.
— Não — ele disse ao telefone. — Se Ricci insistir, lembre-o do que aconteceu da última vez que confundiu paciência com fraqueza.
Giulia ficou imóvel ao ouvir o nome.
Ricci.
Ele desligou.
Por um instante, apenas a observou.
— Você demorou.
A raiva dela veio com alívio. Era mais fácil sentir raiva.
— Eu estava trabalhando. Pessoas normais fazem isso.
— Pessoas normais também evitam invadir bailes de famílias criminosas.
Giulia estreitou os olhos.
— Então admite que é uma família criminosa?
Lorenzo recostou-se na cadeira.
— Eu admiti que você pensa assim.
— Todo mundo pensa assim.
— Todo mundo pensa muitas coisas. Poucos dizem em voz alta.
— Talvez porque tenham medo de você.
— Têm.
Nenhuma vergonha. Nenhum disfarce.
Giulia deveria estar preparada, mas a franqueza dele ainda a desestabilizava.
— Por que me chamou aqui?
Lorenzo fez um gesto para a cadeira diante da mesa.
— Sente-se.
— Prefiro ficar de pé.
— Imaginei.
— Então por que mandou sentar?
— Para confirmar.
Giulia soltou o ar pelo nariz.
— Você brinca com todo mundo ou sou uma exceção?
Os olhos dele brilharam de leve.
— Eu raramente brinco.
— Que vida triste.
— Tristeza não é uma palavra que costumo permitir perto de mim.
— Claro. Você provavelmente manda executá-la.
O silêncio veio rápido.
Giulia percebeu tarde demais o que disse.
Mas Lorenzo não pareceu ofendido. Pareceu interessado.
— Você tem uma boca perigosa, Giulia.
O nome dela naquela voz continuava sendo um problema.
— E você tem o hábito irritante de me chamar como se tivesse esse direito.
— Tenho muitos hábitos irritantes.
— Finalmente concordamos em algo.
Lorenzo levantou-se.
O movimento foi lento, mas o ambiente mudou. Ele era alto demais, presente demais. Quando contornou a mesa, Giulia teve que impedir o impulso de recuar.
Ele notou.
Claro que notou.
— Você está com medo.
— Estou irritada.
— As duas coisas.
— Não me analise.
— Você me procurou.
— Para negociar uma dívida, não para virar entretenimento.
Lorenzo parou diante dela, mantendo distância suficiente para parecer educado e pouca o bastante para perturbar.
— Vamos falar da dívida, então.
Giulia endureceu.
— Quanto?
— Seu pai devia mais do que dinheiro.
O coração dela apertou.
— O que isso significa?
— Significa que números são a parte simples.
— Eu não entendo charadas.
— Carlo Moretti trabalhou para pessoas diferentes ao longo dos anos. Assinou documentos que não deveria. Levou informações que não pertenciam a ele. Fez acordos com homens que cobram em sangue quando não recebem em dinheiro.
— Meu pai era contador.
— Contadores sabem onde os corpos financeiros estão enterrados.
A imagem a enojou.
— Ele não era criminoso.
Lorenzo inclinou a cabeça.
— Você diz isso como filha ou como alguém que leu todos os arquivos dele?
Giulia não respondeu.
Porque não havia lido tudo.
Havia caixas fechadas. Pastas com senhas. Cadernos com anotações que ela ainda não tivera coragem de decifrar.
Lorenzo percebeu.
— Você não sabe quem era seu pai por inteiro.
— E você sabe?
— Sei o suficiente para entender que a morte dele deixou pontas soltas.
— Está acusando meu pai de quê?







