Capítulo 4

Renata

As horas passaram como um milagre disfarçado de rotina. Eu revisava os contratos da obra da Marginal, respondia e-mails, e fingia que minha vida não estava suspensa por um fio chamado Lara. A cada vinte minutos, eu dava uma espiada na sala de arquivos, e lá estava ela: minha ninja silenciosa, desenhando no tablete ou mordiscando um biscoito da mochila. Eu quase comecei a acreditar que ia dar certo — Renata Albuquerque, a rainha do malabarismo, enganando o carrasco Marcelo Almeida com uma criança de cinco anos no bolso.

Por volta das 11h30, o tornado de terno caro saiu do escritório dele com aquele ar de quem está sempre atrasado para dominar o mundo.

— Tenho uma reunião na Paulista. Volto às 13h30. Quero os contratos prontos na minha mesa — ele disse, olhando para mim enquanto jogava o paletó por cima do ombro e marchava para o elevador.

— Sim, senhor — respondi, com meu sorriso de secretária robô, esperando que ele desaparecesse para que minhas costas pudessem relaxar.

Assim que o elevador fechou, soltei um “ufa” baixinho e corri para a sala de arquivos.

— Lara, hora do almoço, pequena! O chefe malvado saiu, a gente ganhou um intervalo — chamei, abrindo a porta com um alívio que quase me fez dançar.

Ela levantou os olhos do tablet, o rosto iluminado.

— Posso sair agora, mamãe? — disse, já pulando da cadeira como se tivesse esperado a vida toda por isso.

— Pode, mas só aqui dentro, tá? Vamos comer na minha mesa — falei, pegando o lanche que eu tinha improvisado de manhã: pão com requeijão, uma maçã e um suco de caixinha. Nada gourmet, mas para Lara era um banquete.

Sentamo-nos juntas na minha cadeira — eu no assento, ela no meu colo —, e por meia hora o escritório virou nosso mundinho. Ela me mostrou os desenhos que fez: uma casa, um sol gigante e um bonequinho careca que ela jurou ser o Marcelo.

— Ele não tem cabelo? — perguntei, rindo enquanto dava uma mordida no pão.

— Não sei, ele é muito bravo pra ter cabelo — respondeu, séria, e eu quase engasguei de tanto rir.

— Você é um gênio, pequena. Mas não conta isso pra ele, hein? — falei, bagunçando os cachinhos dela.

Aquele momento foi um respiro. Tudo parecia estar correndo bem — os contratos estavam quase prontos, o Marcelo estava fora, e a Lara, segura. Eu até me permiti sonhar com o fim do dia, levando ela para casa e caindo na cama com a sensação de missão cumprida. Renata, você é uma lenda, pensei, me dando tapinhas mentais nas costas.

Quando o relógio bateu 13h25, arrumei a Lara de volta na sala de arquivos.

— Tá quase acabando, pequena. O chefe volta logo, então você fica aqui quietinha de novo, tá? — falei, entregando o tablet e um último biscoito para mantê-la ocupada.

— Tá, mamãe. Eu sou ninja — ela disse, fazendo aquele movimento exagerado com os braços de novo.

— Ninja perfeita — respondi, piscando para ela antes de fechar a porta e voltar para minha mesa.

Marcelo chegou às 13h30 em ponto, como um relógio suíço. Não sei se outra pessoa consegue ser tão pontual quanto ele. Passou por mim com o mesmo “contratos prontos?” de sempre, e eu entreguei o maço revisado com meu “sim, senhor” ensaiado. Ele entrou no escritório dele, fechou a porta, e o silêncio voltou a reinar. Eu respirei aLarada. Falta pouco, Renata. Só mais umas horas e você está livre.

Por volta das 13h50, resolvi dar outra espiada na Lara. Levantei da cadeira, abri a porta da sala de arquivos com cuidado, e… nada. O tablet estava jogado na mesinha, os lápis de cor espalhados, mas a Lara? Sumida. Meu coração parou por uns três segundos antes de disparar como se eu tivesse corrido uma maratona.

— Lara? — chamei, baixinho, olhando para trás das estantes como se ela pudesse estar brincando de esconderijo. Nada.

Olhei para o corredor, para o banheiro, até debaixo da minha própria mesa — quem sabe, né? — mas minha ninja silenciosa tinha virado ninja desaparecida. Então meus olhos pararam na porta do escritório do Marcelo. Um calafrio subiu pela minha espinha. Não. Ela não teria... teria?

Renata, sua vida é uma comédia de terror.

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