Cap.8

Cap. 8

Ele continuou a segui-la, observando os passos desajeitados; ela nem se preocupava em olhar se ele a seguia.

Mas sorriu discretamente — não de felicidade, mas de alívio — ao saber que ele a acompanhava, mesmo sem saber que ela percebera sua presença a muitos metros de distância.

O blazer de Adon pesava sobre seus ombros, largo demais, quente demais, e mesmo assim ela o apertava contra o corpo como se fosse o último pedaço de abrigo que lhe restava no mundo. As pernas tremiam, mas ela andava com calma. A respiração vinha curta, entrecortada, como se o ar queimasse, mas o perfume dele tomava seu espaço, invadindo suas narinas de forma que fazia seu peito arder de um jeito bom.

Quando passou diante de uma vitrine, parou por um instante. O reflexo a fitava com estranha familiaridade, porém ela não se reconheceu. O vestido rasgado, a maquiagem borrada, os cabelos desalinhados e aquele olhar perdido — era como olhar para uma estranha.

— Droga... ele me viu assim... — ela murmurou, mordendo os lábios e passando a mão no rosto, como se importasse a forma como ele a via. — Que se dane, nunca nem tinha visto esse homem na minha vida.

Virou o rosto e continuou andando, abraçando o blazer como quem segura o próprio coração. Sentou-se no ponto de ônibus; era impossível não atrair olhares, mas suspirou aliviada por não estar tão exposta.

Em menos de cinco minutos o ônibus chegou. Selene subiu os degraus sem olhar para ninguém. O motorista a observou em silêncio — talvez com pena, talvez apenas curioso. As pessoas dentro do ônibus desviaram o olhar quando o cheiro de fumaça e sangue se espalhou; ela nem tinha percebido antes que suas mãos estavam sujas de sangue. Alguns franziram o nariz, outros cochicharam, mas ela fingiu não ver. Sentou-se no canto, encostando a testa na janela.

A poucos metros dali, dentro de um carro preto parado do outro lado da rua, Adon observava. Olhar fixo, impassível. O rosto mergulhado na penumbra, a pistola ainda sobre o colo.

— Lá está ela — Axel comentou, com meio sorriso, tamborilando os dedos no volante. — Parece um fantasma.

Adon não respondeu. Apenas inclinou o corpo para frente, o olhar acompanhando Selene subir no ônibus. Quando ela se sentou, soltou o ar pelo nariz, devagar, como se tivesse confirmado algo que já sabia.

— Pode seguir viagem — murmurou.

Axel ligou o carro. Olhou o retrovisor, curioso:

— Vamos atrás dela?

Adon manteve o olhar na janela do ônibus, onde o reflexo pálido de Selene ainda podia ser visto por um instante.

— Não — respondeu, com voz calma, quase entediada. — Já vi o que precisava ver, ela vai chegar em casa a partir daqui.

Axel girou o volante e o carro partiu na direção contrária. Enquanto o ônibus se afastava, o vidro refletiu por um segundo o rosto de Adon — frio, imóvel, carregando algo entre o desdém e o interesse.

— Onde você quer ir?

— De volta à boate.

Axel não contestou; apenas voltaram — ainda tinham trabalho a fazer.

— Você parece que vai tirar bastante vantagem dessa situação.

— Ela é quem acabou saindo na vantagem, no final das contas, só vai ter que me pagar de volta — disse Adon, entediado, e bocejou.

— Ficou velando o sono dela por acaso? Você vai morrer qualquer dia por falta de descanso, tá com a cara de zumbi, nem parece que tem 28 anos.

— Cuida da sua vida. Se, depois de anos, não morri, não é agora que vou.

— Mas vai mesmo esperar que ela pague? Pensei que você ia se divertir com o novo produto do Omar.

Adon girava a pistola entre os dedos, olhar frio como aço.

— Ela vale mais desse jeito. Enquanto estiver intocável, ele vai vir atrás do produto — e eu estarei lá para explodir os miolos dele. Essa garota será nossa ponte para acabar com aquele desgraçado.

— Omar é tratado como traidor por muita gente, mas tem poder e faz alianças. Isso pode ameaçar sua posição como don, ele pode até se tornar um candidato ao trono.

— Só se ele matar o don — disse ele. — Por isso essa menina será uma aliada poderosa, mesmo sem saber.

— Uma isca, você quer dizer.

— Chame como preferir.

— Pode ser que ela fique grata por você ter dado o blazer — Axel comentou, com ironia. — Ou por você ter dito que ela só precisa pagar o que pagaram por ela, certo?

— Ela tem que me devolver um décimo do valor que ela custou. Caso contrário, pode esquecer qualquer integridade.

— Ohhh, que maldade. Onde ela vai arrumar esse dinheiro? Tem gente que nem imagina quão podre é esta cidade — Axel ponderou. — Ela parece ingênua e sem ninguém.

— Exato — Adon respondeu. — Enquanto ela acreditar que fui eu quem a “comprou”, vai colaborar sem que eu precise de métodos radicais.

— Falando sério, essa virgem saiu barato.

— Nem perto — Adon retrucou, recostando-se na parede, o olhar distante por um segundo. — A virgindade dela pertencia a Omar; ele pagou dois milhões. Se eu contasse a verdade, seria mais fácil fazê-la ajoelhar e aceitar que era melhor ceder o corpo. — Ele disse, e Axel deu uma risada seca.

— Então você foi generoso, cobrou bem abaixo do mercado negro.

— Por dez vezes menos. Considerando que ninguém a procurou enquanto esteve ali, é uma garota sem família, sem nome no mercado. Omar a descartaria como indigente. Para mim, é apenas uma moeda barata.

— Não sei se ela vai servir — Axel disse, pensativo. — Parece do tipo que Omar descartaria.

Axel era a sombra de Adon — irmão mais novo, braço direito e lacaio, apenas para acompanhar o trabalho do irmão de perto.

— Minha intuição diz que essa garota vai ser interessante — Adon murmurou, passando a língua nos dentes.

Axel arqueou a sobrancelha, impaciente.

— Quando voltamos pra casa? Estou de mau humor porque não consegui empalar aquele desgraçado pedófilo.

Adon bufou, quase divertido.

— Relaxa, eu já sabia que ele não viria, mas eu queria alguns suspeitos para arrancar informação. Ainda temos chances de pegá-lo. Ele está anunciando um leilão de virgens.

— Onde conseguiu esse suprimento novo?

— Deve ser algum orfanato decadente. Da última vez ele destruiu um, anos atrás, sem que os corvos sangrentos soubessem — Adon estreitou os olhos. — Dessa vez quero participar da festa. Quem sabe adquirir algumas virgens para minha primeira arena como futuro don. O que acha?

— Bem típico de um maníaco — Axel resmungou, observando-o pelo espelho retrovisor.

— Já que a noite não rendeu, arrume serviço de quarto dobrado; preciso apagar — Adon disse. — Aquela boate parece ser uma boa.

— Adon, cacete, isso não é hora de brincar — Axel avisou, preocupado. — É arriscado.

— Só peça o serviço. Esvaziamos o local, Omar foge mais do que luta. E depois de me divertir eu já tenho outros planos. — Ele encarou um papel com o endereço de Selene. — O que vai fazer?

— Tive outra ideia para usar essa órfã.

— Já sei que só vou saber quando fizer, certo? — Axel perguntou, suspirando pesado.

— Apenas vá. Você vai descobrir em breve.

Axel saiu do carro em frente ao local e, antes de fechar a porta, virou-se para Adon:

— Lembre-se, você é o futuro don. Nosso pai te deserdaria se você se metesse em problemas. Sua cabeça está à prêmio por anos; desde que ficou decidido que você seria sucessor, acho melhor você pensar bem no que está pensando em fazer.

Adon fez um gesto de desdém e iniciou uma ligação com seu assessor jurídico.

— Quero um contrato de duzentos mil dólares, é só isso — disse; seu assessor confirmou, mesmo que ele tivesse falado com Axel. — Vou mandar os detalhes e cláusulas. Não esqueça de autenticar; preciso levar amanhã para assinar.

O assessor concordou e encerrou a ligação; parecia que entendia Adon em poucas palavras, sem nem precisar que ele explicasse nada.

— Então seu encontro com ela é amanhã? — Axel perguntou, e de repente Adon sorriu de forma sombria ao ver uma nova mensagem.

— Sim, só amanhã. Hoje vamos ao orfanato que Omar está tentando comprar as meninas para o leilão.

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