Mundo de ficçãoIniciar sessãoSelene
Passei a noite inteira com o corpo aceso. Não pelo medo de ter desafiado o rei, meu pai sempre acabava me perdoando quando eu fazia algo que “apenas uma princesa mimada faria” , mas pelo que ouvi na caverna depois que a pata quente prendeu meu tornozelo. A voz. Tão humana, tão grave, tão impossível dentro de um lobo. Voltei ao amanhecer com pão fresco, tiras de carne e um jarro de infusão de raiz. A chuva da madrugada deixou tudo com cheiro de terra limpa. Ao entrar, encontrei os olhos âmbar me esperando. O lobo ergueu a cabeça devagar, como se aquele simples gesto pesasse uma tempestade. — Bom dia. — sussurrei, sentando-me ao lado dele — Eu trouxe… — Selene. O som me cortou o ar no meio. Era a mesma voz da noite anterior, rouca e funda, só que agora saindo de uma boca humana. Onde estava um lobo, havia um homem. Não “qualquer” homem. Um corpo de sombras e músculos, pele morena marcada por cicatrizes, o cabelo escuro pingando do ombro como se a noite tivesse sido domada e amarrada ali. Ele estava seminu, coberto apenas pelo pano que eu mesma havia amarrado, mal escondendo os cortes do torso. O mesmo âmbar morava nos olhos, intocado, feroz. Afastei um passo por reflexo, e a bolsa bateu na rocha. — Não vou machucar você. — ele disse, erguendo as mãos num gesto de rendição — Eu… acordei com força suficiente para mudar. Achei que seria melhor falar com você assim. — A boca puxou-se num quase sorriso — Para agradecer. — Agradecer… por roubar minha paz? — retruquei, tentando disfarçar o tremor das mãos — Eu quase desmaiei ontem. Ele inclinou a cabeça, curioso. A luz da manhã desenhou o recorte da clavícula e me atrapalhou os pensamentos. — Você tem razão. — O olhar desceu para o curativo, como se preferisse fixar-se em algo menos perigoso que minha boca — E… não disse seu nome por educação. Eu sei. Eu ouvi quando você me contou. Selene. — E você? Ou prefere continuar sendo “Sem-Nome”? Aquela quase-sombra de sorriso voltou, breve e disfarçada. — Kaleb. O nome pousou em mim como uma pedra quente. Peguei a bolsa para não ceder ao impulso de tocá-lo, de conferir se era real. Tirei o pano limpo, a agulha, o pote de unguento. — A ferida precisa de nova limpeza. — Sentei à frente dele — Pode ficar assim… humano? — O suficiente para obedecer. — Ótimo. Obedeça: sente-se direito. — Apontei o banco improvisado de rocha — E não ouse fingir bravura se doer. Ele obedeceu. O músculo do braço saltou quando endireitou as costas. A flecha deixou uma fenda feia, mas sem cheiro de infecção. Molhei o pano e, no primeiro toque, o corpo dele enrijeceu. — Não fui bom com palavras. — ele disse, como quem precisa preencher silêncios perigosos — Faz tempo que não falo com alguém. — Suas cicatrizes parecem discordar. — Brigas não são conversas. Aquele era um homem de poucas frases, mas todas pesavam. Lavei com cuidado o sangue seco. Kaleb não desviou os olhos dos meus uma única vez. Era uma admiração atenta, desconfiada, que alisava minha pele como vento quente. Fiquei consciente demais do meu próprio corpo, da curva do pescoço, do pulso acelerado, da respiração que insistia em falhar. — De onde você veio? — arrisquei. — De onde expulsam os que não servem. — Ele pareceu escolher cada palavra, como quem atravessa um campo de minas — Fui… rejeitado. Sem matilha, sem teto. Vaguei até cair. Meu peito apertou. A rejeição em nosso mundo queimava pior que ferro. Não apenas por não ter a própria alcateia, mas por aquilo sussurrar “você não pertence”. — Eles estavam errados. — falei baixo — Todos merecem um lugar. Até quem erra. — Você sempre fala assim com estranhos? — houve provocações no olhar dele, mas sem maldade. — Só quando os estranhos sangram no meu chão. Agarrei uma tira de pano com os dentes para rasgar. Ele acompanhou o movimento, e percebi que olhava minha boca como se quisesse guardar o formato. O calor subiu para minhas bochechas. — Eu nunca quis… — Kaleb pigarreou — eu não sabia que existiam princesas que trocam a barra do vestido por faixas de curativo. — E eu não sabia que existiam lobos que dizem obrigado. — Fiz uma pausa — Nem que mudam para homens lindos de um dia para o outro estando tão feridos. A frase resvalou de mim antes que eu pudesse segurar. Foi como arremessar uma brasa ao chão seco. A respiração dele ficou… pesada. O olhar, mais escuro. — Selene. — Meu nome ficou diferente na voz dele. Quente, mas grave — Se continuar sendo… honesta assim, vai ser difícil eu não… — Não o quê? — Não ultrapassar limites. — disse, sincero, como quem confessa um crime. Ash se agitou. Eu sentia seus passos no meu peito, como um lobo rondando um limite. Não era medo, não exatamente. Era o mapa de uma fronteira com mar do outro lado. Fronteiras me intrigavam. — Termine de falar. — pedi. — Não ultrapassar o que você me permite. A humildade inesperada arrancou meu ar. Aproximei o unguento, toquei a borda do ferimento com a ponta dos dedos. Ele prendeu o maxilar, mas ficou. Sua pele tinha calor de brasa coberta de cinza. Eu podia jurar que meu corpo inteiro recebeu aquele calor como se me faltasse desde sempre. — Dói? — Menos que antes. Mais do que eu digo. — Ele respirou, longo — Obrigado por… ficar. Fiquei. Por horas. Entre perguntas, silêncios e as pequenas coisas… trocar a gaze, oferecer água, rir do jeito como meus dedos tremiam quando ele chegava perto demais. Kaleb contou do exílio aos poucos, como alguém que ainda não acredita ter o direito de ser ouvido. Falou de um Alfa que o considerou ameaça, de um erro que nunca explicavam, de noites em que a fome foi um animal pior do que qualquer adversário. Senti raiva pela dor dele como se fosse minha. E então entendi, quando a gente acolhe a história de alguém, acolhe junto um pedaço do destino. Quando o sol se inclinou, tive que ir. — Amanhã. — prometi, prendendo a bolsa ao ombro. Me virei. Senti a sombra dele chegando perto, tão perto que o calor passou pela minha capa. O ar entre nós vibrou. As mãos de Kaleb não me tocaram, não ainda. O corpo estava apenas ali, uma promessa tensa. A respiração dele roçou a minha nuca. Fiquei imóvel. — Selene. — ele sussurrou — Se continuar voltando… — Eu vou. — respondi, sem coragem de olhar. — Então eu vou aprender a merecer. Saí com as pernas fracas e um coração que batia no ritmo do nome dele. Nessa noite, quando tentei dormir, a mente abriu as mãos para o mesmo lugar: a caverna. Sonhei com dedos ásperos escorregando pela minha cintura, a boca dele dominando a minha com fome e cuidado, duas coisas que eu não sabia que podiam morar na mesma casa. No sonho, eu o puxava pelo cabelo e dizia “mais”, e a palavra me acordou com um susto. Minhas bochechas queimavam. Minha pele era um campo elétrico. Tália bateu de leve. — Está tudo bem, menina? — Sim. — menti — Só… com calor. Fiquei olhando o teto, ouvindo a fortaleza à minha volta, e soube que o segredo que eu carregava já não era um simples ato de bondade. Era um caminho. Queimava sob meus pés, mas eu queria atravessá-lo.






