Capítulo 5 — A Canarinha

“Isso é doentio”, Rafael murmurou.

Dante não respondeu.

“Você está trocando sua esposa por uma fantasia dela.”

“Eu não estou trocando ninguém.”

“Não? Ontem você escolheu a fantasia.”

Helena abriu os olhos.

O rosto dela estava seco. O choro não vinha. Talvez o choque tivesse congelado as lágrimas antes que pudessem nascer.

Rafael baixou ainda mais a voz.

“E se Helena descobrir?”

Dante ficou alguns segundos em silêncio.

Depois disse, com uma segurança que a fez sentir náusea:

“Ela não vai descobrir. Helena confia em mim.”

A frase foi o golpe final.

Não a amante. Não o apelido. Não a juventude da outra. Não a comparação humilhante.

O que destruiu Helena foi ouvir Dante usar a confiança dela como escudo para continuar traindo.

Helena recuou um passo.

O salto quase fez barulho contra o piso, mas ela conseguiu se equilibrar. Virou-se antes que eles a vissem e caminhou de volta ao salão com o corpo inteiro funcionando por instinto. Sentia as luzes fortes demais, os perfumes doces demais, os sorrisos falsos demais. Alguém a chamou. Ela não ouviu. Outra pessoa tocou seu braço, perguntando se estava bem. Helena sorriu por reflexo.

“Só preciso de água.”

Pegou uma taça qualquer da bandeja e levou aos lábios, mas não bebeu.

Do outro lado do salão, uma mulher jovem entrou acompanhada por duas amigas.

Helena não a conhecia.

Mas algo nela chamou sua atenção.

Talvez fosse a juventude evidente. Talvez fosse o vestido amarelo-claro, delicado demais para uma festa adulta e sofisticada. Talvez fosse o cabelo solto, brilhante, caindo sobre os ombros. Ou talvez fosse o modo como Dante, ao voltar da varanda, parou por meio segundo ao vê-la.

Meio segundo.

Apenas isso.

Mas Helena viu.

A garota também viu Dante.

E sorriu.

Um sorriso pequeno, íntimo, seguro demais.

Helena sentiu a mão gelar ao redor da taça.

Canarinha.

A palavra voltou à sua mente com um peso cruel.

A garota atravessou o salão com passos leves, distribuindo cumprimentos como se pertencesse àquele mundo. Quando passou perto de Helena, seus olhos se encontraram.

A jovem sorriu.

Não com gentileza.

Com reconhecimento.

Helena teve a sensação absurda de estar olhando para um reflexo distorcido de algo que já fora seu. Havia traços familiares no rosto da garota. Não iguais. Não óbvios. Mas havia algo no formato dos olhos, na linha do queixo, talvez na boca.

Uma semelhança incômoda.

Uma semelhança que Helena ainda não sabia explicar.

Dante se aproximou depressa demais.

“Helena.”

Ela desviou os olhos da garota e olhou para o marido.

Ele parecia tenso.

Muito tenso.

“Você está pálida.”

“Estou?”

“Sim. Quer ir embora?”

Helena sustentou o olhar dele.

Por dentro, alguma coisa gritava. Pergunte. Confronte. Acabe com tudo aqui. Faça-o repetir em português o que teve coragem de dizer em italiano.

Mas ela não fez nada.

Não naquela noite.

O médico dentro dela conhecia bem a importância de não agir durante uma hemorragia emocional sem antes conter o sangramento. O choque podia matar decisões. A dor podia fazer uma pessoa entregar vantagem ao inimigo. E Dante, naquele momento, havia deixado de ser apenas seu marido. Havia se tornado um homem que mentia olhando em seus olhos.

Helena pousou a taça em uma mesa próxima.

“Não. Estou bem.”

Dante tocou sua cintura.

Ela precisou reunir todas as forças para não recuar.

“Tem certeza?”

“Tenho.”

Ele estudou seu rosto, talvez procurando sinais de que ela soubesse. Helena ofereceu a ele o mesmo tipo de calma que usava diante de pacientes graves, quando ainda não podia revelar a pior possibilidade à família.

“Você fez uma festa linda”, ela disse.

Dante relaxou quase imperceptivelmente.

“Fiz por você.”

Helena olhou para a garota de vestido amarelo ao fundo. A canarinha ria com Rafael agora, mas seus olhos fugiam para Dante a cada poucos segundos.

“Eu sei”, Helena respondeu.

E sorriu.

Foi um sorriso pequeno, limpo, quase perfeito.

Dante acreditou nele.

Esse foi o segundo erro dele.

O primeiro tinha sido achar que ela nunca descobriria.

O terceiro, Helena ainda estava decidindo como faria ele cometer.

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