Mundo de ficçãoIniciar sessãoAURORA
A loba dentro de mim rosnou — um som baixo que ecoou apenas na minha mente, mas ainda assim fez meu corpo estremecer.
Ela o sentia.
Mesmo à distância, sabia que ele estava ali.
Mais do que nunca, precisei manter o controle. Ela tentava romper as barreiras que eu mesma impus, ansiando por correr de volta para ele.
Mas eu não podia.
Sabia dos riscos que poderia levar até ele.
Fechei os olhos e respirei fundo, forçando minha loba a recuar. Era como empurrar uma fera contra uma jaula — eu sentia cada arranhão, cada rugido contido.
Ela queria o toque dele, o cheiro dele, o vínculo que nos unia. Eu, por outro lado, tentava esquecer.
Após meu encontro com Suelen, passei o resto do dia ansiosa pelo que estava por vir. Quando a noite já avançava, adentrei a floresta e libertei minha loba.
Ela sacudiu os pelos, farejou o ar e imediatamente tomou o rumo do limite onde encontraria Suelen. Mas antes de chegar, retomei o controle. Minha loba recuou, rosnando baixinho — frustrada, mas obediente.
Manter minha natureza escondida era mais do que uma escolha… era uma necessidade.
Quando cheguei ao local em minha forma humana, Suelen já estava à minha espera.
— Não vou ter problemas como tive no restaurante, vou? — perguntei, e minha voz traía um pouco da apreensão. Ela sabia de quem eu falava.
— Não ligue para aquele idiota — disse Suelen, com um meio sorriso. — Ele é uma boa pessoa. Só passou por muita coisa.
Eu também havia passado por muita coisa, mas nem por isso era rude com quem cruzava meu caminho. E agora, mais do que nunca, queria evitá-lo.
Ele devia estar furioso comigo.
Assim que entramos no território da alcateia, outro lobo nos aguardava. Pela postura e presença, imaginei que fosse o alfa, mas Suelen o apresentou como beta.
— Pretende se juntar à nossa alcateia? — perguntou, o olhar suave contrastando com a voz firme.
Não queria parecer rude.
— Prefiro conhecer o lugar antes de decidir.
Ele assentiu, compreensivo, embora sua atenção permanecesse atenta demais.
Fiquei encantada com cada canto que Suelen me mostrou. Tudo era compartilhado. Havia leveza ali. Uma sensação de comunidade que me era completamente estranha.
Talvez, pela primeira vez em anos, a ideia de permanecer em algum lugar não me apavorava — e isso, por si só, era assustador.
— Aqui é tudo tão diferente de onde eu vim. As pessoas parecem gentis… acolhedoras — murmurei.
— E por que não seriam, Aurora? Você não fez nada contra elas — respondeu Suelen, com simplicidade.
Fiquei em silêncio. Eu havia aprendido a esperar o pior. Confiar nunca foi fácil.
Chegamos diante de uma horta iluminada e cheia de movimento. Assim que percebeu nossa aproximação, uma mulher bonita e sorridente se adiantou.
— Cadê o idiota do meu irmão? Veio com você? — perguntou a Suelen, que negou com um sorriso.
— Joyce, esta é Aurora. Ela está conhecendo a região.
Joyce me observou com curiosidade, mas o sorriso permaneceu. Nunca gostei de ser o centro das atenções, mas ali a sensação era diferente.
— Tudo aqui é muito bonito. Estou admirada — comentei.
— A colheita é sempre compartilhada — explicou Joyce. — Todos ajudam. Todos se beneficiam.
Tudo ali era o oposto da alcateia de Victor.
Onde ali havia colaboração, lá reinavam rigidez e controle. Cada erro era punido.
— Deve ser bom viver assim — murmurei, quase para mim mesma.
— Se você não tiver onde ficar, pode permanecer aqui. Essa vida também pode ser sua — disse Joyce, em tom gentil.
— Tenho certeza de que aquele lobo rude não seria adepto dessa ideia — deixei escapar.
Os olhos dela se voltaram para mim, intrigados.
— Se você conheceu meu irmão, não precisa se preocupar… ele não vive aqui.
Aquilo me pegou desprevenida.
— Killiam não vive aqui?
Joyce negou, a tristeza evidente.
— Este era o lar dele. Foi aqui que crescemos. E foi aqui que começou a construir uma vida com Jade.
Um aperto inesperado surgiu em meu peito. Minha loba rosnou, possessiva. Quem era Jade? Eu precisava descobrir.
Elas me levaram para conhecer outro ponto da alcateia. Paramos diante da creche. O prédio, de paredes claras, estava decorado com desenhos infantis pendurados nas janelas. Mesmo vazio, transmitia alegria.
— As crianças passam boa parte do tempo aqui — explicou Joyce. — É um dos lugares mais especiais da alcateia.
Era tudo tão diferente da minha antiga realidade que parecia irreal.
Gostaria de ficar ali por um tempo, mas um pensamento logo me atravessou — e se Victor aparecesse ali? Forcei-me a afastá-lo. Queria acreditar que estava longe o bastante para que isso não acontecesse.
— Joyce… o que aconteceu para que Killiam não viva mais aqui — perguntei, sentindo uma inquietação crescente.
Ela respirou fundo.
— Nossa alcateia foi atacada. Jade, a companheira dele, morreu nessa invasão.
Meu peito apertou.
— Era um grupo enorme de lobos. Não queriam nada além de espalhar o terror... e conseguiram.
Uma rajada de vento atravessou a praça.
— Meu pai e os guerreiros lutaram para defender todos. Mas a cada golpe, ficávamos mais vulneráveis — continuou Joyce.
— Não houve piedade — acrescentou Suelen. — Idosos e crianças foram mortos. Algumas lobas foram violentadas. Foi o dia mais terrível que vivemos.
Meu estômago revirou.
Não era apenas horror. Era reconhecimento.
— Naquela noite, perdemos nosso pai — disse Joyce. — E descobrimos que Jade estava entre as que foram atacadas.
Meu coração falhou uma batida.
— Ela foi morta pelos invasores?
— Não — respondeu Suelen, com o olhar distante. — Eles a deixaram viva. Mas às vezes penso que teria sido menos cruel se não a tivessem deixado.
O ar pareceu rarefeito.
— Killiam a encontrou na floresta — continuou Joyce. — Amarrada a uma árvore, violentada e com o corpo totalmente retalhado. Nossos médicos fizeram de tudo… mas ela desistiu de lutar.
Suelen desviou o olhar.
— Uma parte do meu irmão morreu naquele dia.
Algo se contraiu dentro de mim.
— Sinto muito — murmurei.
— Killiam criou nossa rede de hotel e passou a administrar o restaurante, tentando seguir em frente. Mas ele nunca voltou a ser o mesmo.
A história dele ecoava na minha própria dor.
Killiam parecia forte. Carregava o peso do passado e, ainda assim, permanecia firme.
Eu, ao contrário, ainda fugia.
“Você nunca foi fraca, Aurora. Foi resiliente. A culpa não é sua. Aquele idiota me acorrentou, mas não mais”, minha loba rugiu.
Senti sua força pulsar dentro de mim.
Selvagem e inabalável.
Pela primeira vez ela não sussurrava... ela bradava.







