Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena que já tinha colocado um dos pés para fora do carro o olhou desconcertada, sem saber se ele falava sério ou não.
— Em circunstâncias diferentes, senhor Monteiro. Aqui não há necessidade de representar. — Respondeu ela seca.
— Parabéns! Você passou no teste. — A voz continuava no mesmo tom seco.
— O quê!? — Rebateu indignada. — Que teste?
— Que a senhorita irá honrar nosso acordo e as cláusulas do contrato.
Pelo tom grave e sério de Eduardo, Helena percebeu que ele não estava brincando. Provavelmente ele era incapaz de contar uma piada.
— Ora… seu… seu. — Helena não conseguiu encontrar palavras e saiu do carro batendo os pés.
Helena caminhava de cabeça erguida: “Arrogante, antipático, insuportável” pensava, mas extremamente bonito, atraente e charmoso.
Eduardo ficou olhando até ela se afastar e pensou: “Interessante, isso vai ser muito interessante.”
Após ver que Helena havia entrado em casa sem nem mesmo olhar para trás ele deu a ordem para o motorista:
— Vamos.
E o carro partiu devagar.
*****
Helena
Nos dias seguintes Helena seguia sua rotina, ela e Eduardo não se viram mais, nem entraram em contato.
Foi então que o celular vibrou em sua bolsa. Ao ver o nome dele na tela, o coração disparou.
— Alô.
A voz firme e inabalável veio do outro lado.
— Helena, amanhã haverá um jantar importante. Levarei você para apresentá-la como minha noiva. Uma equipe irá à sua casa para prepará-la para a ocasião. Esteja pronta às vinte horas. Passarei para buscá-la nesse horário.
As palavras soaram como ordens militares, frias e impessoais. Antes que ela pudesse reagir, houve uma breve pausa. O silêncio dela pareceu irritá-lo.
— Entendeu? — a voz dele rugiu, mais grave.
Helena engoliu em seco.
— Entendi, mas…
— Ótimo. Até amanhã. — A ligação foi encerrada sem cerimônia.
Helena ficou imóvel, encarando a tela do celular apagada. Um rubor de indignação subiu-lhe ao rosto, queimando-lhe as bochechas. Respirou fundo, tomada pela revolta, e antes de pensar melhor, ligou de volta.
A chamada foi atendida de imediato, mas a voz dele soou ainda mais fria:
— Alguma coisa que não entendeu? Estou ocupado.
— O que eu não entendi — respondeu ela — é como você esqueceu de perguntar se eu poderia te acompanhar. Se estou livre.
Do outro lado, um silêncio pesado antecedeu a resposta seca:
— Você não tem nada amanhã. Me certifiquei. Além disso, está no contrato que você deve me acompanhar em eventos sociais.
Helena sentiu o sangue ferver.
— Você continua me espionando!? Escute aqui, Eduardo Monteiro. Gostaria de pedir, se não for pedir muito, que em vez de me espionar, me pergunte primeiro. — Sua voz ecoou firme, quase em desafio.
Por um momento, ela pensou que ele fosse desligar outra vez. Mas a resposta veio surpreendentemente calma, ainda que carregada de algo inquietante:
— Sendo minha noiva, preciso me certificar da sua agenda.
— Minha agenda? — Helena franziu o cenho, confusa. — Desde quando você se importa com isso?
Houve uma pausa curta, como se ele media cada palavra.
— Desde que aceitou aquele contrato.
E desligou deixando Helena com um olhar sem acreditar no que tinha ouvido.
*****
Helena e Eduardo
No dia seguinte, uma equipe completa de beleza chegou à casa de Helena. Cabelos, unhas, pele. Cada detalhe foi cuidado com extremo zelo.
Quando Helena terminou de se arrumar, só restava colocar o vestido. Ela o segurou por um instante, sentindo o peso e a suavidade do tecido, antes de deixá-lo escorregar pelo corpo.
O vestido era de um azul profundo, o tecido leve e fluido moldava-se perfeitamente ao seu corpo, destacando a cintura fina e os quadris bem desenhados. As alças e o decote frontal, revelavam um colo alvo e delicado conferiam um ar de sofisticação discreta, enquanto o ousado decote nas costas acrescentava um toque sensual, elegante, sem exageros. A saia longa balançava com cada passo, como se Helena flutuasse.
Helena se aproximou do espelho, mal reconhecendo a imagem refletida. A maquiagem leve destacava cada detalhe de seu rosto delicado, e o penteado, sofisticado porém jovial, deixava algumas mechas soltas que enquadravam seu rosto perfeitamente.
— Filha… você está deslumbrante. — Disse Clara, com os olhos emocionados, segurou a mão de Helena.
Uma buzina anunciou a chegada de Eduardo. Helena se despediu da mãe e ao abrir a porta viu Eduardo de pé à sua espera.
Helena caminhou segura até ele, mas o olhar frio e indiferente dele a deixou decepcionada.
— Boa noite. — Disse ele frio.
Helena esperava pelo menos um “você está muito bonita”, mas ele se limitou a abrir a porta para ela entrar.
Assim que se acomodaram o motorista partiu.
— Pra você. — A voz dele continuava fria e impessoal.
Helena olhou surpresa para a caixa de veludo. Ao abri-la, prendeu a respiração, um conjunto de colar e brincos de diamantes repousava sobre o veludo escuro.
Seus olhos se arregalaram.
— É… lindo, Eduardo. Eu… não sei se deveria usar algo tão valioso.
— Minha noiva não pode aparecer em público sem uma joia presente do noivo. — respondeu ele — Deixe-me ajudá-la.
Sem esperar permissão, Eduardo se aproximou e ao afastar suavemente os cabelos de Helena, seus dedos roçaram, quase sem querer, a pele delicada de seu pescoço.
O toque foi breve, mas suficiente.
O fecho pequeno exigiu mais atenção e seus dedos demoraram um pouco mais do que o necessário, deslizando de leve pela curva do pescoço dela. A pele quente, macia… e o perfume sutil que vinha dela criaram uma distração inesperada.
Por um instante, Eduardo esqueceu de si mesmo. Sentiu um impulso estranho, o desejo de se inclinar, de encurtar ainda mais aquela distância.
Mas se conteve.
Helena, por sua vez, fechou os olhos por um segundo. Um arrepio percorreu sua espinha, e seu coração acelerou de forma traidora. O simples toque dele parecia carregar mais significado do que deveria.
— Pronto. — disse ele, afastando-se rapidamente, como se o contato fosse demais.
Helena se virou com um sorriso tímido, esperando, ainda que inconscientemente, alguma reação enquanto ela colocava os brincos. Eduardo, no entanto, limitou-se a observar o colar, avaliando-o como se fosse apenas um detalhe técnico. Sua expressão permaneceu indecifrável.
O silêncio que se seguiu foi suficiente para desfazer o brilho nos olhos dela.
— Depois do jantar, eu devolvo. — disse, num tom mais baixo.
— Não precisa. É um presente. — respondeu ele de imediato, sem espaço para discussão.
Helena respirou fundo, tentando reorganizar os próprios sentimentos. Levou a mão ao colar, tocando-o de leve.
— Obrigada.
Eduardo não respondeu.
Durante o trajeto, o silêncio se instalou de vez, quase incômodo. Eduardo permanecia ao lado dela, imóvel, como se estivesse sozinho.
Helena, porém, sentia cada segundo daquele silêncio. E, inexplicavelmente, aquilo a incomodava mais do que deveria.
*****
Quando finalmente chegaram ao local, Helena sabia que aquela noite seria marcada por protocolos e olhares avaliativos.
Ao passar pela enorme porta do salão, o brilho dos lustres, o som de conversas e o tilintar de cristais anunciavam a sofisticação do lugar.
Helena sentiu os olhos de algumas pessoas sobre ela, avaliando cada detalhe de seu vestido e da jóia em seu pescoço, mas manteve a postura elegante e serena.
Eduardo e Helena caminhavam de braços dados. Ele, elegante e firme. Ela com um sorriso doce e sereno, mas nervoso.
Eduardo rico e poderoso, dono de uma das maiores fortunas do país, logo foi cercado por empresários e políticos que disputavam sua atenção.
Com todos, ele se mantinha cordial, mas distante e frio e como protocolo apresentava Helena como sua noiva. As pessoas ficavam surpresas, mas elogiavam a beleza e elegância de Helena.
Até que um movimento chamou a atenção. Uma mulher se afastou do grupo com quem conversava, os lábios curvados em um meio sorriso se colocou bem no campo de visão de Eduardo.
Viviane Teles. Sua ex-noiva.







