Capítulo 06

Enquanto o jantar prosseguia, Olivia e a senhora Carmen conversavam com Helena sobre música, viagens e interesses culturais. 

Helena ficou sabendo que a senhora Carmen morava sozinha em uma chácara fora da cidade, cerca de  duas horas de carro. 

— Já cansei de pedir à mamãe que viesse morar aqui conosco, mas ela insiste em viver isolada.

— Não quero abandonar o lugar onde passei praticamente toda a minha vida. — A senhora Carmen virou-se para Eduardo e acrescentou. — Eduardo, espero que logo depois que se casarem leva sua esposa para conhecer a chácara.

— Não se preocupe vovó, já está nos meus planos. — A voz dele era suave quando se dirigia a avó.

— O lugar é tão longe que quando vamos visitar mamãe, passamos a noite lá. Você vai gostar, o lugar é lindo e fica de frente a um grande lago. — Olivia sorria com ar de saudade enquanto falava.

Carmen e Olivia passaram e enumerar as belezas da chácara, mas em determinado momento, sua expressão suavizou e um ar de tristeza surgiu em seus olhos.

Ao final do jantar, todos retornaram à sala de estar, mas Eduardo e o pai foram para o escritório “tratar de negócios” foi o que disseram, deixando as mulheres sozinhas.

O mordomo entrou com um conjunto de chá em uma bandeja, após servir as senhoras, ele se retirou tão silencioso e discreto como quando entrou. 

Olivia olhou para a senhora Carmen que servia o chá com tranquilidade.

— Venha, quero lhe mostrar uma coisa.

Ela levantou e levou Helena até um canto da sala perto da lareira e pegou um álbum de retratos. 

A senhora Carmen, ergueu os olhos e permaneceu em silêncio, mas seus olhos estreitaram um pouco enquanto observava Olivia virar as fotos.

— Eduardo sofre pressões de todos os lados, Helena. Talvez ele não tenha te contado o verdadeiro motivo desse… — Olivia olhou para a mãe que parecia distraída mexendo no chá. —  acordo entre vocês. Ele te pressionou por causa das dívidas, mas o Eduardo de verdade não é assim. 

Ela hesitou, lembrando-se de uma ferida antiga.

— A ex-noiva dele… ela destruiu os sentimentos dele. — A voz de Olívia se rompeu com uma ponta de amargura. —  Ela o deixou quando ele mais precisava dela. E agora… parece que ela pode reaparecer. Este casamento — Olivia olhou profundamente nos olhos de Helena — não é apenas uma forma de resolver dívidas ou negócios. 

Helena engoliu em seco, sentindo o peso do que acabara de ouvir. A frieza de Eduardo agora fazia mais sentido, e a complexidade do homem à sua frente cresceu em sua mente.

— Então… — murmurou Helena, com cuidado — a senhora acha que ele sente alguma coisa por essa ex-noiva?

Olivia colocou a mão sobre a dela:

— Acho que não. Eduardo nos falou dessa história de contrato a poucos dias, Eduardo é um homem racional, não proporia algo assim se não tivesse algo em mente.

— Talvez ele esteja tentando se blindar para não sofrer novamente.

— Eu não sei. Espero que ele encontre um motivo para voltar a ser feliz, por isso te peço tenha paciência, Eduardo pode ser duro e frio, mas tem um coração bom.

O silêncio pairou na sala por alguns segundos, ao olhar para Olívia viu o semblante de uma mãe que sofria por seu filho e um apelo velado.

Enquanto observava as fotos, Helena percebeu nas fotos de família que havia mais uma pessoa muito parecida com Eduardo.

Olivia percebendo o olhar de Helena com voz triste acrescentou:

— Este é Leonardo, irmão de Eduardo. — A voz de Olivia ficou mais triste ainda. —  Gostaria que ele viesse para o casamento de vocês.

— Então a senhora tem outro filho?

— Sim, mas é outra história.

Helena percebeu o olhar triste de Olívia ao passar a mão carinhosa sobre a foto. 

O que havia acontecido com o irmão de Eduardo?

E por que a ex-noiva de Eduardo o deixou? E agora estava de volta?

Perguntas que ela queria respostas e, de uma forma ou outra, iria tê-las.

Antes que Helena pudesse perguntar o que havia acontecido entre ele e a ex-noiva, a voz de Carmen cortou o silêncio.

— O que estão cochichando? 

— Estou apenas conhecendo melhor minha futura nora. — Disse Olívia para  a mãe, tentando esconder as lágrimas.

A senhora Carmen, não disse nada, mas Helena percebeu que a vovó era uma pessoa muito atenta ao que acontecia ao redor.

*****

Assim que os homens retornaram à sala, Helena já se preparava para se despedir dos Monteiros. Eduardo fez questão de acompanhar Helena e levá-la para casa.

Na entrada, um carro os aguardava. Não era o mesmo carro e motorista de antes. O homem que abriu a porta para Helena tinha um semblante distinto, mais sério. Eduardo, ao notar a curiosidade no olhar dela, explicou antes mesmo que ela perguntasse:

— Esse é Nelson, meu motorista. Eu não moro com meus pais, tenho minha própria casa.

A frase, carregada de amargura, deixou em Helena a sensação de que aquela “própria casa” seria a casa que Eduardo passaria a viver com a sua ex-noiva depois do casamento e, agora, seria ela a se tornar a senhora do lugar. Contendo o comentário, apenas respondeu:

— Entendi.

O carro partiu em silêncio até que Eduardo, de repente, quebrou a quietude:

— Já irei providenciar os preparativos da cerimônia. Se não se importar, será simples e reservada, apenas para poucos convidados. Alguma objeção?

— Não, nenhuma — respondeu, quase sussurrando.

— Algum desejo específico?

Helena respirou fundo, reunindo coragem.

— Se não se importa… gostaria que fosse na Igreja que frequento.

Os olhos de Eduardo, até então distantes, a fitaram com intensidade.

— Não tem problema. Sei exatamente qual é. Sei que você toca e canta nas missas… e que o padre é seu confessor.

Helena o encarou, atônita.

— Como você… sabe disso?

Um leve sorriso, carregado de ironia, surgiu no canto da boca dele.

— Você acha que eu proporia um contrato sem antes investigar sua vida?

O choque foi imediato. A indignação queimou-lhe o rosto.

— Você me investigou?

— Claro. Preciso saber com quem estou me casando.

A raiva tomou conta dela.

— E eu? Com quem estou me casando? O que sei de você, Eduardo Monteiro? — Sua voz falhou, mas a fúria era nítida.

Ele manteve o olhar frio, impassível.

— O que sabe é suficiente. E, pelo que conheço de minha mãe, ela já se encarregou de mencionar minha ex-noiva.

Um silêncio pesado se abateu no carro. Helena, desconfortável, desviou os olhos. O olhar gélido de Eduardo parecia atravessá-la.

— Não se preocupe — continuou ele, a voz baixa e cortante. — Você não é uma substituta. Vou tratar nosso casamento com respeito, e espero o mesmo de você. Imagino que seu ex-namorado não reaparecerá.

Aquelas palavras foram um golpe certeiro. Helena sentiu o coração vacilar.

— Como… como você sabe? — murmurou, quase sem fôlego, recordando o nome que tanto evitava pronunciar. 

Danilo.

Eduardo não desviou os olhos.

— Eu sei tudo sobre você, Helena Vasconcelos. E acredito que temos mais em comum do que parece.

Ela permaneceu em silêncio. Mas as lembranças invadiram sua mente como um turbilhão.

Danilo… o homem em quem acreditou cegamente. Aquele que lhe jurara amor eterno e que, no momento em que a vida desabou sobre ela e sua mãe, a abandonou sem piedade.

Tudo começou três anos antes, quando seu pai morreu em um acidente de carro. A perda a deixou abalada, vulnerável, e foi então que Danilo surgiu como um porto seguro. Com apenas vinte e um anos, Helena se agarrou à promessa de felicidade que ele lhe oferecia.

Naquela época, nem ela e nem sua mãe sabiam da falência iminente da empresa do pai, das dívidas ocultas e dos empréstimos contraídos para sustentar as aparências da família. 

Danilo, um empresário ambicioso em ascensão, viu na situação uma oportunidade para ampliar seus negócios. Aproximou-se da viúva frágil e da filha ingênua, oferecendo ajuda e juras de amor.

Mas, assim que a verdade veio à tona, ele mostrou sua verdadeira face. Terminou tudo com uma simples ligação, dizendo ter conhecido outra mulher por quem se apaixonou. Poucos meses depois, as redes sociais exibiam fotografias de Danilo sorrindo e noivo da filha de um grande empresário.

Helena fechou os olhos, sufocada pelas lembranças. Doeu como se fosse ontem. O abandono, a humilhação, o amor que se revelou um interesse barato. Por isso ela havia jurado que nunca se apaixonaria de novo, nunca iria se apaixonar e sofrer por nenhum homem.

Ao abri-los novamente, encontrou o olhar frio de Eduardo, um homem também marcado pelo passado.

Assim que o carro parou em frente a sua casa, o motorista apressou-se a abrir a porta para ela sair.

— Boa noite. — Disse num tom seco.

— Não vai dar um beijo de despedida no seu noivo? — Apesar do tom provocativo, a voz de Eduardo era séria.

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