Mundo de ficçãoIniciar sessãoViviane Teles
— Então… já se estabeleceu? — A voz do outro lado da linha soava metálica, impessoal, quase sem vida.
Viviane sorriu de lado antes de responder, caminhando lentamente pela ampla sala do apartamento duplex. O som suave dos seus passos ecoava no mármore impecável.
— Sim. E a notícia da minha volta… — fez uma breve pausa — se espalhou como fogo em capim seco.
Seus dedos deslizaram pela borda de um aparador enquanto avançava, o olhar firme, calculista.
— Ótimo. — A resposta veio imediata, seca. — Então já sabe o que precisa fazer.
Viviane parou diante da janela, contemplando a escuridão lá fora como se enxergasse muito além dela.
— Pode deixar comigo. — Sua voz agora carregava uma confiança perigosa. — Eduardo será meu novamente.
Do outro lado, a ligação foi encerrada sem despedidas e por um instante, o silêncio tomou conta do ambiente.
Sem pressa, Viviane serviu-se de champanhe. Levou a taça aos lábios e sorveu um gole lento. Seus olhos, antes apenas decididos, agora brilhavam com uma determinação fria e algo mais sombrio.
— Eduardo… — murmurou, com um leve sorriso nos lábios — eu estou de volta.
Viviane olhava fixo para os prédios altos ao longe onde um se destacava mais que os outros: A Torre Monteiro.
****
Eduardo
Na noite silenciosa após o encontro com Helena, Eduardo Monteiro permaneceu sozinho em seu escritório. O contrato recém-assinado repousava sobre a mesa, mas seus olhos estavam fixos na cidade iluminada além da vidraça.
“Helena Vasconcelos…”
O nome ecoou em sua mente, despertando uma lembrança que ele julgava esquecida, retornou com uma intensidade de como se revivesse aquele momento novamente.
Pouco mais de um ano antes, num salão repleto de cristais e vestidos luxuosos, realizava-se um evento beneficente patrocinado por sua família. O evento era disputado por empresários e políticos.
Eduardo num canto mantinha o semblante com o mesmo tédio que lhe era habitual, até que um som diferente o despertou de seus pensamentos.
Um piano.
A melodia cortava o burburinho da multidão, pura e delicada, mas carregada de emoção. Eduardo seguiu o som até a pequena plataforma no centro do salão e a viu.
Uma jovem, vestida em um vestido branco, mas com uma aura angelical, tocava como se o mundo não existisse. Seus olhos fechados, a respiração calma, os dedos dançando sobre as teclas.
Ele ficou ali, imóvel, observando-a.
Quando a música terminou, os aplausos encheram o salão. Eduardo, porém, permaneceu em silêncio, escondido entre as sombras.
Eduardo não se aproximou. Ficou observando quando ela desceu do palco e caminhou serena entre olhares admirados e felicitações.
Então ela caminhou em sua direção, por um momento, ela o viu e parou, mas ele recuou mais ainda para a sombra da coluna se escondendo.
Alguém se aproximou dela, talvez um admirador, ela sorriu e educadamente dispensou o pretendente. Quando ela retornou o olhar, ele já não estava mais lá.
Agora, ao reencontrá-la em circunstâncias tão diferentes, ele percebeu o quanto aquela imagem havia ficado marcada. Não era apenas uma jovem que aceitava um contrato por necessidade. Era a mesma mulher que, com música, ousara tocar uma parte de sua alma que ele acreditava morta.
Eduardo fechou os olhos e deixou escapar um suspiro baixo, quase um lamento.
— Talvez eu nunca devesse tê-la trazido para este jogo...
Mas o contrato estava assinado. O destino, selado.
*****
Helena
Na manhã seguinte, Helena estava no conservatório de música, onde dava aulas de piano, quando seu celular vibrou. Ao ver quem era, franziu a testa e abriu a mensagem curta e direta:
“Hoje à noite jantar na casa de meus pais, eles sabem do contrato. Esteja pronta às dezenove horas, mandarei um carro te buscar.”
O coração de Helena acelerou. Não esperava que Eduardo fosse levá-la para conhecer sua família.
“Não precisa, me passe o endereço que eu mesma dirijo.”
Pensou que ele demoraria a responder, mas quase no mesmo instante o celular vibrou novamente:
“Às dezenove horas um carro irá buscá-la. Sem alternativa.”
Helena fechou os olhos, apertando o aparelho com força. Ia digitar uma resposta atravessada, mas pensou no contrato e digitou apenas:
“Ok.”
*****
Viviane
Em um bairro nobre, num luxuoso apartamento, Viviane estava se atualizando sobre a vida social da elite da cidade. Ela tinha retornado ao país a pouco tempo e acabara de ler a publicação de uma amiga.
Uma foto impecável, acompanhada de comentários entusiasmados… e um nome que pareceu ecoar dentro dela:
Eduardo Monteiro, anuncia noivado. Não havia foto ou menção de quem era a noiva. O silêncio do ambiente pareceu se alongar. Lentamente, seus dedos apertaram o celular com força.
Justo agora. Logo agora que ela havia voltado. Logo agora que tudo estava… pronto.
A partida de Viviane, anos atrás, foi abrupta. Sem despedidas. Sem explicações. Sem sequer uma última palavra. Ela simplesmente entrou naquele avião, decidida a se libertar do que, na época, considerava um peso, quase uma prisão, um vínculo que não queria carregar.
Mas o tempo… muda as coisas, mesmo quando pensamos que temos o controle de tudo.
Viviane se levantou do sofá de sua suíte com um movimento elegante de quem até na intimidade não perdia a arte da sedução. Caminhou até a varanda, do lado de fora, a cidade se estendia diante dela, grandiosa e distante. Os prédios refletiam a luz dourada do fim de tarde, e, entre eles, destacava-se a torre do Grupo Monteiro, imponente banhada pelo sol como um símbolo de poder… e de tudo o que ela deixara escapar.
— Se eu soubesse… — murmurou, com a voz baixa e carregada de um certo gosto amargo — eu nunca teria partido.
Seu olhar permaneceu fixo na torre, mas sua mente parecia vagar por lembranças que não se revelavam por completo.
Quando partiu sem olhar para trás, não imaginava que Eduardo se recuperaria tão rápido. Nem que assumiria a presidência do grupo com tamanha firmeza e se tornasse um dos homens mais ricos não só de Vila Verone, mas do país. Muito menos… que escolheria outra.
Se tivesse esperado um pouco mais… se não tivesse dado ouvidos às promessas erradas, aquelas vozes que hoje pareciam distantes, mas ainda incômodas, tudo poderia ser diferente.
Hoje, ela seria a senhora Monteiro.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios, mas não havia suavidade nele. Era um sorriso frio, como se uma decisão estivesse sendo tomada naquele exato instante.
— Eduardo… — disse ela, em um tom baixo, porém firme, — você será meu novamente.
O vento moveu levemente seus cabelos, mas seus olhos permaneceram imóveis, intensos, como se enxergassem além da paisagem.
— Eu sei que você ainda me ama. — Ela deu um sorriso meu de lado, como se já vislumbra-se seu retorno e Eduardo, como no passado, loucamente apaixonado por ela. — E não existe ninguém capaz de tirá-lo de mim.
Quanto à noiva… não sabia, o nome nem foi mencionado, nem precisava. Para ela, aquela mulher não passava de um detalhe.
Um detalhe que, cedo ou tarde… deixaria de existir.







