Capítulo 03

Eduardo e Helena

O escritório do presidente do Grupo Monteiro era tão frio e imponente quanto o homem que o comandava. As vidraças imensas exibiam o horizonte da cidade em um cinza metálico, e o silêncio absoluto tornava o ambiente ainda mais opressor.

Helena entrou hesitante, seu coração batia descompassado, mas ela ergueu o queixo, tentando manter certa dignidade.

Diante dela estava ele: Eduardo Monteiro.

O terno impecavelmente alinhado, o semblante austero, o olhar penetrante que parecia atravessar camadas de pele e da alma. Tudo nele transbordava autoridade, controle e uma distância quase intransponível.

Os olhos de Helena se encontraram com os dele por um instante. Bastou aquele breve contato para um arrepio percorrer-lhe a espinha.

Por um breve momento, os dois ficaram apenas observando um ao outro.

Helena buscou na lembrança, em um passado distante ou recente se o reconhecia de algum lugar, afinal um homem como ele dificilmente passava despercebido por qualquer olhar. Por mais que tentasse, não conseguia nenhuma lembrança.

Eduardo percebeu o olhar de dúvida dela, como se tentasse reconhecê-lo, e percebeu que ela não se recordava dele. 

Natural” 

Pensou ele, naquela noite, ele ficou sentado o tempo todo perto do bar, em meio a penumbra para não ser visto e receber os olhares piedosos das pessoas. 

— Senhorita Vasconcelos — disse Eduardo, em tom firme e baixo, sem se levantar. — Sente-se.

Helena obedeceu, mantendo a postura ereta, a longa mesa entre eles era como um muro invisível, separando seus mundos.

— Imagino que sua mãe já lhe tenha explicado os termos — prosseguiu ele, empurrando uma pasta em sua direção com um leve movimento dos dedos. — Um casamento. Sem romantismos, sem ilusões. Apenas um acordo. Em troca, suas dívidas serão quitadas.

Helena encarou a pasta fechada, mas não a tocou. Respirou fundo, reunindo forças, e respondeu com voz firme:

— Sim, senhor Monteiro. Sei exatamente dos termos deste contrato.

Um breve silêncio se instalou. O olhar de Eduardo brilhou de algo que Helena não soube interpretar.

— Então está de acordo? — perguntou, inclinando-se levemente para frente. 

Helena manteve o olhar fixo, apesar do coração acelerado ela desviou o olhar.

— Preciso avaliar as opções.  

— Imagino que não são muitas. 

O sorriso cínico dele fez o sangue de Helena ferver.

— Se vou casar com um estranho, preciso pelo menos o conhecer melhor.

— Justo. — A voz era cortante. — Agora que nos conhecemos, já avaliou minha pessoa, imagino que eu não seja de jogar fora.

Helena corou violentamente.

— Não é o que o senhor está pensando.

— Pouco me importa qual a opinião da senhorita sobre mim. — Frio e impessoal, Eduardo continuou. —  A senhorita aceita ou não. Sou um homem muito ocupado.

Helena ficou indignada com a frieza e arrogância daquele homem e por um momento cogitou a ideia de dizer não, mas o olhar de desafio dele a instigou a enfrentá-lo.

— Eu aceito. — Disse firme o encarando com olhar decidido.

— Muito bem — murmurou, recostando-se na cadeira, os olhos fixos nela. — A senhorita é mesmo corajosa.

A frase soou como uma provocação. Helena sentiu o sangue ferver, mas não se deixou intimidar.

— Para casar com o senhor é preciso mesmo muita coragem e desespero.

Eduardo esboçou um sorriso gélido, a curva mínima nos lábios e bateu levemente os dedos sobre a mesa antes de acrescentar:

— Muito bem, alguma dúvida? Alguma pergunta?

Helena sentiu o rosto ruborizar. Mordeu o lábio, abaixou os olhos e, com a voz vacilante, arriscou:

— Sim… Eu gostaria de saber se eu… nós… — As palavras se perderam no ar.

Eduardo a fitou com atenção, e, ao notar o rubor de suas faces, compreendeu imediatamente sua hesitação.

— Não se preocupe, senhorita Vasconcelos — disse, com um tom quase divertido. — Não haverá contato físico entre nós, a menos que a senhorita queira.

Helena levantou os olhos de imediato e o encontrou com um meio sorriso nos lábios. Não era acolhedor, pelo contrário, parecia zombar de sua fragilidade. Aquilo, porém, a fez recuperar o controle.

— Ótimo. Não se preocupe, senhor Monteiro. — Sua voz saiu firme, desafiadora. — Não tenho essa intenção.

Eduardo apenas continuou a olhar para ela e sem desviar, empurrou uma pasta em sua direção. Helena desviou o olhar para a pasta sobre a mesa. 

Helena respirou fundo, tentando reunir a coragem que ainda lhe restava. Seus dedos hesitaram por um instante ao pegar a pasta. Por fim, pegou e começou a ler as letras frias e impessoais.

As cláusulas eram frias e impessoais. Não havia espaço para sentimentos, apenas condições. Ela deslizou os olhos rapidamente pelas linhas, algumas lhe chamaram bastante a atenção:

“O casamento terá validade civil e religiosa, conforme acordado pelas partes.”

“As dívidas da família Vasconcelos serão quitadas integralmente pelo Grupo Monteiro no prazo de 30 dias após a assinatura do contrato.”

“A senhorita Helena Vasconcelos compromete-se a residir no endereço designado por Eduardo Monteiro após o casamento.”

“A senhorita Helena Vasconcelos estará disponível para participar dos compromissos sociais como sua esposa.”

“Não haverá exigência de relacionamento íntimo, salvo consentimento mútuo.”

“O contrato terá validade mínima de três anos, podendo ser rescindido ou prorrogado apenas em comum acordo.”

Mas o que chamou a atenção, foi a última cláusula. Uma compensação milionária que, para Helena, daria para viver o resto da vida sem trabalhar se soubesse administrar. 

— Três anos… — murmurou, quase para si mesma, repetindo em voz baixa a cláusula que mais lhe chamara a atenção. — Não é muito tempo?

Eduardo arqueou uma sobrancelha, observando-a como se estudasse sua reação.

— A senhorita será muito bem recompensada pelo seu sacrifício — retrucou, com a calma de quem sempre vence.

Helena ergueu os olhos para ele.

— E se eu não assinar?

Eduardo inclinou-se para frente, apoiando os braços sobre a mesa. A distância entre eles diminuiu, mas a pressão no ambiente se multiplicou.

— Então sua mãe perderá a casa, os bens, e provavelmente a dignidade. — Sua voz não subiu de tom, mas cada palavra pesou como sentença. — A escolha é toda sua, senhorita Vasconcelos.

Helena sentiu a garganta secar. Parte dela queria gritar, acusá-lo de crueldade. Mas outra parte, mais fria, sabia que não havia alternativa.

Ela fechou os olhos por um instante, como quem faz uma prece silenciosa, e depois os abriu novamente, determinada.

— Muito bem — disse, com firmeza. — Onde eu assino?

Eduardo a encarou por longos segundos, e então empurrou a pasta de volta para ela, indicando a última página.

— Aqui. — A ponta de um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios. 

Helena olhou para a linha vazia que esperava sua assinatura, sua mão vacilou por um segundo sobre a caneta. Por um instante, pensou em largá-la e fugir, mas a lembrança de sua mãe sustentou sua decisão. Então, decidida, assinou.

Eduardo a acompanhou enquanto ela assinava assim que ela terminou, ele recolheu a pasta e a fechou com calma. 

— Agora é oficial. — Sua voz saiu baixa, mas firme, carregada de posse. — A partir de hoje, a senhorita Vasconcelos já não existe. Bem-vinda, futura senhora Monteiro.

Helena ergueu os olhos e sustentou o olhar dele, sentindo o peso de cada palavra. Ela respirou fundo e, antes que o silêncio se prolongasse levantou e estendeu a mão na direção dele.

— Que seja, então, um acordo — declarou, mantendo o olhar fixo no dele. — Fechado como qualquer outro negócio.

Eduardo levantou lentamente, ergueu a mão e apertou a dela. O toque foi firme, quase desafiador, como se ambos medissem forças em silêncio.

— Um negócio, sim. — murmurou Eduardo, com um leve sorriso enigmático. 

Helena não desviou o olhar, mesmo sentindo um frio percorrer-lhe a espinha. Soltou a mão dele com a mesma determinação com que a estendeu, girou sobre os calcanhares e caminhou em direção à porta.

Eduardo permaneceu de pé, acompanhando-a com os olhos até o último instante. Quando a porta se fechou atrás dela, ele recostou-se na cadeira com um brilho indecifrável em seu olhar.

Enquanto isso, no corredor, Helena caminhava com passos firmes, mas por dentro sentia a pressão de um peso invisível sobre os ombros. Sabia que não havia retorno. O contrato estava assinado. 

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