Mundo ficciónIniciar sesiónPOV: Bella
As portas da capela se abriram e eu pude sentir meus dedos apertarem na lateral do vestido, enquanto algo em mim aceitava que não havia mais escapatória. Alguém ajeitava meu véu com mãos delicadas, mas apressadas demais para serem reconfortantes, e por um breve instante meu olhar percorreu o salão, todos concentrados em mim, avaliando cada gesto, cada detalhe do vestido impecável e do véu perfeitamente posto. Ninguém estava ali por celebração, sem sorrisos, sem comentários, só olhares atentos e rápidos. Eu não era uma noiva, era uma peça sendo apresentada por Leo. O nome dele me fez procurar seu rosto. Tudo desapareceu quando o encontrei parado no centro do espaço iluminado, perfeitamente alinhado ao altar, como se aquele lugar tivesse sido construído ao redor dele. Não se movia, mas sua presença era esmagadora. A luz do sol nascendo tocava sua camiseta branca que deixava sua pele mais clara, mais dourada, mais bonita, destacando os contornos rígidos de seu rosto e a postura impecável, com o dorso mais... marcado. Era como encarar algo que não precisava provar poder para possuí-lo. Meu abdomem se contraiu outra vez, enquanto seus olhos passearam pelo meu rosto antes de descer para o meu corpo lentamente, o caimento do vestido, a forma como eu sustentava a postura, o modo cuidadoso com que eu respirava. Fazia quase doze horas desde a última vez que o tinha visto. Eu até havia me sentido melhor fisicamente, mas naquele instante a realidade voltou de uma vez, quente e sufocante, batendo direto em mim. Apenas doze horas desde que minha vida havia sido rearranjada à força. E ali estava eu, o cabelo preso em um coque elaborado demais para alguém que só queria desaparecer, joias frias contra a pele, um vestido ajustado com perfeição. Tudo ao meu redor era luxuoso, impecável e... vazio. Me forcei a sorrir. A música começou, baixa, e alguem tocou minhas costas, me empurrando gentilmente para dentro. Ele acompanhava cada movimento, até fixar as íris douradas nas minhas, estreitando o olhar de forma quase imperceptível, buscando pelo menor sinal de fraqueza. O altar se aproximava lentamente, e foi nesse instante que mãos estranhas tocaram as minhas, retirando o buquê sem uma palavra. O perfume dos lisiantos se perdeu no ar, e com ele, a única coisa familiar que eu ainda segurava. Leo avançou e eu finalmente desviei de seus olhos para o restante do rosto, sentindo minha boca secar. Seus lábios se curvaram em um sorriso falso e contido, o tipo de gesto que revela mais do que aparenta, mas que ninguém notaria se não fosse eu. Seu braço se estendeu para mim e demorei segundos demais para deixar que meu corpo deslizasse para tão perto dele, prendendo um pouco a respiração. A textura fina da roupa roçou na minha pele, e em segundos seus passos precisos me levavam até o pulpito, em silencio. Quando o padre iniciou o discurso, ele foi o primeiro a afastar as mãos. Meus olhos se perderam pelo vitral, antes de passear pelos varios pares de olhos focados em mim. Era como se tudo estivesse em silencio, era como se eu estivesse em um pesadelo, até sentir meu pulso ser pressionado levemente, me trazendo de volta. “Não me faça continuar esperando.” A voz baixa e fria de Leo soprou ao meu lado, me fazendo perceber que eu havia permanecido imóvel por tempo demais. "Você aceita Léo como seu legítimo esposo?" O padre repetiu. A imagem da mulher que me viu crescer atravessou minha mente, lembrando-me do motivo de estar ali, e logo em seguida, do motivo pelo qual eu nunca mais havia a visto. "Eu aceito." As palavras saíram sem hesitação. Eu nunca deixaria de tentar salvá-la. "O anel, por favor." O padre instrui e eu percebo que os dedos dele ainda estão em meu pulso e ele se limita a apenas escorregar sobre minha pele ate estar sobre minha mão. É áspero, real demais, e um choque quase impercepitivel percorreu todo meu braço. Quando o anel de ouro deslizou em meu dedo, minha atenção se prendeu aos calos e aos machucados mais fundos e recentes em sua pele, ainda que ele não sentisse dor. "O noivo pode beijar a noiva." Leo se aproximou devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo.A mão de Leo na minha cintura apertou um pouco mais antes de me puxar para perto, o polegar firme, quente, como se conhecesse meu corpo melhor do que devia. Meu coração começõu a bater rápido demais, enquanto eu estupidamente tentava controlar. O toque subiu devagar, seguro, até meu pescoço repousando ali, enquanto pressionava o suficiente para ler meu corpo por dentro. Os olhos passaram pelos meus lábios, e sem aviso a quentura de sua boca me atingiu. O toque firme e profundo parecia seguro demais para ser casual. Meu corpo respondeu antes que eu pudesse impedir, uma reação traidora que fez meu estômago revirar e minhas mãos perderem a firmeza. Por um segundo, apenas um, pareceu que eu estava onde sempre deveria estar. O beijo dele não tinha frieza como todo o resto do corpo, havia a maciez da pele pressionada contra a minha e a mão pressionando mais a cintura. O beijo era bom. Perigosamente bom. O suficiente para aquietar o nó no meu estômago. Então Anton surgiu na minha mente sem aviso, o rosto, a mentira, o acidente, e o lugar que, dias atrás, eu tinha certeza de que seria dele. O ar voltou de uma vez, pesado, difícil de sustentar. Afastei o rosto devagar, apenas o suficiente para quebrar o contato sem transformar aquilo em uma cena. A mão de Leo ainda permaneceu no meu pescoço por um instante, até que os aplausos explodissem pelo espaço e ele se afastasse por completo, levando a mão até a boca, limpando ali. Diferente de mim, ele tinha odiado. Me afastei de vez, desviando os olhos para os pés, o incomodo fraco deixando no lugar no fundo do meu peito. O que estava acontecendo comigo? aquilo era apenas um beijo, trocado com um homem que eu mal conhecia e com quem agora teria de aprender a lidar. Só isso, repeti para mim mesma.






