Capítulo 3

POV: Leo

A graça divina era o refrão constante da minha mãe. Uma cantilena repetida entre o tilintar da louça e o cheiro de café queimado nas manhãs. Ela dizia que o sofrimento era um desvio breve no caminho da fé, um teste silencioso imposto por um Deus que só falava com quem sabia esperar.

Eu cresci ouvindo isso. Cresci aceitando. Porque aceitar era mais fácil do que perguntar.

Durante anos, acreditei que dor servia para alguma coisa. Que tudo tinha um motivo e que só se revelaria mais tarde, quando eu fosse forte o bastante para entender. A fé funcionava bem assim, como um intervalo confortável entre o medo e a realidade. Um lugar onde eu não precisava decidir nada.

Até o dia em que o inferno resolveu me encarar de volta.

Não houve revelação. Nem queda. Apenas a constatação incômoda de que nada mudava, não importa o quanto se rezasse. Pessoas continuavam sangrando. Gente boa continuava morrendo. E os culpados… esses prosperavam. Talvez a fé funcione para quem precisa acreditar nela. Para mim, sempre pareceu apenas uma maneira educada de aceitar a própria impotência, ou o contrario, como era para minha família.

Em Herboville, eu ainda vestia a máscara do filho devoto. O homem que honra o nome da famiglia, que fala baixo diante de símbolos antigos, que finge respeito por coisas que um dia já significaram algo. No leste dos Estados Unidos, e especialmente aqui, todos fingem acreditar em alguma coisa. Sorte. Destino. Bênção. Eu aprendi cedo demais que nada disso interfere quando decisões reais precisam ser tomadas.

O que existe é vontade. E quem tem poder suficiente pode dobrar o mundo até que ele faça sentido de novo. Talvez por isso eu tenha aprendido a controlar tudo ao meu redor com tanta precisão. Um olhar bastava. Uma palavra no momento certo. As pessoas obedecem quando entendem que não há espaço para escolha. Não por fé. Por sobrevivência. E ainda assim…

Os olhos da garota permaneceram abertos por segundos além do esperado. Um detalhe mínimo, deslocado. Seus lábios se entreabriram num movimento quase automático, rosados demais, frágeis demais, como se o corpo insistisse em sinais de delicadeza mesmo agora, cercado por fios e máquinas.

"Eu... eu não posso."

A voz saiu baixa, contida. Não havia histeria. Nem súplica. Pela primeira vez desde aquele dia, seus olhos permaneceram presos nos meus sem que eu precisasse exigir isso.

Boa demais. Gentil demais. Daquelas que ocupam pouco espaço como se pedir permissão para existir fosse um hábito antigo.

E então finalmente veio a familiaridade. A mesma da primeira vez em que realmente a vi. Na máfia, o olhar é uma arma. Poucos sustentam o meu, e os que o fazem aprendem rápido o preço disso. Há uma linha tênue entre respeito e provocação, e qualquer passo em falso pode ser mal interpretado. Mas, com ela, era diferente. A sede em vê-la quebrar, em fazê-la compreender o peso do nome que ousou tocar, era quase uma necessidade, eu queria que me olhasse, eu queria que me mostrasse cada fragilidade de bandeja.

— Anton era... meu namorado... Não pode me obrigar a casar com você.

A máfia tinha me ensinado a lidar com praticamente tudo, ameaça, mentira, dor, até mesmo com esse excesso de verdade crua que deixava escapar, com o fato de não implorar pela sua vida e parecer não me temer por ela, mas ainda assim não era algo que eu precisava ter me preocupado até aquele momento. Um incômodo baixo, deslocado, corria pelas minhas veias, como algo fora do controle que eu ainda não tinha nomeado, mesmo quase um ano depois que eu a vi.

Apertei a mandíbula antes de perceber o gesto e me servi de dois goles seguidos colocando tudo em seu devido lugar, antes de terminar com aquilo de uma vez.

"Uma ligação." Falei baixo, medido demais. "É tudo o que separa a sua mãe de uma bala milimetricamente colocada em seus miolos, enquanto eu faço questão que assista. Eu sou a lei nesse país, e não acho que vá querer dificultar as coisas para si mesma, tampouco para mim." A pele dela pareceu perder mais um pouco de cor enquanto recuava um passo para dentro de si. Não precisei saber onde ela estava indo. Eu reconhecia aquele lugar. Era ali que as pessoas guardavam o que não podiam perder, o ponto fraco.

Eu sabia o que estava fazendo. Estava jogando onde doía. Não no orgulho, não no medo, mas no único ponto realmente exposto. Pessoas como ela sempre caem ali. Não porque são fracas, mas porque são faceis de ler. E isso, eu já tinha aprendido, é a ruína quando se está diante de alguém como eu. Os lábios dela se fecharam devagar, os dedos se apertaram contra o lençol, um gesto pequeno, quase educado. Quando assentiu, foi sutil. Não era concordância comigo. Era escolha pelos outros. Sempre pelos outros. Mesmo quando isso custava mais do que ela estava disposta a admitir.

“Don, podemos conversar?” A voz de Mikey atravessou o quarto sem pedir permissão, prática demais para ser coincidência.

Não me virei de imediato. Meus olhos permaneceram nela por mais um segundo, o suficiente para confirmar que a decisão já estava tomada e não voltaria atrás.

Então dei um passo para trás. Distância restabelecida. Controle também. Em três dias, eu teria uma esposa como todos esperavam que acontecesse.

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Eu observava o corpo do jovem desacordado, aprisionado no porão, como quem avalia um problema que precisa ser resolvido antes que apodreça. Os cortes recentes no rosto denunciavam a tentativa frustrada dos meus homens de alimentá-lo naquela manhã. Ele recusara.

O cheiro metálico do sangue seco misturava-se à agressividade das folhas de tabaco do cigarro entre meus dedos. Era curioso como aquela combinação me trazia calma.

"Não foi isso que imaginei quando sugeri que estivesse na hora de casar." A voz de Mikey ecoou pelo porão antes mesmo que eu o encarasse. "E acredito que não seja preciso dizer o quão arriscado tudo isso é" Ele se aproximou com passos tranquilos, calculados. Mikey sempre andava assim, como quem sabe que não precisa se apressar para ser ouvido. Meu consigliere. Mais do que isso. Foi ele quem me ensinou que um líder não governa apenas com violência, mas com antecipação. Ouvi o som dos pertences do prisioneiro sendo colocados sobre a velha mesa de madeira.

Carteira, chaves, um celular quebrado. Vestígios de uma vida que ele não voltaria a ter. Meus olhos permaneceram no garoto, mesmo sabendo que Mikey observava cada linha do meu rosto.

"Talvez ainda dê tempo de voltar atrás" completou, com a mesma calma de quem me conhece há tempo demais para acreditar nisso.

Soltei a fumaça devagar, deixando a nicotina se espalhar pelo peito antes de finalmente virar o rosto na direção dele.

"Eu não volto atrás. Você sabe disso." Minha voz saiu firme, sem esforço.

Mikey sustentou meu olhar por um instante mais longo do que o necessário. Não era desafio. Era cuidado. O mesmo que teve naquela noite em que me encontrou ao lado do meu irmão, que apenas tremia, ensanguentado demais para qualquer redenção. Ele esteve lá quando tudo saiu do controle. E, por isso, tinha o direito de falar.

"Lupo…" começou, usando o nome que só ele ainda ousava usar. "O que Anton fez no passado… se ele acordar…" Ele deixou a frase morrer no ar. Mikey sempre soube quando o silêncio dizia mais. "Colocar a vida da garota nas mãos dele, em vez das suas, pode não ser bom para os negócios." Sua voz permaneceu baixa, contida.

"Ela nunca esteve no mesmo meio que nós." Dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. "É temporário." Declarei. "Assim que ele acordar, tudo isso acaba. Ela vai estar arruinada o suficiente para ele quase me agradecer por ter sido o herói da vida miserável que ela estava." Inclinei a cabeça num gesto mínimo. Não era tudo, eu sabia, mas também não era mentira. Apenas a parte conveniente. "Mas se meu irmão quiser guerra… eu serei o primeiro a entrar em campo. E ele sabe disso. Sabe que perde."

Mikey não argumentou. Nunca fazia quando percebia que a decisão já estava tomada. Apenas assentiu, aceitando não por concordância, mas por lealdade.

"Os convidados chegam em poucas horas."

"Fez tudo como combinamos?"

"Sim. Para todos, é o cumprimento de um acordo antigo. O pai devia à famiglia, morreu antes de honrar, e a filha passou a ser responsabilidade nossa." Ele fez uma pausa curta. "A história é simples, aceitável. Documentos, registros e testemunhas sustentam isso. Para fora, não há escândalo. Só continuidade."

Assenti. Era por isso que Mikey permanecia ao meu lado há décadas. Não pela força. Pela construção do inevitável.

"Você sabe o que precisa fazer."

"Vou cuidar da polícia. E da segurança."

A voz fraca interrompeu o ambiente antes que Mikey se afastasse.

"Bella… ela… é só minha amiga… por favor… não machuquem ela…" O garoto ainda acreditava no valor das palavras. Isso normalmente me divertia mais do que devia, mas a menção de seu nome me fez lembrar o porque estavamos ali, meu sangue correu milesimos mais rápido.

"O que vai fazer com ele? " Mikey perguntou, mesmo já sabendo a resposta. "Você não costuma matar inocentes."

Meus olhos se fixaram na parede enquanto pressionava a ponta do cigarro contra a mesa até apagá-lo por completo. Mantive o gesto por segundos além do necessário, afastei-me da mesa e caminhei até o garoto. As correntes prendiam seus braços ao chão. Ele cobria o rosto, como se isso pudesse protegê-lo de homens que aprenderam cedo onde quebrar primeiro. Um chute seco na costela foi suficiente para arrancar o ar dos pulmões dele. O corpo se abriu no reflexo da dor, o rosto virado na minha direção.

“Péssima escolha de palavras.” Minha voz saiu neutra. “Amigas não são tocadas.” Inclinei-me só o bastante para que ele entendesse. “Não quando tem dono.”

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