Mundo de ficçãoIniciar sessãoPov: Bella
Quando as grades de ferro se abriram e o homem grisalho dirigiu até a garagem, meus ouvidos ainda captavam os chiados do som alto da festa, que me incomodaram por horas, junto do cheiro pesado de whisky. Levantei o olhar automaticamente. A mansão era iluminada por dezenas de luzes artificiais, e podia-se ver algund homens espalhados pelo jardim, imóveis e atentos demais para um lugar que deveria parecer acolhedor. Senti o tremor passar pela minha espinha e irradiar pelo resto quando ouvi os passos de leo se aproximarem. O que seria agora? Ele me tomaria como sua esposa? Refiz para mim mesma a pergunta que tinha rondado pela minha cabeça durante todo o tempo. “Suba as escadas. Seu quarto é o primeiro à direita e depois à esquerda.” A voz de Leo ecoou depois de horas de silêncio, breve e controlada, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando. Mais alguns passos e ele apenas se ocupou de sussurrar algo ao motorista, de forma baixa demais para que eu ouvisse, desaparecendo por um dos corredores logo em seguida. “Não comeu nada durante a noite. Precisa de um médico?” A pergunta veio do homem rechoncudo antes que eu pudesse pensar. Leo havia se esforçado para manter uma distância considerável durante toda a festa, ocupando-se com alguns de seus convidados, enquanto eu tentava me manter em uma conversa minimamente civilizada com as esposas presentes. Meu estômago se revirou ao lembrar do cansaço acumulado e de como elas podiam ser insuportáveis, especialmente quando o assunto se limitava a joias, vestidos e fofocas. “Não se preocupe, estou apenas um pouco cansada.” Forcei um sorriso breve, automático, embora o rosto dele permanecesse imóvel. “É melhor eu ir. Boa noite.” Ajustei a saia rodada ao passar por seu corpo, sentindo o tecido roçar minhas pernas como um lembrete de que eu me sentia deslocada. Atravessei a transição entre a sala de estar e a de jantar sem desacelerar, cercada pelas cores preto, marrom e branco que pareciam sugar qualquer tentativa de leveza. Não me permiti observar os detalhes. Tudo ali me incomodava: a roupa, o silêncio, a sensação de que aquela casa era uma extensão da personalidade de Léo, organizada, e sufocante. Subi as escadas rente à parede da sala de estar, como se assim pudesse ocupar menos espaço, e em poucos minutos alcancei meu quarto. Era amplo demais para alguém que se sentia pequena. A mesma paleta escura dominava o ambiente, e a janela de vidro à frente da porta deixava a luz da lua invadir o espaço, iluminando a cama central e as duas poltronas pretas dispostas próximas à sacada. Tudo parecia simétrico. Caminhei descalça sobre o tapete até a lateral da cama e abri a porta discreta, acendendo as luzes do closet. As roupas escolhidas por algum capanga de Léo, preenchiam cada espaço. Não eram feias, nem desconfortáveis. Ainda assim, não eram minhas. Desviei o olhar para as mãos, e o brilho frio do anel em meu dedo voltou a chamar minha atenção, insistente, quase cruel. Por um instante, fiquei ali, observando-o, até puxá-lo com força e deixá-lo sobre uma prateleira qualquer, como se aquele gesto simples fosse capaz de apagar tudo o que ele representava — o altar, os votos, aquele beijo. Escolhi o pijama mais quente no fundo da gaveta, embora todas as opções fossem curtas e vulgares e me deitei, permitindo que o peso do corpo afundasse na cama macia demais, cara demais, silenciosa demais. Fechei os olhos, esperando que o cansaço me engolisse antes que os pensamentos voltassem a se organizar. Mas eles sempre voltavam. A voz dela surgiu enquanto eu encarava o teto, familiar como uma cicatriz antiga. Você sempre estraga tudo. Não era alta, nem agressiva, nunca precisava ser. Mesmo distante, eu a reconheceria a quilômetros de distância. O quarto começou a mudar ao meu redor quase sem aviso. O silêncio foi substituído por bipes ritmados, mecânicos, e meus olhos se moveram devagar até a cama que agora ocupava o centro do espaço. O corpo de Anton estava ali, imóvel, sustentado por fios e tubos, coberto até o peito por um lençol pálido. A presença dele era quase palpável, sufocante, se não fosse reduzida àquele som irritante e ao movimento mínimo do abdômen subindo e descendo a cada respiração. A voz dela se aproximou, mais nítida. Você foi um erro. Você é um erro. O ar pareceu pesar nos meus pulmões. Aquelas palavras se espalharam pelo quarto, ecoando junto ao som das máquinas. Eu odeio você. Todos odeiam. Meus olhos arderam, a visão embaçou, e quando pisquei, ela estava diante de mim. O rosto distorcido pela raiva acumulada, as veias saltadas, o ódio antigo finalmente encontrando forma. É tudo culpa sua, a ouvi gritar , avançando. Todos os meus músculos se contraíram de uma só vez. "Anton!" Meus lábios clamaram, quando eu pulei sobre a cama e acordei sob a fraca claridade do dia nublado, o coração disparado e o corpo rígido, como se ainda tentasse fugir de algo que nunca realmente foi embora. Corri para o banheiro, como acontecia em quase todas as manhãs em que sonhava com algo parecido, e vomitei tudo o que havia em meu estômago, ainda que a única coisa que restasse fosse o das sobras da água que eu me forçara a engolir, entre um sorriso e outro. Fazia alguns dias que minha mente tinha me dado um pequeno gosto de paz, mas eu sabia que não ia durar. Nunca dura. Eu já deveria estar acostumada, já deveria ter aprendido a controlar o próprio corpo, mas era sempre o contrário. Os vômitos vinham mais fortes, demoravam mais para passar. Apoiei as mãos na pia e esfreguei o rosto várias vezes, ficando ali tempo demais, até conseguir empurrar tudo de volta para o fundo do peito. Quando finalmente ergui o olhar, o reflexo no espelho não ajudou em nada, pálida, os olhos fundos demais, como se o cansaço tivesse decidido morar ali. Eu nunca estive tão caótica. Minha barriga roncou, baixa e insistente, tentando ocupar o espaço que o enjoo tinha deixado. Era quase irônico — eu mal tinha resolvido um problema e já precisava encarar outro. Ainda era cedo demais para isso. Cedo demais para encontros, para conversas... para ele. Respirei fundo. Eu só precisava evitá-lo. E, na pior das hipóteses, sorrir de leve e seguir em frente. Prendi o cabelo, sequei as mãos na roupa e abri a porta devagar. Meus passos ecoaram pelo silêncio mortal da casa. Antes mesmo de conseguir respirar aliviada ao entrar no corredor oposto ao que Léo tinha seguido na noite anterior, supondo que fosse a cozinha, eu o vi seguido de outra silhueta que se moveu perto dele, próxima demais, íntima demais para aquela hora da manhã. O tempo pareceu desacelerar por um segundo curto demais. Meu instinto gritou para recuar, para desaparecer antes que fosse tarde. Mas já era. Nossos olhos se encontraram.






