O despertador ainda não tinha tocado.
Na verdade, estava longe de tocar. Mas meus olhos se abriram no escuro absoluto do quarto, grudados no teto como se conseguissem ver através da tinta.
4:38.
O relógio digital do celular-tijolo do Paulo emitia um brilho vermelho fantasmagórico.
Tentei fechar os olhos, forçar o sono. Mas a ansiedade era um animal vivo, roendo minhas entranhas.
Minha respiração ficava curta e os pensamentos giravam num carrossel sem fim do o celular esmagado, o olhar do velho rico, o cheiro do perfume da minha vó, a dívida do remédio, a imagem de Laura rindo, e por baixo de tudo, o rosto cansado do meu pai naquela sala de visitas gelada.
Não dava. A cama virou uma armadilha.
Me levantei em silêncio, vestindo o primeiro casaco que encontrei sobre a cadeira e calçando minhas sandálias. Precisava de ar, espaço e algo maior que as quatro paredes desse quarto de empregada.
A casa era um túmulo silencioso. Cada passo no piso parecia um trovão, mas ninguém se mexeu.
Ch