Minha avó compreendeu imediatamente de quem eu falava.
— Melhor. A febre não voltou, mas ainda reclama da garganta. Mas o que mais me preocupou foi saber que ela bateu em uma colega da mesma idade.
Suspirei, um pouco mais preocupada.
— Vou dar uma olhada nela.
Segui pelo corredor até o quarto.
Ao abrir a porta, meu coração imediatamente se acalmou.
Alice dormia profundamente, abraçada ao seu velho ursinho de pelúcia. Os cabelos negros estavam espalhados sobre o travesseiro, e sua respiração tranquila era o som mais bonito que eu poderia ouvir depois de um dia tão cansativo.
Sorri sem perceber.
Aproximei-me devagar e sentei na beirada da cama.
Com delicadeza, toquei sua testa para verificar a temperatura.
A febre havia diminuído.
Fechei os olhos por um instante, agradecendo em silêncio.
Todo o meu cansaço desaparecia sempre que eu olhava para minha filha de cinco aninhos. E algo me consolava, ela se parecia com ele... Fiquei ali, amando-a em silêncio, pensei em Henrique, como ele deveria está? Mesmo com o coração apertado, sinto um enorme frio na barriga ao imaginar em vê-lo diante de mim novamente. Sacudi a cabeça querendo parar de sonhar demais... Ali, eu só me preocupava com a atitude dela, minha filha nunca foi agressiva, nunca bateu em ninguém. O que me restava era esperar para entender no dia seguinte, sobre o motivo daquilo.
O alívio tomou conta de mim quando percebi que a febre havia desaparecido.
Soltei um longo suspiro e deixei um beijo delicado na testa de Alice antes de me levantar. Meu corpo implorava por descanso. Caminhei até o banheiro, tomei um banho demorado na esperança de aliviar a tensão dos músculos e, pouco depois, me deitei.
Fechei os olhos, pronta para dormir.
Mas o sono simplesmente não veio.
As palavras de Fabiana voltaram à minha mente, insistentes.
"Você sofreu bullying?"
Virei de lado, tentando afastar aqueles pensamentos. Apertei os olhos com força, como se isso fosse suficiente para silenciar as lembranças. Não adiantou.
Depois de alguns minutos, desisti.
Voltei a encarar o teto escuro do quarto e passei as mãos pelo rosto, frustrada.
Aquilo não deveria mais me afetar.
Pelo menos era o que eu dizia a mim mesma.
Cinco anos haviam se passado.
Eu não era mais aquela adolescente ingênua, cega de paixão pelo professor mais velho.
Mesmo assim, bastava alguém mencionar a escola para que todas as feridas voltassem a sangrar.
Ele me fez acreditar que me amava.
Fez promessas.
Conquistou minha confiança.
E, depois de tirar minha virgindade, simplesmente foi embora.
Frio.
Calculista.
Como se eu nunca tivesse significado absolutamente nada.
Além de partir meu coração, ainda me deixou grávida.
As consequências vieram logo depois.
Fui expulsa de casa.
Quase toda a família viraram as costas para mim, exceto minha avó.
Às vezes me pergunto o que teria sido da minha vida se minha avó materna não tivesse aberto a porta de casa para mim naquele momento.
Provavelmente eu teria perdido tudo.
Respirei fundo, engolindo o nó que se formava na garganta.
Não.
Eu não queria voltar àquele passado.
Afastei o cobertor, levantei-me da cama e saí do quarto.
Encontrei minha avó adormecida na velha cadeira de balanço, diante da televisão ainda ligada. Sorri de leve, aproximei-me e toquei seu ombro com delicadeza.
— Vó... Vamos para a cama.
Ela despertou lentamente, ainda sonolenta. Acompanhei-a até o quarto, ajeitei o cobertor sobre seu corpo e esperei que voltasse a dormir.
Só então caminhei até a cozinha.
Enchi um copo com água e bebi devagar, tentando acalmar a inquietação que insistia em permanecer dentro de mim.
— Mamãe...
A voz baixinha me fez erguer os olhos.
Alice estava parada na entrada da cozinha, usando seu pijama, descalça e com os cabelos negros completamente bagunçados. Seus enormes olhos azuis ainda carregavam o sono.
Sorri imediatamente.
— O que a senhorita está fazendo acordada a essa hora?
— Eu quero um copo de leite... — murmurou Alice, esfregando os olhinhos enquanto caminhava até a mesa da cozinha. Sentou-se na cadeira e começou a balançar as pernas.
Sorri diante da cena.
Aproximei-me dela, prendi seus longos cabelos em um rabo de cavalo improvisado e fui até a geladeira. Peguei a garrafa de leite, servi um copo e o coloquei à sua frente.
Alice segurou o copo com as duas mãos e começou a beber devagar.
Sentei-me ao seu lado, aproveitando aquele pequeno momento de tranquilidade.
— Sua garganta ainda está doendo? — perguntei, observando seu rostinho abatido.
Ela fez uma careta.
— Mais ou menos...
Ri baixinho.
— Quer que a mamãe durma com você esta noite?
Os olhos dela brilharam imediatamente.
— Quero!
A resposta veio tão alta que levei o dedo aos lábios.
— Shiu... Vai acordar sua bisa.
Ela levou as duas mãos à boca, segurando uma risadinha.
— Termina de tomar seu leite e vamos dormir. Já está muito tarde.
Alice concordou com a cabeça e terminou o leite sem reclamar.
Assim que colocou o copo vazio sobre a mesa, estendeu os bracinhos na minha direção.
Sorri e a peguei no colo.
O cansaço do dia inteiro desaparecia sempre que eu a abraçava. Sentia tanta falta dela durante o expediente que até o perfume adocicado de chiclete que ficava em seus cabelos era suficiente para aquecer meu coração.
Voltamos para o quarto.
Assim que nos deitamos, Alice se virou para mim e acariciou meu rosto com a palma da mão.
— Mamãe...
— Hum?
— Amanhã eu posso ficar com você?
Franzi a testa.
— Como assim?
Ela fez um biquinho.
— Você passa o dia inteiro trabalhando... A bisa fica sentada vendo televisão e eu fico com muito tédio. Amanhã eu não tenho aula... Posso ir com você? Lá tem aquele cantinho de brinquedos.
Olhei para ela tentando manter a expressão séria.
— Meu trabalho é muito corrido, Alice.
Ela juntou as duas mãozinhas em frente ao peito.
— Por favor... Eu prometo que vou me comportar.
Mordi o lábio para esconder o sorriso.
— Vou pensar no seu caso.
Ela arregalou os olhos.
— Eu posso até fazer massagem nos seus pés!
Não consegui conter a gargalhada.
— Você é uma figura...
Ela sorriu satisfeita, acreditando que já havia me convencido.
Acariciei seus cabelos.
— Agora chega de conversa. Está na hora de dormir.
Ela se aproximou, beijou minha bochecha com carinho e sussurrou:
— Boa noite, mamãe.
— Boa noite, meu amor.
Alice virou de costas, abraçada ao ursinho de pelúcia.
Continuei acariciando seus cabelos até sentir sua respiração ficar lenta e tranquila.
Mas a lembrança do alerta da minha avó, apertou meu peito. Parei de acariciar seus cabelos, suspirei antes de chamá-la.
- Alice meu amor... - Ela se virou, ajeitando o urso em seus braços.
- Oi mamãe.
- A vovó comentou que você teve problemas na escola. O que aconteceu? Por que bateu em sua amiguinha? - Alice franziu a testa, se encolheu claramente incomodada.
- Aquela feia não é minha amiga.
- Você não pode falar assim filha... Não pode sair batendo em outras crianças. - A repreendi, ela erguei os olhos, estufou seu pequeno peito apertando sua urso ainda mais.
- Ela disse que eu não tenho papai. Que todo mundo na salinha tem papai, mas eu não. Mamãe, por que eu não tenho papai?