Capítulo 01
O restaurante estava um verdadeiro caos.
— Rita, a mesa oito está esperando! Leve esse prato antes que os clientes morram de fome! Fabiana, preciso desses pratos limpos! Marcos, cadê o chimichurri? Essa carne não vai se temperar sozinha!
As panelas ferviam, o óleo estalava e os pedidos não paravam de chegar. O calor da cozinha parecia sufocar meus pulmões, enquanto o suor escorria pela minha testa. Minhas costas queimavam de tanto tempo em pé, e a dor de cabeça só aumentava a cada nova comanda.
Respirei fundo, tirei o avental por um instante e caminhei até os fundos do restaurante. Sentei-me no banco de madeira, fechei os olhos por alguns segundos e massageei as têmporas.
Eu só precisava de um minuto.
— Carol! Chegaram mais dois pedidos da sugestão do chef!
A voz de Marcos acabou com minha breve pausa.
Abri os olhos, respirei fundo mais uma vez e me levantei.
— Já estou indo.
Aquela noite estava um verdadeiro inferno. O outro chef havia faltado, deixando toda a responsabilidade da cozinha sobre mim. Para piorar, meus colegas só tomavam alguma iniciativa quando eu mandava. Era cansativo. Exaustivo. Como se não bastasse recebi uma ligação da minha avó, enxuguei minhas mãos, me tranquei no banheiro para conseguir atender. Então ela me disse que houve uma briga na escola da minha filha. Ela voltou mais cedo naquele dia. Eu fiquei angustiada, queria entender o motivo, mas a patroa bateu na porta do banheiro me apressando. Precisei desligar.
Enquanto selava uma peça de carne na frigideira, Fabiana lavava os pratos cantarolando alguma música aleatória. E meus pensamentos estavam em minha filha. Era horrível trabalhar pensando nela, sem saber o que aconteceu, se ela foi agredida ou se agrediu outra criança. Então Fabiana puxou assunto, me arrancando dos pensamentos sufocante.
— Hoje está pauleira, hein? Desde que cheguei, não sentei um minuto.
Sorri sem tirar os olhos da frigideira.
— Nem me fale. Minhas costas já estão implorando por misericórdia.
Ela riu.
— Às vezes sinto saudade da época da escola. Minha maior preocupação era acordar cedo.
Meu sorriso desapareceu por um instante.
A escola...
Algumas lembranças insistiam em voltar, mesmo depois de cinco anos.
Professor Henrique.
Afastei aquele pensamento antes que ele tomasse conta de mim.
— Eu não sinto falta nenhuma.
Fabiana arqueou uma sobrancelha.
— Sério? Sofreu bullying?
Soltei uma pequena risada.
— Se fosse só bullying...
Ela parou de secar os pratos e me encarou.
— O que aconteceu?
Balancei a cabeça, voltando minha atenção para o prato.
— É uma história que prefiro deixar no passado. Hoje só agradeço por tudo aquilo ter ficado cinco anos atrás.
Fabiana percebeu que eu não queria continuar o assunto e voltou ao trabalho sem insistir.
Poucos minutos depois, Marcos entrou animado na cozinha.
— Carol! Já é a quarta mesa hoje querendo falar com você! Estão elogiando sua comida e fazem questão de te conhecer.
Um sorriso escapou dos meus lábios.
Apesar do cansaço... era por momentos como aquele que todo o esforço valia a pena.
ouvir um elogio daqueles fazia tudo valer a pena.
Retirei o avental e olhei para Fabiana.
— Você consegue finalizar esses pratos para mim?
Ela sorriu e assentiu.
— Pode deixar. Eu dou conta.
Agradeci com um gesto e caminhei até o salão.
Assim que me aproximei da mesa, um casal levantou-se para me cumprimentar.
— A comida estava simplesmente maravilhosa. Fazia muito tempo que não comíamos tão bem.
— Meus parabéns pelo talento — completou a mulher, sorrindo.
— Muito obrigada. Fico feliz que tenham gostado. Espero revê-los em breve. - Respondi orgulhosa, mas meu riso sumiu, no salão escutei a voz do Henrique, ou pensei ter escutado. Meu coração disparou, olhei para atrás, mas não era ele. E sim um rapaz loiro conversando com sua esposa, sua voz bastante semelhante ao homem que um dia incendiou meu coração, e que, infelizmente, ainda sinto falta. Sacudi a cabeça parando de me distrair, tornei a focar nos clientes que haviam elogiado meu trabalho.
Troquei mais algumas palavras com eles antes de voltar para a cozinha, com o coração aquecido. Não importava o quanto o dia tivesse sido difícil; bastava um elogio sincero para me lembrar do motivo de amar aquela profissão.
As horas passaram entre panelas, pedidos e fumaça. Quando o último cliente deixou o restaurante, um silêncio agradável tomou conta do ambiente.
Pela primeira vez naquela noite, pude respirar sem pressa.
Sentei-me em uma cadeira e soltei um longo suspiro, sentindo cada músculo do meu corpo reclamar do esforço.
Enquanto alguns funcionários organizavam o salão para o dia seguinte, Marcos encostou na vassoura e abriu um sorriso divertido.
— Ei, Carol... Hoje é sexta-feira. Que tal a gente sair para tomar alguma coisa?
Ri, já imaginando onde aquela conversa iria parar.
— Hoje não dá.
— Tem certeza?
— Tenho. Minha avó não está muito bem, e preciso chegar em casa logo.
Ele apenas concordou com a cabeça, respeitando minha resposta, antes de voltar a varrer o chão.
Fabiana sentou-se ao meu lado com um sorriso malicioso.
— Posso estar enganada... mas acho que o Marcos está interessado em você.
Soltei uma risada.
— Não está, não.
— Ah, está, sim.
Balancei a cabeça, divertida.
— Mesmo que esteja... não faz diferença. Eu não quero homem nenhum.
Levantei-me, peguei minha bolsa e olhei para os dois.
— Boa noite, pessoal. Até amanhã.
Despedi-me da equipe e caminhei até o estacionamento.
Assim que entrei no carro, apoiei a cabeça por alguns segundos no banco e fechei os olhos.
Que dia...
Liguei o motor e segui em direção à minha casa.
O relógio já passava das nove da noite, mas o trânsito de verão em Arraial do Cabo continuava caótico. Carros buzinavam sem parar, motocicletas passavam pelos corredores e eu mal conseguia avançar alguns metros por vez.
Normalmente, o trajeto durava cerca de vinte minutos.
Naquela noite, levou quase o dobro.
Quando finalmente estacionei em frente de casa, senti um enorme alívio.
Desliguei o carro, peguei minha bolsa e entrei.
Logo na sala, encontrei minha avó sentada na velha cadeira de balanço, assistindo televisão.
Sorri.
— Achei que a senhora já estivesse dormindo.
Ela desviou os olhos da tela apenas o suficiente para me responder.
— Hoje está passando um especial de fim de ano. Eu adoro assistir.
Aproximei-me dela e deixei minha bolsa sobre a mesa.
— E ela... como está?