Encontro

Eu só precisava me manter discreta, dentro da cozinha, assim eles não iriam me ver.

Eu queria me acalmar.

Ou, pelo menos, conseguir fingir que aquele reencontro não tinha abalado todas as estruturas que levei cinco anos para reconstruir.

Mas era impossível.

Minhas mãos tremiam, minha respiração estava irregular e até meus colegas de trabalho já haviam percebido que havia algo errado.

Para piorar, dona Patrícia entrou na cozinha justamente naquele momento. Seu olhar experiente percorreu cada canto do ambiente, analisando a organização, os funcionários e, por fim, parou em mim.

— Essa cozinha está uma bagunça! — reclamou, cruzando os braços. — Carol, você nunca vai aprender a ter pulso firme com sua equipe?

Engoli em seco enquanto finalizava um prato de massa, colocando delicadamente uma folha de hortelã sobre o molho.

— Desculpe, dona Patrícia... Hoje eu não estou muito bem.

Ela soltou um suspiro impaciente.

— Isso não é desculpa.

Antes que continuasse a bronca, alguém a chamou do salão.

— Já volto.

Assim que ela saiu, apoiei as duas mãos sobre a bancada de inox e respirei fundo, tentando controlar a ansiedade.

Não adiantava.

Meu coração continuava acelerado.

Alguns segundos depois, dona Patrícia retornou à cozinha com um sorriso satisfeito.

— Ótima notícia! A mesa seis adorou a comida. Eles fazem questão de conhecer o chef e ainda pretendem deixar uma excelente gorjeta.

Meu estômago afundou.

Olhei para ela completamente paralisada.

— Eu... acho melhor não. Não estou me sentindo...

Ela nem me deixou terminar.

— Carol, não seja indelicada! Você quer que eu diga aos clientes que a chef se recusou a cumprimentá-los porque não estava com vontade?

Baixei a cabeça.

— Não é isso...

— Então venha comigo. Temos outras comandas esperando.

Ela segurou meu braço de leve, conduzindo-me para fora da cozinha.

Cada passo parecia pesar toneladas.

Meu coração batia tão forte que chegava a doer.

À medida que nos aproximávamos da mesa, minha visão começou a ficar embaçada.

O ar parecia insuficiente.

Foi quando entrei em pânico.

Parei de andar.

Dei um passo para trás.

Depois outro.

Sem pensar, virei as costas e caminhei rapidamente de volta para a cozinha.

— Carol! — ouvi dona Patrícia me chamar.

Não consegui responder.

Assim que atravessei a porta, apoiei as costas nela e fechei os olhos por um instante.

Meu peito subia e descia descontroladamente.

Pela pequena fresta da porta, arrisquei um olhar.

Henrique encarava a cozinha com uma expressão confusa.

Ao seu lado, William também havia parado de sorrir.

Os dois observavam a porta por onde eu acabara de desaparecer.

— Carol... — a voz preocupada de Fabiana me trouxe de volta à realidade. — O que está acontecendo?

Abri a boca para responder, mas dona Patrícia entrou logo atrás de mim.

Ela estava furiosa.

— Você enlouqueceu? Como pôde fazer uma desfeita dessas com os clientes?

As lágrimas começaram a arder nos meus olhos.

— Eu...

— Volte lá agora.

Balancei a cabeça negativamente.

— Eu não consigo...

Ela respirou fundo e apontou para a porta.

— Ou você vai imediatamente... ou estará demitida.

Meu coração afundou.

Fabiana aproximou-se e segurou meu braço com delicadeza.

— Vai, Carol... Vai dar tudo certo.

Fechei os olhos.

Respirei fundo uma última vez.

Então saí da cozinha.

Cada passo parecia uma sentença.

O primeiro a me ver foi William.

Ele ria de alguma coisa, mas seu sorriso desapareceu no instante em que nossos olhares se encontraram.

Seu rosto empalideceu.

Izabel percebeu a mudança de expressão do marido e virou lentamente o rosto na minha direção.

Assim que me reconheceu, levantou-se da cadeira em choque.

Henrique ainda permanecia de costas.

Confuso com a reação dos dois, virou-se para entender o que estava acontecendo.

Foi então que nossos olhares se encontraram.

O tempo parou.

Cinco anos desapareceram em um único segundo.

O choque estampado em seu rosto era exatamente igual ao que eu sentia dentro de mim.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Durante alguns segundos, ninguém disse absolutamente nada.

O silêncio entre nós parecia ensurdecedor.

Respirei fundo, reunindo as poucas forças que ainda me restavam.

— Boa noite... — minha voz saiu baixa, quase falhando. — Dona Patrícia me disse que vocês queriam parabenizar o chef. Então... muito obrigada. Fico feliz que tenham gostado da refeição.

Não esperei qualquer resposta.

Virei-me imediatamente, decidida a voltar para a cozinha.

— Carol!

A voz de Henrique ecoou atrás de mim.

Fechei os olhos por um breve instante.

Meu coração implorava para olhar para trás.

Mas minha razão gritava para continuar andando.

Ergui a mão, impedindo que ele se aproximasse.

— Não.

Foi a única palavra que consegui pronunciar.

Continuei caminhando em passos rápidos, quase tropeçando na própria pressa.

Atravessei a cozinha sem dizer uma única palavra e segui direto para os fundos do restaurante.

Assim que a porta se fechou atrás de mim, minhas pernas perderam as forças.

Apoiei as mãos na parede e finalmente deixei as lágrimas escaparem.

Cinco anos.

Cinco anos tentando reconstruir minha vida.

Cinco anos convencendo a mim mesma de que ele já não significava mais nada.

E bastou ouvir meu nome sair da boca dele para tudo desmoronar outra vez.

Levei as mãos ao rosto, tentando conter o choro.

Não adiantou.

As lágrimas escorriam sem controle.

Respirei fundo diversas vezes, tentando recuperar o fôlego.

Pouco a pouco consegui me recompor.

Enxuguei o rosto com o avental e fechei os olhos.

Eu precisava voltar.

Precisava fingir que estava tudo bem.

A porta tornou a se abrir.

Era Fabiana.

Ela se aproximou devagar, claramente sem entender o que estava acontecendo.

— Carol... Tem uma moça na porta da cozinha querendo falar com você. Ela disse que o nome dela é Izabel.

Meu coração disparou outra vez.

Balancei a cabeça imediatamente.

— Diz que ela se enganou.

Fabiana franziu a testa.

— Como assim?

— Fala que eu não conheço nenhuma Izabel.

Ela continuou me encarando por alguns segundos, surpresa com minha reação, mas acabou concordando.

Assim que se virou para voltar ao salão, uma lembrança me atingiu como um raio.

Alice.

Meu Deus...

Alice.

Se Henrique ainda estivesse na área kids...

Se ele resolvesse conversar com ela outra vez...

Olhei para Fabiana quase em desespero.

— Espera!

Ela parou.

— Traz a Alice para mim. Agora... por favor.

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