Mundo de ficçãoIniciar sessão
Para outras adolescentes, hoje deveria ser um momento épico, feliz e muito descontraído. Os 19 anos é uma idade perfeita para se curtir a vida. Porém, para mim é o começo de um pesadelo.
Vivi 18 anos na porta do inferno, com funcionárias que mais pareciam secretárias do diabo, em exceção de dona Benta, ela sim sabia cuidar de todas nós, como se fosse parte da família. Família? Desconheço a sensação de ter uma, sempre morei no orfanato e as pessoas daqui estão longe de ser uma família. Termino o banho de cinco minutos contados por Ermínia. Lavei o cabelo rapidamente e, como um flash, acabei o banho. Vesti-me em um vestido branco, como todas as minhas outras roupas, fiz o coque de costume e calcei a havaiana, que por acaso era bem novinha. Cruzei meus braços em frente a Ermínia, que me olhava impacientemente. _ Vamos, garota, você não está indo casar. Disse, dando uma risada nasal. _ Não está vendo que estou pronta? Ela empurra minhas costas com uma madeira roliça e bem marrom que anda em mãos. _ Não empurra, não está vendo que estou indo? Segui para o andar de baixo. Vejo as três meninas que irão para a Itália comigo. _ Prontas?_ O Kelmer, o motorista, pergunta olhando para Ermínia. _ Levem logo esses pesos daqui._ Diz Ermínia. _ Qualquer inferno é melhor que esse que você habita._ Digo olhando para ela. Ela levanta a madeira. _ Quer levar uma surra antes de ir, garota? Sua malcriada. Sorri sarcástica. _Aposto que o senhor Capone vai amar receber a norinha dele toda marcada. Vai, senhora Ermínia, me bata! Ela me encara com sangue nos olhos, como se quisesse me matar mesmo. _ Hora sua insolente... Leva logo essa praga daqui, Kelmer. Espero que sofra muito, sua coisa. Dei de ombros e segui Kelmer. Entro no carro e suspiro olhando para o lugar onde vivi até hoje. O que me aguarda? Onde irei morar? Com quem irei morar? Quem é esse homem a quem estou destinada? Lágrimas escorrem sobre minha face a mais uma vez imaginar o que seria de mim se tivesse uma família, pai e mãe como as crianças que iam nos visitar e nos dar brinquedos. Como seria sentar e comer em família, estudar, brincar e ter vários momentos felizes. Não haveria choro da dor de levar surras de bastão e nem de ficar presa em um lugar escuro durante uma noite toda. Coitada de Benta, que trabalha durante a noite e nunca pode nos ajudar, pois era sempre ameaçada de ser expulsa. Ela precisa do emprego e disso eu sempre entendi. Ela quem cuidava dos machucados em minhas costas e sempre dizia que tudo ia ficar bem, mesmo com lágrimas descendo de seus olhos, transparecendo tanta mentira; eu tentava acreditar em suas palavras. Nem tive como me despedi dela direito, apenas um abraço na noite anterior e lágrimas molhando nossas roupas foi a despedida. Agora irei para a faculdade e só Deus sabe que tipo de pessoas encontrarei lá. Uma coisa tenho certeza, estarei sempre solitária, pois cresci assim, aprendi assim e assim continuarei. Já no aeroporto, limpo as lágrimas e sigo junto das meninas. Somos seguidas por quatro seguranças fardados e por Kelmer. _Levem as meninas em segurança até a Itália. Quero notícias quando chegarem lá._Kelmer diz, usando sua autoridade. _ Não pensem em fazer nenhuma gracinha, principalmente você, Haley. Caso ela invente de aprontar alguma,podem cancelar o CPF dela; da cadeia vocês saem. Pisco algumas vezes, assustada com o tom que Kelmer usou. Seguimos para deixar as malas pequenas e fazer todo o procedimento, acompanhadas dos brutamontes atrás de nós. Depois de tudo pronto, entramos no avião e sentamos em nossas poltronas. Pietra olha para mim e sorri de canto. Nunca fui de ser gentil com nenhuma delas, mesmo estando no mesmo barco, elas se submetiam a fazer o mal para puxar saco das funcionárias, então, para mim, não são dignas. _Queria tanto uma vida normal, será que daqui para frente vamos poder tomar as rédeas das nossas vidas?_ suspiro e olho para elas. _ Não sei se o que eu ouvi é verdade, mas segundo eles, logo que vocês terminarem os estudos, serão liberadas nas ruas de Palermo. Então, se eu fosse vocês, começaria a pensar em uma forma de procurar um trabalho ou vão morar na rua. Vi o brilho no olhar dela, enfim uma brecha no fim do túnel. _ E você? Terá mesmo que casar? _ Pelo previsto, sim! Não sei porque fui escolhida, mas terei que me casar. Ela acena com a cabeça. _Você é bonita, deve ser por isso. Não vejo nada demais em mim, sou baixa, 1,53 de altura, corpo magro e pele branca, cabelos lisos acima do ombro, pois no orfanato não aceitam cabelo comprido. Ou seja, não tenho nada diferente delas _Você já imaginou se não tivesse que morar no orfanato? _ Já! _ E benta? Será como está? Minha mente vaga para as feições da mulher rechonchuda de pele branca e cabelos pretos lisos. _ Ela vai ficar bem! Agora vá dormir, vai ser um voo extenso e, se você ficar falando e falando, mais extenso ainda. _ Não sei quem vai sofrer mais, você ou o seu noivo arranjado. Olho para ela com a sobrancelha erguida. _ Cala a boca, garota! Reviro os olhos e encosto minha cabeça no encosto da poltrona. Espero que tudo fique bem, não importa que eu viva uma vida monótona e sem expectativa de futuro, só não quero ter que dormir em um lugar escuro e nem ter cinco minutos contados para o banho, nem comer rapidamente para não passar o horário. Não quero chorar por noites com medo. Não quero que as próximas crianças sejam tão judiadas. Quero um mundo onde o amor seja a regra, não a exceção. Onde as crianças sejam vistas como amor, não como pesos. Onde o orfanato seja um lugar de acolhimento, não de dor. Um mundo justo para essas crianças que não tem amor de ninguém, que foram abandonadas. Esse é o mundo que eu quero!






