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Capítulo 7 - Um começo diferente

Entramos no carro e, durante todo o caminho até a faculdade, o clima estava leve e confortável. Era aquele tipo de tranquilidade que surge depois de uma noite intensa, quando duas pessoas ainda estão aproveitando a companhia uma da outra sem pressa.

Andrea dirigia com uma mão no volante enquanto a outra permanecia entrelaçada à minha.

Aquele gesto simples parecia mais íntimo do que eu gostaria de admitir. Por um instante, me peguei pensando que talvez estivesse começando a me acostumar rápido demais com aquilo.

Não era exatamente medo dela… era medo de mim mesmo. De acabar me apegando a algo que, no fundo, eu ainda não entendia muito bem como funcionava.

Afinal, Andrea tinha deixado claro que vivia um relacionamento diferente. Aberto, sem regras muito definidas. Eu ainda não sabia se era o tipo de coisa com a qual conseguiria lidar a longo prazo, mas acabei ignorando e só curti o momento. Depois eu pensaria em como lidar com isso.

Conversávamos sobre coisas simples até que ela perguntou:

— Então, o que você tem de aula hoje?

— Engenharia de Software — respondi. — É a primeira aula da matéria, na verdade.

— Primeira aula? — ela disse, olhando rapidamente para mim antes de voltar os olhos para a rua. — Então professor novo também?

— Exatamente. Ainda nem sei como ele é. Só vi o nome na grade, acho que é C. Aguiar. O primeiro nome estava abreviado. Até hoje não entendo por que os professores têm esse costume de expor somente o sobrenome, mas enfim…

Andrea sorriu de leve.

— Primeira aula com professor novo sempre é meio tenso.

— Nem me fala — respondi rindo. — Pode ser um cara tranquilo… ou daqueles que já chegam passando trabalho na primeira semana.

— Boa sorte então — ela disse em tom divertido. — Se ele for muito cruel, pelo menos você já começou o dia bem.

Balancei a cabeça, rindo.

— Isso eu não posso negar.

O restante do caminho passou rápido, entre pequenas conversas e comentários aleatórios sobre a faculdade. Em poucos minutos, já estávamos entrando no campus.

Andrea estacionou perto do prédio principal e desligou o carro.

— Chegamos — disse ela. — Nos falamos por mensagem então.

— Claro. Pode mandar mensagem sempre que quiser.

Eu já estava abrindo a porta para sair quando senti Andrea puxar meu braço de volta. Antes que eu entendesse o que ela estava fazendo, ela se inclinou e me beijou.

Foi rápido, mas intenso o suficiente para me deixar completamente sem reação. 

Entrei em pânico quase instantaneamente. Apesar do meu pau já estar bem duro dentro da calça, me lembrei de que as pessoas poderiam ver e sair espalhando o ocorrido. Meu olhar correu pelo estacionamento da universidade, procurando ao redor por puro reflexo.

A última coisa que eu precisava era que o tal namorado dela, ou seja lá qual fosse exatamente a dinâmica entre eles, aparecesse ali naquele momento.

Andrea, por outro lado, parecia absolutamente tranquila.

Quando nos afastamos, ela notou minha expressão e soltou uma pequena risada.

— Relaxa, Dante.

— Relaxar? — murmurei, olhando novamente ao redor.

— Você se preocupa demais.

Ela apoiou o cotovelo no volante e inclinou levemente a cabeça na minha direção.

— Além disso, o campus é grande demais pra você ficar esperando que ele apareça do nada em todo canto.

Balancei a cabeça, ainda meio tenso.

— Mesmo assim…

Andrea sorriu daquele jeito que eu já estava começando a reconhecer.

— Vai pra aula — disse ela. — Depois você me conta como foi essa primeira aula misteriosa.

— Pode deixar.

Saí do carro e fechei a porta. Andrea ainda ficou alguns segundos ali, me observando enquanto eu caminhava em direção ao prédio.

Antes de entrar, olhei para trás.

Ela levantou a mão em um pequeno aceno e, logo em seguida, arrancou com o carro e saiu do estacionamento.

Olhei para frente e me assustei quando vi Viktor e Natan.

Os dois estavam parados a poucos metros dali, olhando diretamente para mim. Não precisei de muito esforço para perceber que tinham visto tudo. Os sorrisos lentamente surgindo nos rostos deles eram confirmação suficiente.

Por alguns segundos, ficamos apenas nos encarando em silêncio.

Viktor foi o primeiro a quebrar aquele momento.

— Dante… — disse ele, cruzando os braços. — Quer explicar o que foi isso?

Natan soltou uma risada curta ao lado dele.

— Cara, se aquilo ali foi só uma carona inocente, eu sou um servidor rodando Windows Vista até hoje.

Soltei um suspiro. Puta que pariu! Ter esses dois idiotas no meu encalço o resto do dia, senão por semanas, era tudo o que eu menos precisava agora.

Era óbvio que aquele dia não ia começar de forma tranquila.

— Vocês dois têm aula agora ou vieram cedo só para infernizar minha vida?

Os dois começaram a caminhar na minha direção com expressões cheias de malícia.

— A gente tem aula — respondeu Natan. — Mas isso aí que acabamos de ver parece muito mais interessante.

Viktor apontou discretamente para o estacionamento.

— Espera aí… a garota que acabou de sair naquele carro de onde você desceu não é…?

Eu já sabia exatamente o nome que ele estava prestes a dizer.

— Nem termina essa frase — respondi rápido.

Natan estreitou os olhos e olhou na direção do estacionamento, tentando confirmar o que tinha visto.

— Cara… — ele disse lentamente — aquela ali era a Andrea.

Suspirei.

— Vocês dois não têm aula agora? — perguntei novamente, a fim de tentar sair pela tangente.

— Temos — respondeu Viktor. — Inclusive a mesma que você.

— Mas aparentemente também temos um mistério para resolver — completou Natan.

Começamos a caminhar em direção ao prédio enquanto os dois me cercavam como investigadores.

— Dante — disse Natan — você não estava há uns dias mesmo zoando a gente por olhar pra bunda dela?

— Estava.

— E hoje você aparece descendo do carro dela?

— Coincidência — respondi.

Viktor riu.

— Coincidência nada. Aquilo ali foi um beijo de despedida.

— Vocês estão imaginando coisas.

— A gente até imaginaria se não tivesse visto. E vamos combinar: vocês dois estavam parecendo dois desentupidores de pia ali. Nem tentaram disfarçar — retrucou Natan. — Sem contar que eu vi a hora que você levou a mão até o seu pau. Você com certeza estava com uma ereção.

Viktor colocou a mão no meu ombro.

— Cara… você saiu do carro da mulher mais comentada da turma e que todos querem comer. E detalhe: ela não dá mole para ninguém e ela te dá um beijo e você quer que a gente acredite que isso foi só uma carona?

Continuei andando sem responder.

— Eu sabia! — disse Natan, rindo. — O nerd silencioso atacou.

— Eu não ataquei ninguém.

— Então ela te atacou — respondeu Viktor. — O que, honestamente, faz ainda menos sentido.

Balancei a cabeça.

— Vocês dois são impossíveis.

— Não, impossível é você — disse Natan. — A gente passa meses olhando pra ela de longe e você simplesmente aparece beijando ela no estacionamento.

Viktor suspirou dramaticamente.

— A vida é injusta.

— Muito injusta — concordou Natan.

Já estávamos perto da sala quando Viktor voltou ao assunto.

— Enfim… vamos ver se pelo menos a aula hoje compensa essa humilhação pública de ter perdido nosso crush pra você.

— Verdade — disse Natan. — Professor novo, matéria nova… sempre dá aquele medo.

— Engenharia de Software— falei.

— Já começou a me dar dor de cabeça — respondeu Viktor.

Paramos na porta da sala.

— Bom — disse Natan — vamos descobrir agora se o professor é gente boa ou um psicopata acadêmico.

Respirei fundo e empurrei a porta.

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