Mundo ficciónIniciar sesiónA adolescente caminhava em direção a uma área abandonada que ficava próxima ao playground. Havia rumores de que a condômina Matilde, vista por alguns adolescentes e crianças como a Bruxa do Prédio Lótus — utilizava o local para enterrar gatos pretos, aparentemente os mesmos que haviam sido registrados como desaparecidos por seus donos. O ar ali parecia mais pesado, como se os sussurros e histórias se agarrassem às árvores retorcidas.
Logo que se aproximou do laguinho, a ruiva avistou Anderson em pé, sob um tronco de árvore. Seu estômago se revirou, pois havia encontrado a chance perfeita para tentar uma reconciliação — ou, ao menos, para não fugir mais da culpa, isso se não fosse pela chegada abrupta da melhor amiga dele, Manuela Martins. A garota entregou ao amigo um punhado de pedrinhas, e logo se iniciou uma disputa quase infantil para ver quem conseguia fazê-las quicar mais vezes na água. Mas não havia leveza na cena. Por trás das risadas, pairava um clima de intrigas e competição como se tudo ali, até uma brincadeira inofensiva, carregasse o peso de algo não resolvido. Enquanto jogavam, discutiam qual time tinha a melhor campanha na Liga dos Campeões com uma intensidade quase agressiva. A ruiva sentiu o peito apertar. O conflito dentro dela parecia gritar entre a descoberta inevitável dos seus sentimentos por Anderson e a culpa sufocante por tudo o que havia feito. Quando tentou dar um passo atrás para fugir daquele tormento, pisou em um graveto seco, o estalo ecoou mais alto do que deveria, e ambos olharam em sua direção. Manuela foi a primeira a se aproximar, o olhar afiado como uma lâmina. Anderson a seguiu, mas em silêncio, o que tornava tudo pior. — O que você pensa que está fazendo aqui? — perguntou Manuela, avançando até encurralar a ruiva contra um tronco de árvore. A menina arqueou uma das sobrancelhas, cruzou os braços e esperou ansiosamente pela resposta. O silêncio era algo tão sufocante que o ar parecia faltar. A ruiva tentava respirar, mas a postura protetora — quase feroz — de Manuela a fazia encolher como se estivesse diante de um predador. — Eu… Anderson… — sussurrou, sentindo as palavras morrerem antes de chegar aos lábios. Anderson permaneceu imóvel, cismado, como se lutasse contra algo dentro de si. — Eu te fiz uma pergunta — repetiu Manuela, antes de desferir um tapa estrondoso no rosto da ruiva. Samanta cambaleou um passo para o lado. — Garota, qual é o se… — tentou dizer, mas outro tapa, ainda mais forte, atravessou o ar como um estalo seco, cortando sua frase ao meio. As bochechas ardiam, mas o peito dela ardia mais ao relembrar as cenas do trote, o que fizeram com Anderson, a humilhação, o desespero. Os t***s pareciam insignificantes diante do que ele teve de suportar. — Se você está descontando sua raiva pelo que eu fiz, pode b**er mais — disse ela, a voz embargada, mas firme. — Mas, desta vez, b**e com mais força. O sorriso que Manuela deu não tinha nada de divertido. Era sombrio, quase aliviado — um sorriso de quem vê permissão para extravasar tudo o que vinha guardando. Mas, antes que Manuela erguesse a mão novamente, Anderson a impediu segurando o pulso dela. — Chega — disse ele, a voz rouca. — Eu preciso falar com ela, a sós. — Andy, você está falando sério? — retrucou Manuela, incrédula. — Por favor, Manu. O pedido era baixo, mas havia autoridade. Manuela bufou, empurrando o ombro da ruiva ao passar. Anderson deu um riso curto, nervoso — e isso fez o peito de Samanta apertar ainda mais. — Já disse o quanto gosto do seu sorriso? — arriscou Samanta, tentando diminuir a tensão, a voz quase um tremor. — Não me interessa — cortou Anderson. — Eu só pedi para ela sair porque tenho uma pergunta pra você. Ele tentou manter o semblante frio, mas, aos poucos, a expressão fechada se partiu, revelando um bico irritado — e, para a ruiva, estranhamente irresistível. — Anderson… — chamou ela, com cautela. — Por quê? — disparou ele. — Por que você fez isso comigo? A pergunta veio carregada de dor, de algo que ele vinha tentando empurrar para o mais pronfundo. — No começo… parecia algo divertido — confessou a ruiva, com vergonha de si mesma. — Então eu virei um parque de diversões pro bando de idiotas? — retrucou Anderson. A rispidez dele cortou o ar como um golpe. — Não… Me perdoe. Eu sei que agi feito uma idiota. — Se você é ou não… pra mim não faz diferença alguma — devolveu ele, com veneno na voz. A raiva que ele tentava controlar transbordou. Anderson a empurrou contra a árvore, segurando-a pelos ombros. O tronco áspero arranhou as costas da ruiva, e os olhos amendoados dele a encaravam com uma intensidade que fazia seu coração falhar batidas. O ar entre eles parecia vibrar. Então, sem aviso e sem permissão, os lábios de Anderson colidiram com os dela. Não havia suavidade — apenas urgência, frustração, raiva e algo mais profundo que nenhum dos dois ousava admitir. O momento, antes carregado de tensão, explodiu em algo surreal. A cada segundo, Anderson apertava a cintura da ruiva com mais força, como se tentasse se segurar em algo que não conseguia controlar. Quando o ar começou a faltar, ele finalizou o beijo com vários selinhos. Desnorteado, encostou a cabeça no ombro dela, respirando rápido, como se tivesse acabado de escapar de um precipício. — Anderson… — chamou ela, com um sorriso maroto que suavizava a intensidade do momento. Mas, de repente, como se despertasse de um transe, ele se afastou da ruiva — rápido, brusco, sem explicar nada. E isso, para ela, doeu mais que os t***s.






