❤️ Selena:
Subo os degraus de pedra fria em direção à sala do trono, onde o Rei Klaus está sentado em sua grande cadeira esculpida. Sua figura é imponente, com cabelos ruivos que lembram a cor do fogo vivo e olhos que brilham como brasas acesas, capazes de fazer qualquer um se sentir pequeno.
Ele me observa chegar em silêncio, e um sorriso de expectativa surge em seus lábios, esperando ouvir que a vitória estava garantida.
— Selena — diz ele, a voz grave e forte ecoando por todo o salão, chamando a atenção de todos que ali estavam. — Vejo que retornou. Esperava notícias da vitória. O que aconteceu com os lobos?
Paro diante dele, mantendo a postura ereta e o olhar firme, escondendo cuidadosamente a confusão e o turbilhão de sentimentos que ainda se agitam dentro de mim. Não poderia mostrar fraqueza, nem mesmo diante de quem conheço há tanto tempo.
— Houve resistência, meu senhor — respondo, escolhendo as palavras com muito cuidado, sem dar detalhes que pudessem levantar suspeitas. — Os gêmeos alfas são guerreiros habilidosos, treinados desde pequenos para o combate. A batalha está sendo intensa, o exército dos lobos antes vinha sendo mais fácil de conter e derrotar.
O sorriso do rei desaparece lentamente, substituído por uma expressão mais séria e atenta. Ele se levanta com movimentos lentos e pesados, descendo os degraus até ficar a poucos metros de mim, tão próximo que posso sentir o calor que emana de seu corpo.
Seus olhos me examinam de cima a baixo, como se pudesse enxergar além da minha aparência calma e controlada. O fogo a nossa volta fica mais alto e mais brilhante, à medida que seus olhos queimam de uma raiva que ele tenta manter sob controle.
— Resistência? Você é a minha melhor escolha contra eles, são seus inimigos naturais, seu exército matou o pai deles, Selena. Nenhum lobo, por mais forte que seja, deveria ser capaz de detê-la. Você os matou? Tomou o território como ordenei?
Engulo em seco, sentindo um peso grande no peito, pois sabia que suas perguntas eram diretas e exigiam uma resposta que não poderia dar por completo.
Dizer a verdade seria arriscado, pois ele não entenderia algo tão estranho e contrário a tudo o que conhecemos. Ninguém entenderia, talvez nem mesmo eu. Mas mentir para o rei do fogo também é perigoso, pois ele tem um poder imenso e não tolera desobediência ou omissões.
— Eu vim pedir reforço, preciso das bruxas, eles estão em um número muito maior, e muito bem organizados — respondo, ajustando minha explicação para soar razoável e necessária. — A batalha não foi decisiva, mas mantivemos nossa posição. Voltarei com mais força e terminarei com eles, como deve ser feito.
O Rei Klaus me observa por um longo momento, em silêncio, e sinto um calafrio percorrer minha espinha, mesmo com o calor que envolve o salão. Ele é poderoso, e sua magia é antiga e profunda, capaz de coisas que poucos conseguem compreender.
Por um instante, temo que ele perceba a alteração em mim, que tente ler minha mente para descobrir o que realmente aconteceu. Minhas barreiras mentais bloqueiam esse tipo de invasão, mas não sei se seria capaz de usá-las para esconder nem mesmo a mínima informação dele.
— Pois bem que assim seja — diz ele finalmente, voltando devagar para o trono e sentando-se novamente. — Não podemos permitir que a Rainha Eliza avance sobre nossas terras. Você tem a força e a habilidade, Selena. Não deixe que nada a distraia de seu dever, pode convocar as bruxas do coven para auxiliá-la.
— Sim, meu senhor — respondo, fazendo uma reverência respeitosa antes de me virar e começar a caminhar para a saída.
Retiro-me do salão e caminho pelos corredores silenciosos em direção à câmara de convocação, um lugar reservado apenas para assuntos importantes e discretos.
Assim que fecho a porta atrás de mim, deixo escapar um suspiro longo e pesado que não sabia que estava segurando. Encosto-me na madeira fria e fecho os olhos, permitindo que a máscara de líder implacável caia por um momento, pois ali ninguém poderia me ver.
Aqui, sozinha, não há mais o que esconder.
Sinto o puxão novamente, mais forte agora que estou em silêncio e sem ter que me concentrar em manter a compostura. Os dois estão lá, a muitos quilômetros de distância, mas a ligação parece ignorar qualquer espaço físico ou barreira entre os reinos.
Sinto a confusão de um, a raiva contida do outro, e uma necessidade compartilhada que faz meu sangue ferver de uma forma que não consigo controlar por completo.
Eles estão pensando em mim. Do mesmo jeito que eu não consigo parar de pensar neles, mesmo tentando com toda a minha força.
Ando até a grande janela de pedra e olho para o céu, onde a lua cheia brilha intensamente entre algumas nuvens finas. Lembrei-me novamente da advertência e do que sei sobre aquelas criaturas e seus instintos.
Mesmo assim, uma pontada de incerteza me atinge, uma dúvida que insiste em aparecer apesar de tudo o que penso saber. E se eu estiver errada? E se esse tal laço for realmente diferente de tudo o que conheço?
Mas enquanto continuo olhando para o céu e sentindo aquele fio invisível puxar meu peito na direção do norte, uma parte de mim, que me recuso a admitir que existe, começa a se perguntar… e se vierem? Eu seria capaz de resistir a algo que parece tão forte e antigo?
Balanço a cabeça com força, afastando a dúvida e voltando a me agarrar ao que sempre acreditei. É impossível. Eles são inferiores, governados por instintos primitivos e sem o controle que a minha raça possui sobre as próprias emoções. A lua nesse momento é coberta por nuvens mais espessas e, estranhamente, me sinto mais calma, como se a luz dela aumentasse a força da ligação.
Sento-me na poltrona de couro escuro ao lado da mesa de invocação, um recurso muito útil que o rei mantém para comunicações importantes. Aqui eu posso chamar pelo nome quem eu quero ver e a criatura aparece sentada na poltrona do outro lado da mesa, desde que ela tenha feito o pacto de invocação e esteja de acordo em atender.
Passo as mãos pelo rosto, respiro mais fundo algumas vezes, tentando me acalmar e organizar meus pensamentos antes de prosseguir. Toda a minha vida foi construída sobre regras claras e inabaláveis: fogo contra gelo, vampiros contra lobos, lealdade acima de tudo e sempre cumprir as ordens. Mas agora, uma linha invisível foi desenhada entre mim e aqueles dois alfas, e ela parece capaz de apagar tudo o que sempre acreditei ser verdade.
— Vou descobrir o que é esse Laço de Fogo e Ferro — prometo a mim mesma em voz baixa, com determinação. — Seja feitiço ou maldição antiga, não vou deixar que me domine nem que interfira no meu dever.
Mas no fundo, enquanto a lua continua a subir no céu entre as nuvens, e o puxão fica um pouco mais forte a cada instante, eu sei que nada será tão simples quanto antes e que minha vida mudou de uma forma que ainda não consigo compreender por completo.
Furo meu dedo com minha presa afiada e pingo algumas gotas do meu sangue sobre o mapa do nosso território que está estendido sobre a mesa, pronunciando as palavras necessárias para a invocação.
Chamo pela Miliane, a líder do coven de bruxas que servem ao reino. Em segundos, uma névoa fina se forma na poltrona oposta e ela aparece, pronta para ouvir o que eu preciso.
E após explicar o que quero que ela faça e assinar o contrato confirmando a ordem de pagamento no valor que ela pediu, sinto-me mais confiante de que logo teremos uma vantagem nessa batalha.