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Capítulo 5 A Mente Nublada Durante a Batalha

💙 Vergil:

O som da batalha ecoava ao meu redor como um trovão contínuo e ensurdecedor. O choque das espadas, os rosnados profundos dos lobos e os gritos…

Eu, que sempre fui o mais rápido, o mais agressivo, o que nunca deixava nada me distrair em combate, estava vacilando. Tudo por causa dela, por causa de uma sensação que eu não conseguia entender nem controlar.

— Estou concentrado — rosnei em pensamento, afastando a oponente com um empurrão bruto que a fez recuar alguns passos.

— Não fale como se soubesse exatamente o que estou sentindo, como se pudesse definir isso com tanta facilidade.

— Eu sinto o mesmo, irmão — respondeu ele, e sua voz estava mais grave, carregada da mesma confusão e incerteza que eu tentava esconder com raiva. — O laço também está em mim, não só em você. Mas não podemos nos deixar dominar por ele no meio da batalha, onde um erro pode ser fatal.

Eu sabia que ele tinha razão, que a lógica e a razão estavam do lado dele. Minha mente racional gritava que eu deveria ignorar aquilo completamente, que era um erro, uma maldição daquelas que aparecem de vez em quando no Universo do Caos para testar a força e a lealdade dos mais fortes. Mas como ignorar algo que parecia estar gravado na minha própria alma, algo que parecia fazer parte de quem eu era?

Continuei lutando, movendo-me por instinto e treinamento, pois meus pensamentos estavam a quilômetros de distância daquele campo de guerra. Eu me perguntava onde ela estaria agora, se também sentia aquele puxão constante e estranho, se também estava tão confusa e irritada quanto eu.

A ideia de que ela pudesse estar pensando em nós, mesmo que com raiva ou desconfiança, me causava uma mistura estranha de raiva e satisfação, algo que eu não sabia explicar nem aceitar.

— É ridículo — murmurei para mim mesmo, desviando de uma garra afiada que passou a poucos centímetros do meu rosto.

— Uma vampira. Como podemos ter uma companheira que é uma criatura da noite, inimiga declarada do nosso povo e de tudo o que defendemos?

— O Laço de Fogo e Ferro não escolhe por raça ou lealdade — disse Dante, como se lesse meus pensamentos mais profundos, pois nossa ligação não permitia esconder nada. — É o que dizem os antigos registros e as lendas. É uma ligação que transcende tudo isso: guerras, reinos, ódios antigos. Na verdade ele nasce e se alimenta disso.

Dei um soco forte no peito de um inimigo que se aproximava sem cuidado, e me surpreendi com minha própria força, a intensidade do meu soco era para ter apenas derrubado ele, fazendo-o recuar e cair de costas no chão para que eu pudesse decapitá-lo, mas meu braço atravessou o peito dele. Finalizei o inimigo e continuei a discussão com meu irmão.

Meu humor azedo e teimoso falou mais alto do que a razão, que tentava encontrar uma explicação.

— Então é uma maldição, não uma benção — retruquei, finalizando mais um guerreiro.

— Transcender as regras significa trair tudo o que somos. Tudo o que juramos proteger com a nossa própria vida. Eu não pedi por isso, não quero esse maldito laço, me forçando a desejar uma vampira.

Dante ficou em silêncio por um momento, mas eu senti a sua concordância silenciosa e a sua própria luta interna. Ele também não entendia completamente, talvez até aceitasse melhor a ideia do que eu, de nós dois ele sempre esteve mais ansioso para ter uma companheira, mas também não sabia como lidar com algo tão inesperado e contrário a tudo o que conhecíamos.

Nós sempre compartilhamos tudo ao longo da vida. Sempre foi nós dois contra o mundo, enfrentando tudo lado a lado. Eu nunca me importei em dividir o poder, a liderança, o respeito e até os perigos que corríamos. Mas uma companheira? Dividir esse vínculo, essa parte tão íntima e antiga da natureza dos lobos… parecia errado.

Parecia contra a natureza. E ainda assim, ela era a escória, alguém que pertencia a uma linhagem que eu odiava, mas quando pensava nela, a ideia de vê-la apenas ao lado de Dante me causava uma pontada de possessividade que eu não conseguia controlar nem explicar.

— Você também pensa nisso, não é? — perguntei a ele, sem olhar diretamente, mantendo os olhos atentos aos inimigos restantes.

— Em não quere dividir algo que deveria ser único.

Ele hesitou por um instante, como se também lutasse com esses mesmos pensamentos antes de responder com sinceridade.

— Sim. É algo que não esperávamos encontrar em nenhuma lenda. Mas o laço não perguntou a nossa vontade, Vergil. Ele apenas se formou, independente do que desejamos ou achamos certo. Talvez por nossas bestas serem gêmeas algo deu errado.

Balancei a cabeça, afastando esses pensamentos para o fundo da mente, tentando criar uma barreira mental para não ser dominado por eles. Precisava me concentrar no que estava acontecendo ao meu redor. Se continuasse assim, acabaria ferido ou pior, e isso seria uma vergonha ainda maior do que sentir atração por uma inimiga.

Mas a tarefa era mais difícil do que parecia ser. A cada golpe, a cada movimento rápido, o aroma dela ainda parecia pairar no ar, fraco e distante, mas perceptível para os meus sentidos aguçados. Eu me pegava procurando por entre a multidão de guerreiros, esperando vê-la reaparecer, mesmo sabendo racionalmente que ela havia partido e não voltaria tão cedo.

Minhas presas latejavam, e a vontade de ir atrás dela, de seguir aquele fio invisível que puxava meu peito para o sul, era quase mais forte do que o dever e a disciplina.

— Nós vamos resolver isso. Ele disse.

— E o que exatamente isso significa? — perguntei, com sarcasmo e impaciência na voz.

— Que vamos cruzar territórios inimigos, enfrentar o exército do rei do fogo e pedir educadamente para que ela nos aceite? Que tipo de relação seria essa entre seres que querem matar um ao outro?

— Não sabemos o que ela realmente sente — respondeu ele com calma, mantendo a compostura mesmo diante da minha revolta. — Mas sentimos o laço. E ele é forte. Mais forte do que qualquer guerra, qualquer ordem ou qualquer ódio que exista entre os nossos povos, ainda assim eu também pretendo evitá-la, talvez a gente consiga alguma contra maldita, quando essa batalha chegar ao fim, vamos visitar às feiticeiras.

— Veremos — resmunguei, sem querer admitir que ele poderia ter alguma razão.

A batalha começou a diminuir de intensidade aos poucos, com os dois lados cansados e com muitas baixas. Mandamos nosso exército começarar a recuar lentamente, mantendo suas posições defensivas, e os nossos guerreiros pararam de avançar, obedecendo aos comandos dos oficiais. O campo ficou mais silencioso, restando apenas os gemidos dos feridos e o som do vento frio entre as pedras e o sangue seco.

Limpei o sangue da minha espada com um pano grosso e resistente, sentindo um cansaço que não era apenas físico. Era o cansaço de lutar contra mim mesmo, contra os próprios instintos e contra algo que parecia estar além do meu controle.

Dante se aproximou devagar, e pela primeira vez desde o início do conflito, nos olhamos nos olhos com atenção. Seus verdes e os meus azuis, diferentes como sempre, mas carregados da mesma confusão e da mesma determinação silenciosa.

— Precisamos descobrir tudo sobre esse laço, às o que dizem as histórias e principalmente precisamos saber se temos como escapar disso.

Ele disse sério.

— E ela é uma inimiga — completei, endurecendo o maxilar e tentando me agarrar ao que sempre foi certo.

— Não importa o que o laço diga. Nós servimos à Rainha. Temos um clã para proteger. Uma guerra para vencer e terras para defender.

Mas mesmo enquanto eu dizia aquelas palavras com firmeza, sentia o puxão novamente, suave, mas insistente, como se estivesse me lembrando da sua presença.

A lua começava a aparecer no céu, grande e brilhante, lançando uma luz prateada sobre o campo, e uma preocupação a mais surgiu na minha mente: a compulsão, que, sob a lua cheia, se tornava mais forte, mais difícil de controlar, aumentando a necessidade de estar perto da companheira, mas será que seria o mesmo com uma vampira? Ou isso iria contra a natureza da besta dentro de nós.

Eu ri com desdém, balançando a cabeça para afastar esse pensamento.

— Compulsão — murmurei, com desconfiança. — Que tolice. Como se um feitiço qualquer pudesse fazer nossa besta agir contra a nossa vontade e contra tudo o que acreditamos.

— Não é um feitiço, Vergil — corrigiu Dante com seriedade. — É algo mais antigo, mais profundo, que vem da própria essência do nosso mundo. Não pode ser quebrado com força ou vontade.

— Veremos — repeti, guardando a espada na bainha com um movimento firme. Mas também não vamos nos comportar como filhotes desesperados correndo atrás de uma vampira, esquecendo o nosso lugar.

Dante apenas assentiu, mas eu sabia que, por trás da calma dele, havia a mesma certeza que eu sentia, por mais que tentasse negar. O laço existia e era real. E, cedo ou tarde, ele nos levaria até ela, querendo nós ou não.

Caminhamos juntos de volta para o acampamento, cercados pelos nossos guerreiros, que nos cumprimentavam com respeito e admiração. Mas por dentro, minha mente estava longe, percorrendo o caminho até as terras do fogo, procurando por um cabelo vermelho e olhos da cor do sangue.

Eu era Vergil, alfa do Clã MacLaren. Forte, agressivo, inabalável. Nada me dominava. Nada me controlava.

Mas enquanto a lua subia cada vez mais alto e o puxão no peito ficava um pouco mais forte a cada minuto, eu sabia que, pela primeira vez na minha vida, eu estava prestes a descobrir que havia coisas muito maiores do que a minha vontade.

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