Capítulo 3
Na manhã seguinte, Henrique mandou entregar um relógio de bolso antigo.

Mesma marca.

Mesmo ano de fabricação.

No leilão, o preço tinha passado da casa do milhão.

O assistente colocou a caixa de veludo diante de mim.

— O senhor Henrique cancelou duas reuniões hoje de manhã para conseguir esse relógio.

Fez uma pausa antes de acrescentar:

— Também pediu para dizer que a senhorita Marina já entendeu que errou e espera que você não fique mais chateada com ela.

Não abri a caixa.

Henrique nunca economizava quando queria compensar alguma coisa.

Dinheiro, presentes, soluções.

Ele sempre encontrava um jeito de reparar o prejuízo.

Só nunca se dispunha a encarar o que, de fato, tinha me machucado.

À tarde, peguei o projeto que precisava apresentar para a avaliação da faculdade e segui para o centro de exposições.

Aquele trabalho seria decisivo para a bolsa e era uma das últimas pendências que eu precisava resolver antes de ir embora.

Mal tínhamos saído da cidade quando Henrique ligou.

— Já saiu?

— Sim. Estou levando meu projeto para a avaliação.

Do outro lado da linha, ele ficou em silêncio por dois segundos.

— Que horas termina? Eu vou te buscar.

Segurei o celular junto ao ouvido sem responder de imediato.

Na noite anterior, ele tinha saído carregando Marina nos braços sem nem olhar para trás.

E, ainda assim, se lembrava da minha avaliação.

— Quatro da tarde.

— Tá bom.

A voz dele ficou mais suave.

— Quando terminar, não vai embora. Encomendei aquele bolo que você gosta. A Mari também quer te pedir desculpas pessoalmente.

Ele sabia que o relógio do meu pai nunca poderia ser consertado.

Mesmo assim, continuava tentando me consolar como se bastasse oferecer outra coisa no lugar.

Antes, qualquer gesto de Henrique era suficiente para me fazer ceder.

Dessa vez, não.

— Tenho uma avaliação muito importante hoje. A gente conversa depois.

— Eu sei. — A resposta veio baixa. — É por isso que eu vou te buscar.

Foi só uma frase.

Mesmo assim, quase bastou para derrubar todas as barreiras que eu tinha passado a noite inteira tentando erguer.

Meu coração, que eu jurava já ter endurecido, cedeu outra vez por causa de um gesto tão pequeno.

Eu estava prestes a responder quando o carro foi lançado para a frente por um impacto violento.

Um estrondo explodiu atrás de nós.

O motorista pisou no freio, e a caixa de vidro que protegia meu projeto se soltou do suporte e despencou.

Minha testa bateu em alguma coisa, mas quase não senti a dor.

Abri a porta e corri para o porta-malas.

A estrutura principal estava partida em três.

Parei diante dela sem conseguir me mexer.

Por alguns segundos, até respirar pareceu difícil.

Dois anos de trabalho.

Mais de mil esboços.

Tudo destruído diante de mim.

A porta do carro branco que tinha batido na nossa traseira se abriu.

Marina saiu correndo e veio na minha direção, branca feito papel.

— Lau, me desculpa.

Ela mal conseguia recuperar o fôlego.

— O Rique disse que você não queria me ver. Eu fiquei com medo de você não querer mais falar comigo, então resolvi seguir o carro de vocês.

Agarrou minha mão, chorando tanto que o corpo inteiro tremia.

— Meu celular caiu. Eu me abaixei pra pegar e não vi vocês reduzindo...

Soltei minha mão da dela e peguei o telefone para chamar a polícia.

Marina entrou em pânico.

— Não chama a polícia!

A voz saiu quase num grito.

— Eu vou perder minha carteira!

Quando viu que eu não pretendia parar, se virou e tentou pegar a caixa de vidro danificada.

— Eu pago tudo! Levo pra consertar agora mesmo!

— Não toca nisso!

Tarde demais.

A borda quebrada do vidro abriu um corte no pulso dela.

O sangue começou a escorrer imediatamente.

Quando Henrique chegou, a primeira coisa que viu foi o sangue na minha testa.

Veio direto até mim e segurou meu rosto com uma das mãos.

— Onde você bateu? Está tonta?

Olhei para ele, e meus olhos arderam.

Por um instante, quase desmoronei.

Mas, antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, Marina chamou atrás de nós:

— Rique...

Henrique se virou.

Ao ver o pulso dela coberto de sangue, tirou o casaco e pressionou o tecido contra o ferimento.

— Quem mandou você mexer no vidro quebrado?

— Eu só queria consertar o trabalho da Lau.

Marina chorava enquanto me olhava.

— A culpa foi minha. Mas eu juro que não bati no carro dela de propósito.

O policial de trânsito se aproximou e perguntou se eu queria registrar formalmente a responsabilidade dela pelo acidente.

Henrique continuava segurando o casaco contra o pulso de Marina.

Quando respondeu, não hesitou nem por um segundo.

— Foi só uma colisão traseira. A gente resolve isso entre nós.

Levantei a cabeça na mesma hora.

— Eu não concordo.

— A Mari está machucada.

— Meu projeto foi destruído.

— Eu contrato o melhor restaurador que tiver.

— Minha avaliação começa em quarenta minutos. Não existe restaurador no mundo que consiga consertar isso a tempo.

Henrique ficou em silêncio.

Juntei os pedaços do projeto nos braços e fiz sinal para um táxi.

Mesmo sabendo que minhas chances praticamente tinham acabado, eu não queria desistir sem tentar.

Mas Henrique segurou a porta antes que eu conseguisse entrar.

— Mesmo que você chegue lá, não vai conseguir entregar uma coisa destruída desse jeito.

Uma coisa destruída.

Era sempre assim.

Tudo o que eu tentava proteger com tanto cuidado virava, para ele, alguma coisa que podia ser substituída, consertada ou paga.

Olhei direto para Henrique.

— Isso é problema meu.

Marina levou a mão ao peito de repente, curvou o corpo e começou a ter ânsia.

Depois de ouvir os sintomas por telefone, o médico levantou a possibilidade de uma concussão causada pelo impacto e orientou que ela fosse levada ao hospital imediatamente.

Henrique a pegou no colo e a colocou dentro do carro.

Antes de entrar, olhou para mim.

— Fica aqui e resolve a ocorrência.

Abriu a porta do motorista.

— Assim que eu souber que a Mari está bem, vou com você até a faculdade e explico o que aconteceu.

Apertei os pedaços do meu projeto contra o peito.

Cacos de vidro brilhavam espalhados pelo asfalto ao meu redor.

— Henrique, a faculdade não vai esperar por mim.

Ele me encarou por alguns segundos, com a mandíbula travada.

Então Marina gemeu dentro do carro.

Henrique desviou o olhar.

E, no fim, entrou.

A porta se fechou diante de mim.

Quarenta minutos depois, meu celular vibrou.

Era uma notificação da faculdade.

[Projeto não entregue dentro do prazo. Candidatura à bolsa de estudos cancelada.]

Uma única linha.

Fiquei olhando para aquelas palavras por muito tempo.

Achei que fosse chorar.

Mas nenhuma lágrima veio.

Só permaneci ali, em silêncio.

Era como se alguma coisa dentro do meu peito estivesse sendo esmagada aos poucos.

Doeu até não doer mais.

No fim, só restou um vazio entorpecido.

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