Às duas da manhã, acordei com o estrondo de alguma coisa de vidro se quebrando.
Saí da cama e corri até o quarto de hóspedes.
Marina estava descalça no meio dos cacos espalhados pelo chão.
Nas mãos, segurava o relógio de bolso mecânico que meu pai tinha deixado para mim.
A tampa havia se aberto com a queda.
O ponteiro dos segundos estava parado.
— Lau, me desculpa.
Marina empalideceu e estendeu a mão na minha direção.
— Eu só estava procurando um cobertor. Não fazia ideia de que o relógio ia cair quando eu abrisse o armário.
Tirei o relógio das mãos dela num puxão.
Antes de morrer, meu pai tinha passado uma noite inteira me esperando com aquele relógio nas mãos.
Naquele mesmo dia, Henrique teve uma febre alta de repente.
Eu fiquei para cuidar dele.
E, por isso, não cheguei a tempo de ver meu pai uma última vez.
Desde então, aquele relógio era a única coisa que eu nunca permitia que ninguém tocasse.
— Eu falei que ninguém podia entrar aqui!
Só depois de gritar percebi que minhas mãos tremiam.
Os olhos de Marina se encheram de lágrimas na mesma hora.
— Eu não fiz de propósito.
— Sai.
— Lau...
— Eu mandei você sair!
Apontei para a porta.
Marina deu um passo para trás.
O pé descalço caiu bem em cima de um dos cacos.
Ela gemeu de dor e desabou sentada no chão.
Henrique apareceu correndo ao ouvir o barulho.
Assim que viu o sangue, passou por mim sem nem parar e pegou Marina no colo.
— Onde você se cortou?
Ela se agarrou ao pescoço dele e balançou a cabeça entre soluços.
— Foi culpa minha. A Lau não fez nada.
Henrique abaixou o olhar para examinar o pé dela, tenso.
Anos antes, quando cortei a mão enquanto cozinhava, ele tinha ficado exatamente daquele jeito.
Na época, me levou ao hospital no colo.
Eu chorava de dor, e ele enxugava minhas lágrimas enquanto tentava me tranquilizar.
— Calma. Eu tô aqui. Ninguém vai deixar você sofrer.
Agora, ele usava praticamente o mesmo tom.
Só que com outra mulher.
— Não olha pro corte. Eu vou te levar pro hospital.
Ao passar por mim, Henrique finalmente notou o sangue na palma da minha mão.
A borda quebrada do relógio tinha rasgado minha pele.
Ele parou por um segundo.
— O kit de primeiros socorros está no criado-mudo. Faz um curativo antes.
Olhei para Marina, ainda acomodada nos braços dele.
— O relógio do meu pai quebrou. Não tem conserto.
Henrique ficou imóvel por um instante.
Os braços ao redor de Marina se contraíram.
Mas ela soltou outro gemido, e qualquer hesitação que ele pudesse ter sentido desapareceu.
— É só um relógio. Eu mando procurar outro exatamente igual para você.
— Não existe outro exatamente igual.
— Então o que você quer que eu faça?
A irritação entrou de vez na voz dele.
— A Mari ainda está sangrando. Você quer mesmo que eu largue ela aqui e fique chorando com você por causa de um relógio quebrado?
Um relógio quebrado.
Era só isso para ele.
Baixei os olhos.
O sangue escorria pelo centro da minha palma e pingava sobre o mostrador imóvel.
Ainda nos braços de Henrique, Marina falou baixinho:
— Rique, fica com a Lau. Eu consigo ir sozinha pro hospital.
Henrique nem diminuiu o passo.
— Ela não é tão frágil assim.
A porta bateu atrás dos dois.
Fiquei sozinha no quarto, cercada pelos cacos espalhados no chão.
Peguei o celular e liguei para o relojoeiro que, anos atrás, já tinha consertado aquele relógio para o meu pai.
Enviei algumas fotos.
Do outro lado da linha, o senhor ficou em silêncio por um bom tempo.
— O eixo principal quebrou. Essas peças originais deixaram de ser fabricadas há muitos anos. Não tem mais como restaurar.
Ele fez uma pequena pausa.
— Laura... Sinto muito.
Me abaixei devagar e comecei a recolher os pedaços.
Um por um.
Guardei tudo dentro de uma caixa.
Foi então que a tela do meu celular se acendeu.
O Instituto de Design de Londres acabava de enviar minha carta definitiva de admissão.
A luz fria da tela se espalhou pelos cacos de vidro e pela bagunça aos meus pés.
Desta vez, não pensei duas vezes.
Toquei em "Confirmar".