Às sete da noite, Henrique voltou para o apartamento com Marina.
Eu acabava de guardar a última peça de roupa na mala quando ouvi a voz dele vindo da sala.
— Vem aqui. Assina o acordo.
Sobre a mesa de centro estavam o termo referente ao acidente e uma declaração sobre o que tinha acontecido.
O documento dizia que o motorista havia mudado de faixa de repente porque eu o pressionara a acelerar, sem dar tempo para o carro de trás frear.
Só faltava a minha assinatura.
Com aquilo, Marina não apenas ficaria isenta de qualquer responsabilidade pelo acidente, como também evitaria a suspensão da carteira.
— Ela bateu no nosso carro porque se abaixou para pegar o celular.
Empurrei os papéis de volta.
— As câmeras da via e a câmera do carro provam isso.
Os olhos de Marina se encheram de lágrimas.
— Lau, eu sei que a culpa foi minha.
Ela mordeu o lábio, hesitou e continuou:
— Mas mês que vem eu vou participar da seleção para uma equipe beneficente de automobilismo. Se isso for registrado como direção perigosa, eu nunca mais vou poder competir.
Marina amava automobilismo desde a faculdade.
Fui eu quem pagou sua primeira inscrição.
Também fui eu quem lhe deu o primeiro macacão de corrida.
Quando venceu sua primeira competição, ela me abraçou e chorou a noite inteira.
Disse que, no dia em que chegasse ao lugar mais alto do pódio, aquele troféu seria meu.
Agora, porém, estava disposta a pisar no meu futuro para chegar até lá.
Henrique colocou uma caneta ao lado da minha mão.
— Você já perdeu a avaliação. Responsabilizar a Mari agora não vai mudar o que aconteceu.
Empurrou o documento um pouco mais na minha direção.
— Assina. Eu construo um estúdio novo para você.
De novo.
Era sempre assim.
As lembranças do meu pai, anos de trabalho, meus sonhos...
Para Henrique, tudo podia ser precificado.
Bastava oferecer dinheiro suficiente, encontrar uma solução cara o bastante, e eu deveria engolir a mágoa, ficar quieta e seguir em frente.
— Eu não vou assinar.
Henrique me encarou por alguns segundos.
Depois pegou o celular e fez uma ligação.
— Cancelem a renovação do aluguel do estúdio do pai da Laura.
Ergui a cabeça num impulso.
Depois que meu pai morreu, a família de Henrique passou a cuidar daquele imóvel.
Era lá que estavam guardados todos os desenhos e projetos que ele tinha deixado.
E tinham sido justamente aqueles trabalhos que inspiraram o projeto que eu acabara de perder.
— Aquele estúdio foi deixado pelo meu pai!
— Então depende de você.
Henrique colocou o celular sobre a mesa.
— Lau, é só assinar. Ninguém vai tocar no estúdio.
Fez uma pausa.
— E o nosso casamento continua como planejado.
Marina segurou o braço dele às pressas.
— Rique, não pressiona a Lau assim.
Então se virou para mim e se ajoelhou diante dos meus pés.
Com lágrimas nos olhos, segurou minhas mãos.
— Fui eu que destruí seu projeto. Eu pago o prejuízo. Faço o que você quiser.
A voz falhou.
— Mas essa seleção é a minha última chance.
Ela apertou meus dedos.
— Lau, você sempre foi a pessoa que mais me apoiou.
Ergueu os olhos para mim.
— Me ajuda só mais essa vez. Por favor.
Dez anos de amizade.
Quatro anos de amor.
Um estava sentado diante de mim, me coagindo.
A outra, ajoelhada aos meus pés, implorando.
Mas nenhum dos dois perguntou se aquilo que eu tinha perdido também não era uma oportunidade única.
Henrique consultou o relógio.
— Você tem um minuto.
Meu celular tocou naquele instante.
Do outro lado da linha, o senhor que cuidava do antigo estúdio do meu pai falava num tom aflito.
— Srta. Laura, o pessoal da empresa do Henrique chegou aqui. Disseram que vão retirar tudo ainda hoje.
Ele respirou fundo.
— Seu pai deixou muitos desenhos. Eles já estão levando as caixas para fora e começou a chover. O que eu faço?
Apertei o celular e corri para a porta.
Henrique estendeu o braço, bloqueando minha passagem.
Ficou parado diante de mim, alto, firme, os ombros retos como sempre.
Durante anos, aquela presença tinha sido o lugar onde eu buscava proteção quando tudo desabava.
Agora era justamente ele quem me encurralava.
— Assina.
— Você prometeu que ia cuidar daquele lugar para mim!
— E eu também prometi à Mari que ela participaria da seleção.
Henrique não cedeu um centímetro.
— Laura, não torna isso mais difícil para mim.
Não torna isso mais difícil para mim.
Então era isso.
Para que ele não precisasse escolher, eu é que tinha que perder.
Um trovão ribombou do lado de fora.
Pouco depois, um vídeo chegou ao meu celular.
A porta do antigo estúdio tinha sido arrombada.
Os desenhos deixados pelo meu pai estavam amontoados em caixas de papelão, sem nenhuma proteção, ao lado de um caminhão debaixo da chuva.
Algumas folhas já começavam a escapar com o vento.
A água corria sobre o papel, dissolvendo a tinta, deformando linhas que nunca poderiam ser refeitas.
— Manda eles pararem.
Henrique empurrou a caneta na minha direção.
— Assina.
Fiquei olhando para a tela.
Para os desenhos do meu pai se desfazendo diante dos meus olhos.
As lágrimas começaram a cair sobre o documento.
Minha mão tremia tanto que tentei várias vezes encostar a ponta da caneta no papel e não consegui.
Até que, no vídeo, outra folha foi arrancada pelo vento e sumiu no meio da chuva.
Então assinei.
Traço por traço.
Como se cada letra arrancasse de mim alguma coisa que não voltaria mais.
Assim que terminei, Henrique puxou o documento e mandou interromper a retirada imediatamente.
— Se tivesse assinado desde o começo, nada disso teria acontecido.
Ele levantou a mão para enxugar minhas lágrimas.
Virei o rosto antes que me tocasse.
Marina ainda estava ajoelhada no chão, chorando baixinho.
— Lau, me desculpa.
Tirei o anel de noivado do dedo.
Segurei a mão dela e coloquei o anel em sua palma.
A essa altura, eu já quase não sentia nada.
— Não precisa pedir desculpas.
Olhei para ela por alguns segundos.
— Tudo o que você queria, eu estou deixando para você.
Minha melhor amiga.
O homem que amei por quatro anos.
Até a família que um dia imaginei que teria.
Henrique endureceu na hora.
— Laura, o que você está fazendo? Pega esse anel de volta.
Peguei a mala que estava ao lado da porta e puxei o cabo.
Só então ele reparou nela.
— Por que você arrumou suas coisas?
— Vou ver o que sobrou dos desenhos do meu pai.
— Você não volta hoje?
Não respondi.
Henrique interpretou meu silêncio como mais uma demonstração de raiva.
Ajudou Marina a se levantar e falou:
— O estúdio já está seguro. Para de complicar as coisas.
Guardou o anel de noivado no bolso e acrescentou, num tom definitivo:
— Amanhã de manhã eu vou te buscar.
Apertei a alça da mala e olhei para ele pela última vez.
— Não precisa.
Henrique franziu a testa.
Mas, atrás dele, Marina se queixou de dor.
E, como sempre, ele se virou para ela.
Tinha sido assim tantas vezes.
Bastava Marina chamar.
E eu era sempre quem ficava para trás.
Antes que a porta se fechasse, ouvi a voz fria de Henrique:
— Como quiser. Quando essa raiva passar, volta sozinha.
Não respondi.
Também não olhei para trás.
Doze horas depois, embarquei para Londres.
Desta vez, eu não voltaria.