— Claro que vai continuar. A Lau não é de fazer drama por causa de uma coisa dessas.
Henrique fez uma pausa e acrescentou:
— A gente se conhece há dez anos. Se a Lau se incomoda com isso, vai ter que aprender a lidar com a nossa amizade.
Na volta, fui no banco de trás.
Marina se acomodou no banco do passageiro e reclinou o encosto até a posição que parecia conhecer de cor.
Assim que Henrique ligou o carro, a voz do GPS preencheu o silêncio:
— Iniciando rota para Casa da Mari.
Virei o rosto para a janela e fiquei encarando meu reflexo no vidro.
Não senti raiva.
Nem ciúme.
Só um cansaço imenso.
Peguei o celular, abaixei a cabeça e comprei uma passagem só de ida para Londres.
O voo partiria dali a sete dias.
Os dez anos deles ainda teriam muitos amanhãs.
Os nossos quatro terminavam ali.
...
O condomínio de Marina não permitia que carros de visitantes passassem a noite no estacionamento.
Henrique, porém, nem precisou conferir os dados dela na portaria.
Digitou de memória o bloco e o número do apartamento.
— Rique, acho que a luz da minha sala queimou.
Marina continuou sentada, abraçada à grelha personalizada, sem a menor pressa de sair.
— A manutenção disse que só consegue vir amanhã. Você sabe que eu fico meio assustada sozinha no escuro...
Henrique já soltava o cinto.
— Eu subo com você e dou uma olhada.
Só quando colocou a mão na maçaneta pareceu se lembrar de que eu também estava ali.
Nossos olhares se encontraram pelo retrovisor.
— Me espera aqui. Dez minutos, no máximo.
O aquecedor estava ligado tão forte que o carro começava a ficar abafado.
Mesmo assim, antes de sair, Henrique tirou o próprio cachecol e o colocou sobre o meu colo.
— Não abre a janela. Você sabe que vento frio te dá dor de cabeça.
Henrique sempre tinha sido assim.
Sabia de cor meus hábitos, minhas manias, tudo de que eu gostava ou não gostava.
E ainda assim conseguia me deixar sozinha dentro de um carro para subir correndo e cuidar de outra mulher.
Sempre que eu começava a acreditar que aqueles cuidados significavam que eu ocupava um lugar especial na vida dele, Marina aparecia para me lembrar do contrário.
Ele sabia cuidar muito bem de mim.
O problema era que nunca tinha cuidado só de mim.
Dez minutos se passaram.
A luz do apartamento continuava apagada, e Henrique não desceu.
Eu estava conferindo pela terceira vez os dados da passagem para Londres quando a porta do motorista finalmente se abriu.
Henrique entrou sem dizer uma palavra sobre a demora.
Em vez disso, virou-se e estendeu para mim um copo de leite de soja quente.
— Comprei ali embaixo. Sem açúcar.
O canudo já estava colocado.
A bebida também estava na temperatura exata de que eu gostava: quente, mas sem chegar a queimar.
Continuei olhando para a tela do celular.
Não peguei o copo.
Por alguns segundos, a mão dele ficou parada no ar entre nós.
Henrique esperou.
Então virou um pouco mais o corpo na minha direção.
— O que você está vendo aí com tanta atenção?
Foi quando percebi que tinha me distraído.
Bloqueei a tela depressa e peguei a bebida.
— Nada. Era um e-mail do trabalho.
Henrique não respondeu de imediato.
Os olhos dele baixaram para minha mão direita, ainda agarrada ao celular.
— Mentira.
A palavra saiu baixa, mas bastou para deixar o carro inteiro em silêncio.
Ele estendeu a mão para trás, palma para cima.
— Me dá o celular.
Henrique me conhecia bem demais.
Sabia que, quando eu ficava nervosa, meu polegar começava a roçar a lateral do aparelho sem que eu percebesse.
Como não entreguei o celular, ele se inclinou para trás, pronto para pegá-lo sozinho.
Nesse exato momento, a porta do passageiro se abriu.
Marina entrou depressa, com a ponta do nariz avermelhada de frio.
— Rique, caiu a energia lá em casa. Tenho uns remédios na geladeira que precisam ficar refrigerados.
Só depois de se acomodar ela olhou para mim.
— Lau, posso dormir na casa de vocês hoje?
Marina estendeu a mão e enganchou o mindinho no meu.
Na época da faculdade, fazia aquilo sempre que queria passar a noite na minha casa.
Prendia o dedo no meu, balançava minha mão de leve e insistia daquele jeito até eu acabar cedendo.
Só que, dessa vez, eu nem tive tempo de responder.
Henrique já tinha ligado o aquecimento do banco dela.
— É só um quarto. Não precisa pedir permissão pra Lau.
Meus dedos apertaram o copo com tanta força que o plástico afundou.
Então era assim.
Na nossa própria casa, a única pessoa que não tinha voz era eu.
Henrique tornou a olhar para mim.
— A Mari pode ficar no quarto de hóspedes ao lado da nossa suíte. Como ela tem sono leve, não usa o secador hoje à noite.
— Naquele quarto, não.
Minha resposta saiu sem hesitação.
Quando nos mudamos para o apartamento que seria nossa casa depois do casamento, Henrique tinha mandado trocar pessoalmente a fechadura daquele quarto.
Era ali que eu guardava tudo o que meu pai tinha deixado.
Na época, ele colocou a única chave na palma da minha mão e prometeu que ninguém pisaria naquele cômodo sem a minha autorização.
Dessa vez, porém, bastou ouvir meu não para a paciência dele desaparecer.
Marina percebeu na hora.
Baixou os olhos e, quando falou, a voz já vinha abafada, como se estivesse tentando conter o choro.
— Tudo bem. Eu vou para um hotel. A Lau não gosta que mexam nas coisas que o pai dela deixou. Eu entendo.
Quanto mais compreensiva parecia, mais eu acabava parecendo egoísta.
Henrique ligou o carro sem dizer nada.
A mandíbula estava tensa.
— A Mari não é qualquer pessoa.
Depois de alguns segundos, nossos olhares se encontraram de novo pelo retrovisor.
— Laura, não me faz brigar com você justo no nosso aniversário de namoro.