Mundo ficciónIniciar sesiónAdrian dizia que a família dele era complicada, mas sempre desviava quando eu perguntava o que isso queria dizer.
Foi num domingo qualquer que ela apareceu. A mãe de Adrian. Victoria Sterling. Um furacão em salto agulha e perfume francês. Me assustei ao voltar da padaria vê-la sentada na sala, como se fosse dona de tudo, até do ar que eu respirava. — Você deve ser a Hannah. — disse ela, olhando em volta do nosso apartamento como quem avalia um imóvel antigo antes da reforma. — Havia imaginado... algo diferente. Ela sequer me deu oportunidade de responder e logo começou a falar sobre o “futuro promissor” de Adrian, o “casamento adequado” com a filha de um parceiro de negócios, e como a fase “universitária rebelde” dele estava se estendendo por tempo demais. Sinceramente ela disse coisas demais, coisas que não vale a pena considerar. Afinal, o que ela pensa que eu sou? Um tipo de lixo que ela bota pra fora e larga na calçada? Não sei, mas é bem assim mesmo que ela me fez sentir. — Você é encantadora, de verdade. Mas não se engane... Adrian sempre cumpre o que é esperado dele. — disse ela, com um sorriso cortês. — Essas distrações não duram. Nunca duram. Adrian ficou calado o tempo todo e depois que ela foi embora, o silêncio dele gritou ainda mais do que qualquer argumento. — Você não vai dizer nada? — perguntei, a voz trêmula. — Minha família é complicada. — Foi tudo que ele disse. Complicada uma ova!! Não precisou nada além disso pra eu perceber que ele poderia dizer que me amava o quanto quisesse. Mas nunca me escolheria se isso custasse o legado dele. O PREÇO DO SILÊNCIO Dois dias depois, Victoria me procurou sozinha. Me levou até uma cafeteria perto da universidade. — Sou uma mulher prática, Hannah. E gostaria de evitar um escândalo. Estou disposta a pagar o suficiente para que você desapareça da vida do meu filho. Me diz quanto você quer que eu providencio. Todos saem ganhando! — Eu não estou à venda, Victoria. — Respondi, firme. — E o que eu tenho com seu filho não é uma fase, tão pouco descartável. Ela me olhou por alguns segundos, e então sorriu. — Eu admito. Gosto de mulheres como você. Mas espero que saiba o que sua decisão pode causar. — Já que o suborno não funcionou, você decidiu partir para ameaça? — respondi num tom irônico, tentando afastar o desespero que tentava tomar conta. A verdade é que não sei nada sobre a família de Adrian, mas sei, pelo pouco que ele disse, que eles têm muito influencia. E não qualquer tipo de influência! Do tipo que tem muita gente grande escondida no bolso do casaco. O tipo de gente que poderia simplesmente me fazer nunca ter existido na face da Terra. Gente que faria coisas que talvez eu nem sou capaz de imaginar. Dois dias depois do nosso café extremamente agradável, eu estava voltando pra casa, pronta para fazer Adrian tomar uma decisão. Mas algo não estava certo. Uma sensação estranha pairava no ar e atravessei a rua em frente ao campus, distraída com a ideia de confrontá-lo. Foi quando ouvi o som — os pneus cantando no asfalto molhado, o motor urrando. Tudo desacelerou. Tentei correr. Não consegui. A luz refletida no capô preto veio direto na minha direção. O impacto me arrancou do chão. O mundo girou de lado. Depois, nada. Só o silêncio. Não me lembro de muita coisa além disso. Mal lembro do impacto. Só da sensação de ser arrancada do chão. Três dias depois acordei no hospital, com o corpo dolorido, costelas fraturadas, sem muita mobilidade e um mundo em silêncio ao meu redor. Adrian estava lá. Mas havia algo estranho em seu rosto. Ele parecia... aliviado. Ele não disse nada, mas a forma com que me olhou antes de se virar e sair do quarto sem olhar pra trás. Pela maneira em que apoiou uma mochila na poltrona perto da porta, a mesma maldita mochila que Victoria tinha em seu lado na cafeteria da semana passada. Aquilo ali me disse tudo. Foi ela. Victoria Sterling! Foi ela me mostrando na prática o que poderia fazer caso eu não recuasse. E ali estava Adrian, me pagando para desaparecer. Passei alguns dias no hospital até minha alta. Claire e Scarlet foram meu suporte durante esse período. Colin apareceu alguns dias, arrasado e completamente desconcertado com a atitude do “amigo”. Amigo esse que desapareceu como fumaça. Nem os amigos próximos, como Colin, sabia por onde andava. Não pelo vazio que ele deixou, mas porque — como se não fosse o bastante sua mãe tentar me apagar da vida dele e ele me abandonar no hospital — Adrian conseguiu destruir ainda mais. Quando tentei voltar à minha rotina, descobri que ele havia simplesmente desaparecido… levando junto todos os arquivos do meu projeto final. O projeto ao qual dediquei os últimos três anos da minha vida. Uma plataforma de segurança digital com estrutura modular e autoadaptativa, capaz de identificar brechas em tempo real em grandes redes corporativas e reprogramar seus próprios firewalls sem necessidade de reinicialização. Algo que poderia mudar o jogo no mercado de proteção de dados. Durante todo o desenvolvimento, Adrian oscilava entre elogios vagos e críticas ácidas. Dizia que era "bom... para uma aluna". Que talvez fosse "sofisticado demais para alguém como eu manter sozinha". Tentava me convencer, com aquela voz sempre doce e tom paternalista, que eu devia focar em algo “mais realista” ou “menos ambicioso”. Mas não era sobre o projeto. Era sobre mim. Ele nunca suportou que eu estivesse construindo algo maior do que o que ele próprio já tinha feito. Nunca aceitou que, mesmo sem nome de família, contatos ou sobrenome de peso, eu tivesse criado algo revolucionário — e sozinha. Seu orgulho não permitia que alguém ao lado dele brilhasse mais. Então, ele me elogiava só o suficiente para eu não desistir, e me diminuía só o bastante para que eu nunca acreditasse totalmente em mim. Agora, não só havia me abandonado no hospital… ele havia roubado minha ideia. Minha criação. Minha confiança. Ele não queria apenas se livrar de mim. Queria apagar qualquer prova de que, um dia, eu fui melhor do que ele. Demorei semanas até conseguir reunir forças para tocar em qualquer coisa relacionada àquele projeto. Mas quando finalmente consegui abrir o computador para vasculhar backups antigos que ele ignorou ou simplesmente esqueceu, já era tarde demais. Adrian não só tinha sumido com todos os principais arquivos com os códigos originais, como já havia reaparecido em todas as revistas da área de tecnologia como o "herói revolucionário" da empresa falida do pai. O mesmo projeto que ele passou anos dizendo ser “grande demais” para mim, agora era vendido como a virada de jogo do grupo Sterling Corp. No começo eu achei que era paranoia, que ele não seria capaz. Mas conforme fui lendo os relatórios da imprensa especializada, reconheci cada linha de lógica, cada algoritmo de defesa, cada conceito estruturado em cima das longas noites em que ele dormia e eu ainda estava lá... de pé... duvidando se seria capaz. Mas óbvio que ele não usou o projeto na íntegra, até porque estava inacabado. Ele mexeu no código. Modificou algumas funções, até para parecer que eram dele. E nessa pressa de reescrever o que não era dele, criar em cima de algo que ele não entendia qual era o objetivo - porque nada disso foi concebido na mente dele - Adrian deixou várias brechas — falhas de segurança absurdas que comprometiam a integridade do sistema em grandes escalas. Claro, que pra maioria das pessoas, essas brechas passariam despercebidas. Mas pra mim, que idealizei cada passo desse projeto, essas brechas chegam a ser ofensivas. Mas se ele achava que tinha vencido, ele estava enganado. Só tinha criado o caminho perfeito pra eu entrar. Foi ali, naquele exato momento, que eu decidi. Que eu iria recomeçar, mas faria tudo diferente. Eles tiraram tudo de mim, mas esqueceram de apagar o que eu era capaz de fazer sozinha. Eu não ia mais esperar que as pessoas me atropelassem. Eu mudaria tudo na minha vida. Seria mais fria, mais lógica, mais inacessível. E não permitiria que ninguém mais me tirasse o controle das minhas ações, dos meus sonhos e da minha vida. E se ele usou o meu projeto pra se reerguer... eu usaria o mesmo projeto pra destruí-lo por completo. OS DIAS ANTES DO ENCONTRO ÀS CEGAS Um ano se passou e eu concluí a faculdade com louros e não demorou até que a oportunidade perfeita pra executar meu plano aparecer. Assim que me formei, recebi a proposta da Onyx Digital Security, uma das principais concorrentes da Sterling Corp. Uma empresa discreta, mas altamente influente no setor corporativo europeu, com sedes espalhadas por vários países — incluindo uma filial estratégica em Londres. Era a chance perfeita. Eu teria os contatos, um laboratório de primeiro mudo e recursos pra destruir Adrian e fazer dele uma grande piada. Claro que não seria rápido, afinal eu teria que começar do zero um novo projeto com o único objetivo de derrubar o código dele. Mas eu não tinha pressa. Quanto mais ele achasse que venceu, mais fácil seria derrubá-lo. Minha aposta? Criar uma AI de rastreamento e autodiagnóstico de falhas em sistemas híbridos de proteção, capaz de expor exatamente onde e como a versão alterada por Adrian era um risco real. E, principalmente, de provar que aquilo jamais deveria ter sido implementado em nenhuma rede.






