Capítulo 6 - John

— Acordando você, já que não parava de roncar e não me escutava — menti, já abrindo a porta do carro. — Já chegamos.

Soltei o ar quando me vi do lado de fora e esperei um segundo, olhando em volta e analisando tudo antes de virar para abrir a porta para ela.

— Eu não ronco, seu idiota! — ela afirmou ao passar por mim, e um sorriso involuntário se formou em meus lábios.

Não entendia o porquê, mas estava começando a gostar de provocá-la apenas para ver aquele olhar raivoso sobre mim.

— Que bom que vocês chegaram, filhos — Dona Rosa foi logo nos cumprimentando com sua alegria contagiante. — Venham, o almoço está pronto, e vocês vão me ajudar a tomar conta dessa linda menininha, não é, Dana?

A pequena princesinha de cabelos e olhos castanhos brilhantes — que parecia ser uma marca registrada da família — pulou no colo da avó, parecendo empolgada.

— Oi, princesa. Eu sou John. Pode falar John?

— Tio Don — foi o que ela respondeu, já batendo palminhas.

— Não sorria para ele, Dana. Ele é um grande chato.

— Titia Ca tá dodói — a pequena garotinha fez um biquinho, olhando o rosto da tia. Carla se encolheu no mesmo instante, parecendo desconfortável ao ver a tristeza no olhar da sobrinha.

— A sua tia Ca vai ficar bem. Ela só precisa comer e dormir um pouco. Vamos ajudá-la com isso? — tomei a frente, fazendo a menina voltar a sorrir e esticar os braços em minha direção, me surpreendendo.

Enquanto almoçávamos, podia sentir o olhar de Carla e Rosa queimarem sobre mim enquanto eu brincava com Dana. A menininha era bem mais agitada do que os gêmeos de Patrick, que só tinham meses, mas não era a primeira criança que eu precisava entreter enquanto trabalhava.

— Leva jeito com crianças — Carla murmurou atrás de mim, me fazendo tirar os olhos da pequena, que começava a adormecer em meus braços.

— Ficaria surpresa com a frequência com que os pais deixam os filhos com babás e seguranças.

— Vai se sair bem quando tiver os seus — ela se aproximou, dando a volta em mim, observando a sobrinha antes de deslizar os dedos sobre a bochecha rechonchuda.

Aquele era um assunto do qual não falava com ninguém, mesmo que todos insistissem que eu seria um bom pai. Mas meu irmão e eu jamais teríamos filhos. Foi um pacto que fizemos muitos anos atrás. A linhagem nojenta da qual saímos morreria conosco.

— Agora é a sua vez de dormir. Quer que eu te pegue no colo e te embale também? — provoquei, precisando urgentemente mudar de assunto.

— Não estou com sono, babaca.

A mentira dela foi o que atraiu meu olhar. Estava explícito em seu rosto o cansaço, e eu podia imaginar que os analgésicos que deram a ela no hospital estavam a deixando sonolenta.

— Por que está resistindo? Dormiu muito bem no carro. O que aconteceu agora?

— Não reparei quando peguei no sono no carro. Deitar em uma cama, no quarto escuro, é… diferente — ela deu de ombros, começando a acariciar as costas da bebê em meus braços, evitando meu olhar.

— Do que está com medo, Carla? — sussurrei, curvando o pescoço para observar melhor as mudanças em seu rosto.

Não havia mais resquício do sorriso, ou da irritação. As feições dela estavam duras, e o olhar parecia perdido, de uma forma que eu já tinha visto muitas vezes no meu próprio reflexo no espelho.

— Tenho medo de dormir e sonhar com ele… medo de sonhar com… — as palavras dela morreram com um sussurro.

Mas não precisava terminar. Entendi que ela tinha medo de sonhar com o que havia acontecido, medo de voltar ao momento da agressão.

Meu coração doía por vê-la daquele jeito, pois eu sabia exatamente como era se sentir assim: medo de tudo, até mesmo de dormir. Mas não ia deixar que ela fosse aterrorizada pelas lembranças daquela forma, roubando sua liberdade de viver.

— Eu estou aqui. Vou ficar do lado de fora da porta do seu quarto e, se ouvir um único barulho, eu te acordo. Mesmo que isso vá te fazer me odiar — ela ergueu o olhar, forçando um pequeno sorriso nos lábios. — Ele não vai te alcançar nem mesmo em sonho. Eu prometo!

Carla soltou um suspiro, com os olhos presos aos meus, e então beijou a cabeça da sobrinha antes de sair em direção ao quarto de hóspedes.

Aquele sentimento de querer protegê-la de tudo e todos gritou mais forte dentro de mim, ganhando proporções que eu nunca havia sentido antes. Era como se meu coração desse a ordem e cada fibra em meu corpo concordasse com ele, dizendo: Vamos protegê-la!

Quando a noite caiu, eu ainda estava lá, do lado de fora do quarto, observando as câmeras da casa e atento a cada som que viesse do quarto onde Carla estava dormindo.

— Você precisa dormir também.

— Estou bem, senhora…

— Não está. Se não dormir, não vai poder cuidar dela direito amanhã. Vou pegar um colchonete e alguns cobertores. Você pode dormir no chão do quarto de hóspedes com a Carla — Dona Rosa falou como se o problema estivesse resolvido e nem ao menos me deu tempo de retrucar.

Dormir no mesmo quarto que Carla? Isso era mais do que inapropriado. Ia contra todas as regras. Mas por que eu me peguei ansioso por isso?

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