Capitulo 4

Quatro anos depois, Anita Fontes retornou à casa da família Fontes mais uma vez.

O portão da residência isolada estava aberto, então ela entrou direto.

Letícia Fontes estava sentada no sofá pintando as unhas dos pés. Ao ouvir o barulho dos passos, ergueu os olhos de relance, voltou a se concentrar nos pés e passou o pincel mais algumas vezes. Então, como se só ali tivesse processado o que estava acontecendo, sobressaltou-se e olhou para cima novamente.

Em seguida, gritou a plenos pulmões: "Mãe! Tem alguém aqui!"

Célia Fontes estava limpando a cozinha quando ouviu o chamado e saiu. "Quem está aí a uma hora dessas da noite?"

Antes mesmo de terminar a frase, ela avistou Anita. Ficou estática por um instante, e sua expressão mudou imediatamente. Sacudindo o pano de prato que tinha em mãos, ironizou: "Ora, vejam só quem resolveu aparecer! Não é a nossa grande patroa?"

Ela deu as costas e retornou para a cozinha, elevando a voz para que fosse ouvida lá fora: "Se veio ver o seu pai, ele tem um jantar de negócios hoje e não sabemos que horas volta. Se tiver pressa, ligue para ele. Se não, conversamos amanhã durante o dia."

E resmungou, audivelmente: "Que azar! Eu bem que estava me perguntando por que a minha pálpebra direita não parava de tremer hoje."

Anita olhou para Letícia, que continuava pintando as unhas, parecendo inexplicavelmente radiante, chegando a cantarolar uma melodia baixa.

Ela foi direto ao ponto: "Quatro anos atrás, quando você entregou o meu filho para a família Mashini, você recebeu dinheiro por ele?"

Os movimentos de Letícia congelaram na mesma hora, e o barulho vindo da cozinha cessou abruptamente.

Anita prosseguiu, a voz firme: "No começo, você me convenceu a levar a gravidez até o fim, mas depois veio com a conversa de que o bebê ficaria melhor com eles. Do início ao fim, toda aquela preocupação com o futuro da criança era mentira, não era? Vocês só queriam vendê-lo por um bom preço."

Assim que ela terminou de falar, um estrondo ecoou da cozinha. Célia havia arremessado a bacia de alumínio contra o fogão.

Sua voz veio ainda mais estridente do que antes: "Quem te disse que nós pegamos dinheiro, sua ingrata?! Você nem queria abortar aquela criança! Nós só te apoiamos porque vimos o quanto você sofreria se se livrasse do bebê. Nós te alimentamos e te demos do bom e do melhor durante os dez meses da gestação, e agora você vem apontar o dedo para a sua própria família?"

Enquanto gritava, ela marchou para fora da cozinha, ainda segurando o pano úmido, os olhos faiscando de raiva. "Você, uma garota solteira, grávida fora do casamento... Como pretendia criar um filho? Não se importava com a sua reputação? Nós só estávamos pensando no seu bem quando devolvemos a criança ao pai. E agora você vem com essa calúnia, fazendo parecer que nós somos os monstros da história?"

Num estalo de fúria, ela arremessou o pano úmido na direção de Anita.

Anita não se esquivou; o tecido encharcado a atingiu em cheio, colando na sua roupa com um baque frio.

Célia Fontes continuou a berrar: "E mesmo que a gente tivesse aceitado algum dinheiro, qual seria o problema? Nós não teríamos esse direito? Fora o fato de termos cuidado de você a gravidez inteira, você deveria no mínimo ser recompensada pelo seu sofrimento! E aquele sujeito com sobrenome Mashini... ele dormiu com a filha dos outros, conseguiu um herdeiro de graça e achou que não ia pagar um centavo? Não existe almoço grátis no mundo!"

Anita puxou o pano molhado que estava grudado em seu corpo e fixou os olhos em Célia.

Os lábios da mulher continuavam a se mover freneticamente, mas Anita já não conseguia ouvir uma única palavra do que saía dali. O som parecia abafado pelo zumbido em seus próprios ouvidos.

Ela começou a caminhar na direção de Célia, passo a passo.

Ao ver Anita se aproximar, Célia ergueu a mão para cutucar a testa da enteada com o indicador — um gesto autoritário que ela sempre adorou fazer. Ela praguejava enquanto cravava a unha contra a testa de Anita, deixando marcas profundas na pele da jovem.

Desta vez, porém, Anita não engoliu a agressão. Num reflexo rápido, ela ergueu a mão, agarrou o dedo que a cutucava e o torceu para trás com força bruta.

Os gritos de Célia transformaram-se instantaneamente em um uivo de dor.

Letícia, que assistia a tudo do sofá, largou o vidro de esmalte e correu desesperada, descalça pelo piso, berrando: "Anita, você enlouqueceu?! Solta a minha mãe!"

Anita pegou o pano de prato úmido, enfiou-o com força diretamente na boca de Célia para calá-la e a empurrou para longe.

Sem hesitar por um único segundo, ela girou o corpo e desferiu um tapa violento no rosto de Letícia, que vinha correndo em sua direção.

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