O mentor da sedução
O mentor da sedução
Por: Damon Cross
O Mosaico de Cristal

O Mosaico de Cristal

O sol de outono filtrava-se pelas imensas vidraças da mansão nos Jardins, banhando o quarto com uma luz dourada de cinema. Camila acordou antes do despertador, apenas para apreciar o silêncio da perfeição que havia construído. Ao seu lado, Ricardo dormia com a serenidade de quem não conhece a dúvida.

Ela permaneceu imóvel, apoiada sobre um cotovelo, deixando os olhos percorrerem o perfil do marido como se fizesse a curadoria de uma escultura clássica. Ricardo era o CEO esbelto, impecável até no sono. A mandíbula era bem marcada, a pele bronzeada contrastava com a brancura do linho egípcio, e os cílios longos descansavam sobre as maçãs do rosto com uma suavidade quase infantil. Ele exalava um perfume sutil, uma mistura de sândalo e o frescor do sucesso que parecia emanar de seus poros. Camila sentia um orgulho silencioso ao observar os músculos dos ombros e braços, esculpidos por braçadas diárias na piscina aquecida da mansão. Ele era, em todos os sentidos, o ápice do que um homem deveria ser.

Camila tocou a colcha de seda, sentindo a textura impecável sob as pontas dos dedos. Aos 32 anos, sua vida era um mosaico onde cada peça fora colocada com precisão absoluta. O segredo daquela harmonia residia na pureza da história que compartilhavam. Eles não eram apenas um casal de sucesso; eram o triunfo de um destino traçado ainda na adolescência, nos corredores de carvalho e mármore de um colégio de elite.

Ela era a filha discreta de um diplomata, acostumada a observar o mundo através das molduras de museus europeus. Ele, o herdeiro de um império logístico e capitão da equipe de esgrima, um rapaz cujo nome ecoava pelos pátios como uma promessa de glória. Camila lembrava-se com nitidez do dia na biblioteca em que ele se aproximou, desarmado de qualquer arrogância, para se declarar. Ela simplesmente não acreditou que o sol do colégio quisesse brilhar justamente sobre ela.

— Você está brincando, Ricardo — ela dissera na época, as mãos tremendo sobre um volume de arte renascentista. — Por que eu? Há tantas outras que orbitam você.

— Elas orbitam o que eu tenho, Camila — ele respondeu, fixando nela seus olhos escuros e profundos. — Você é a única que me olha como se eu fosse apenas um homem. E é só com você que eu quero ser eu mesmo.

Aquele foi o início de uma jornada sem desvios. Ricardo foi o seu primeiro namorado, o seu primeiro beijo e o único homem a conhecer seu corpo. Para ela, o amor nunca fora um campo de batalha, mas uma estrada reta, segura e bem pavimentada. A lembrança mais viva, contudo, era a do pedido de casamento na propriedade da família em Petrópolis. Sob o luar que prateava as hortênsias, no centro de um labirinto de cercas vivas, o homem que em breve comandaria bilhões ajoelhou-se diante dela.

— Camila, você é o meu norte. Sem você, tudo o que eu construir será apenas cimento e vidro. Quer ser a dona do meu mundo?

Ela dissera sim com a certeza de um pacto eterno. E, desde então, ele nunca falhara em ser o marido perfeito. Camila levantou-se silenciosamente, evitando despertar a beleza adormecida ao seu lado, e caminhou até o closet que mais parecia uma boutique da Avenue Montaigne. Selecionou um conjunto de alfaiataria em tons de pérola, joias discretas e um perfume que comunicava autoridade e sofisticação. Ela amava seu trabalho como curadora; a fundação era o seu reflexo: organizada, elegante e respeitada por toda a alta sociedade paulistana.

O café da manhã foi servido no terraço, sob o som discreto da água da fonte. Ricardo apareceu pouco depois, já impecável em seu terno sob medida que ressaltava a silhueta esguia e atlética.

— Bom dia, minha curadora favorita — disse ele, com um beijo casto na testa dela antes de se sentar à mesa posta com frutas tropicais e pães artesanais. — Dormiu bem?

— Como sempre, Ricardo. O dia será produtivo, temos a vernissage hoje. Estou ansiosa para que você veja a disposição final das obras.

— Estarei lá sem falta. Você sabe que sou seu maior admirador. Nada me dá mais prazer do que ver você no seu elemento.

À noite, a fundação fervilhava. O espaço, um antigo galpão industrial convertido em galeria de luxo com tetos altíssimos e vigas de aço aparentes, estava inundado por uma iluminação dramática que destacava as telas monumentais de arte abstrata. O ar estava saturado com o aroma de lírios brancos e o perfume caro dos convidados. O tilintar incessante das taças de cristal e o murmúrio poliglota dos colecionadores criavam a trilha sonora perfeita para o sucesso de Camila.

Ela circulava entre os convidados com a segurança de uma mestre de cerimônias. Cada quadro, cada escultura, parecia estar sob sua proteção. Ela falava sobre texturas, sobre o uso da luz e sobre a angústia dos artistas com uma fluidez que encantava a todos.

— A curadoria está impecável, Camila — comentou um crítico renomado de Nova York, segurando uma taça de champanhe vintage. — Você conseguiu criar uma narrativa de ordem em meio ao caos dessas pinceladas abstratas. É um triunfo.

— A arte só respira quando encontra o seu lugar exato no mundo — ela respondeu, com um sorriso treinado, enquanto observava a entrada principal.

Ricardo chegou exatamente no momento em que a festa atingia seu ápice, atraindo todos os olhares como se possuísse um campo magnético próprio. O terno italiano, de um cinza profundo e corte irrepreensível, realçava sua postura atlética e o brilho de poder que ele carregava naturalmente. Ele não se misturou imediatamente aos grandes empresários ou aos políticos presentes; foi direto ao encontro da esposa, ignorando as tentativas de intersecção de outros convidados.

— Você conseguiu de novo — sussurrou ele no ouvido dela, a mão pousando de forma possessiva e suave na curva de suas costas. — É a exposição mais imponente que já vi nesta casa. Você é brilhante, Camila.

Ela sentiu o calor do elogio percorrer sua espinha. Durante toda a noite, eles funcionaram como o casal de ouro de São Paulo. Moviam-se pelo salão em perfeita sincronia, interrompendo conversas estratégicas para cumprimentar embaixadores e colecionadores com a mesma elegância. Ricardo mantinha-se sempre a um passo de distância, agindo como o suporte silencioso, mas imponente, da mulher que amava. Para o mundo exterior, eles eram a definição de estabilidade e graça.

Ao final do evento, quando os últimos convidados saíam para seus carros blindados, o salão ficou mergulhado no silêncio luxuoso das obras de arte iluminadas. Camila olhou em volta, sentindo o orgulho inflar o peito. Ela tinha a carreira, o reconhecimento da elite intelectual e o homem perfeito ao seu lado. Nada, absolutamente nada, parecia fora do lugar.

Ao voltarem para a mansão, a casa estava em penumbra, pontuada por velas aromáticas que exalavam notas de figo e cedro. Ricardo a esperava no living com duas taças de um Chardonnay raríssimo, gelado na medida exata. Jantaram tardiamente à luz de velas, harmonizando vozes baixas com um jazz suave que flutuava pelo pé-direito duplo da sala.

— Senti sua falta hoje, mesmo sabendo que você estava ali, brilhando para todos — murmurou ele, aproximando-se e envolvendo-a em um abraço que prometia proteção eterna.

Camila sentia-se afortunada, a guardiã de um castelo inexpugnável. A vida era bela, o amor era seguro e o seu mundo estava exatamente onde deveria estar: sob o seu controle e o cuidado de Ricardo. Ela adormeceu no calor do único homem que conhecera, sorrindo para a escuridão, sem saber que aquela era a sua última noite de paz antes do mosaico de cristal ser pulverizado.

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