O Aroma do Engano

O dia na fundação terminou mais cedo do que o previsto. Uma das palestras sobre arte contemporânea fora cancelada devido a um imprevisto do palestrante, e Camila, sentindo uma leve dor de cabeça causada pelo excesso de burocracia, decidiu que merecia um descanso. Ela queria fazer uma surpresa a Ricardo. Imaginou-os abrindo uma garrafa de vinho no jardim, celebrando o simples fato de estarem juntos, sem a pressão das agendas corporativas.

Ao estacionar o carro na garagem da mansão, estranhou o silêncio. A governanta estava de folga e a casa parecia mergulhada num torpor incomum para aquele horário. Assim que atravessou a porta de entrada, o primeiro sinal de alerta disparou em sua mente, não por um som, mas pelo olfato. O ar da casa, que geralmente cheirava a flores frescas e às velas de figo que ela escolhia a dedo, estava impregnado por um perfume diferente. Era uma fragrância doce demais, quase pegajosa, com notas de jasmim e algo sintético que não pertencia ao seu toucador.

Camila franziu a testa. Talvez uma visita de última hora? Ela caminhou pelo hall de mármore com passos de veludo. Sabia que Ricardo frequentemente realizava reuniões remotas e importantes com investidores asiáticos e europeus naquele horário, no escritório acoplado ao quarto. Por respeito ao silêncio que o trabalho dele exigia, ela resolveu ser o mais discreta possível. Retirou os sapatos de salto, segurando-os na mão, e subiu as escadas de madeira nobre sentindo o coração bater com uma ansiedade inexplicável.

À medida que se aproximava da suíte master, o silêncio foi substituído por sons que sua mente se recusava a processar. Não era o tom monocórdico de uma reunião de negócios. Eram ruídos rítmicos, respirações curtas e um som que parecia um eco obsceno naquele santuário de ordem.

Camila parou diante da porta entreaberta. A mão que segurava os sapatos tremeu violentamente. Com um empurrão lento, a porta cedeu.

O impacto visual foi como uma bofetada física. O quarto, o seu refúgio sagrado, estava profanado. Sobre o lençol de fios egípcios que ela tanto admirava pela manhã, Ricardo, o seu Ricardo, o homem que a tocava como se ela fosse de cristal, estava com outra na cama. 

O sapato de Camila caiu no chão com um baque seco.

Ricardo congelou. Ele virou o rosto, e a expressão de prazer foi substituída por um terror pálido, quase patético. Ele desceu da mulher rapidamente, tentando cobrir-se com o lençol, enquanto a jovem sentou-se na cama, cobrindo os seios com as mãos.

— Camila! — a voz dele saiu num guincho estrangulado. — Não... não é o que você está pensando. Eu posso explicar.

— Não é o que eu estou pensando? — a voz de Camila era um sussurro rouco, antes de explodir num grito que pareceu rasgar as paredes da mansão. — Eu acabei de ver você dentro de outra mulher na nossa cama, Ricardo! No nosso quarto! Que tipo de explicação você vai usar para isso?

A amante olhava de um para o outro, os olhos arregalados. Ela começou a falar algo em uma língua que Camila. Ela parecia perdida, mas ao ver as lágrimas de ódio no rosto de Camila e o desespero de Ricardo, a ficha caiu. Sem dizer uma palavra em português, ela recolheu as roupas espalhadas pelo tapete persa com uma agilidade silenciosa. Vestiu-se num frenesi, ignorando os apelos de Ricardo para que esperasse, e saiu do quarto quase correndo, deixando para trás o rastro daquele perfume doce e enjoativo que agora Camila identificava como o aroma do desastre.

Quando a porta da frente bateu, indicando que a terceira pessoa havia saído, o silêncio que restou no quarto era carregado de veneno.

— Camila, por favor, me ouça — começou Ricardo, tentando se aproximar, já vestindo um roupão. — Foi um erro, uma fraqueza momentânea. Eu estou sob muita pressão na empresa...

— Fraqueza? Você a trouxe para cá! — ela gritava, as mãos puxando os próprios cabelos. — Você foi o único homem da minha vida, Ricardo. Eu me guardei para você, eu construí cada centímetro dessa vida baseada na nossa união. Como você pôde ser tão baixo?

Ricardo, vendo que a tática da negação não funcionaria, mudou o tom. A postura acuada deu lugar a uma defesa agressiva, algo que ele usava em salas de reuniões quando se sentia encurralado.

— Eu te amo, Camila. Isso nunca mudou — ele disse, a voz agora firme, mas cruel em sua honestidade. — Mas você precisa entender... a nossa vida sexual é um deserto. É tudo tão... coreografado. Tão limpo. Você é linda, mas na cama, você não tem sal. Não tem tempero. É como fazer amor com uma estátua de porcelana. Eu precisava de algo vivo, algo que não tivesse medo de suar ou de se sujar!

As palavras atingiram Camila com mais força do que a visão da traição. O "sal" que faltava, a "estátua" que ele descrevia... era a própria essência da delicadeza que ela achava que ele valorizava. Ela sentiu-se humilhada em um nível celular. Toda a sua dedicação, sua classe e sua pureza foram transformadas em defeitos por aquele homem que ela idolatrava.

— Então a culpa é minha? — ela perguntou, rindo de forma histérica entre as lágrimas. — A culpa de você ser um adúltero é o fato de eu ser a mulher que você mesmo moldou para ser "perfeita"? Pois fique com a sua "vida viva", Ricardo. Fique com essa cama suja.

Camila caminhou até o closet. Com movimentos erráticos, pegou uma mala de viagem de couro legítimo e começou a jogar roupas dentro, sem critério, sem dobrar, sem a ordem que regia sua vida até cinco minutos atrás. Joias, sapatos, vestidos de grife, tudo era amontoado num volume disforme de desespero.

— Para onde você vai? — ele perguntou, agora parecendo arrependido novamente. — Não seja dramática, vamos conversar como adultos.

— Eu vou para algum lugar onde o ar não esteja podre — ela cuspiu as palavras, fechando o zíper da mala com força.

Ela desceu as escadas ignorando os chamados dele. Entrou no carro e dirigiu sem ver o caminho, as lágrimas embaçando a visão. Só havia um lugar para onde poderia ir.

Vinte minutos depois, ela estava esmurrando a porta de um apartamento de alto padrão nos Jardins. Quando a porta se abriu, revelando Roberto, de pijama de seda, e Justino ao fundo, segurando uma taça de vinho, Camila desabou.

— Ele me traiu! — ela gritou, caindo nos braços de Roberto. — Na minha cama! Com uma... com uma menina que nem falava a minha língua! Ele disse que eu sou sem sal, Roberto! Que eu sou uma estátua!

Justino correu para ajudá-la, enquanto Roberto a conduzia para o sofá de veludo azul.

— Calma, meu amor! Respira! — dizia Roberto, enquanto Camila soluçava de forma descontrolada, fazendo um drama que ecoava por todo o apartamento. — Aquele desgraçado fez o quê?

— O mundo acabou! — Camila gesticulava, as mãos trêmulas. — Dez anos! Dez anos sendo a esposa perfeita para ser trocada por tempero! Eu quero morrer, eu quero que ele morra! O que eu vou fazer da minha vida? Eu não tenho nada além dele!

— Você tem a nós — disse Justino, sentando-se ao lado dela e oferecendo-lhe um lenço. — E você vai ter a volta por cima mais espetacular que São Paulo já viu. Mas primeiro, você vai chorar tudo o que tem para chorar.

Camila mergulhou no ombro de Roberto, sentindo que o seu "mosaico de cristal" não tinha apenas quebrado; ele havia sido pulverizado. E, no meio daquele caos emocional, ela não fazia ideia de que a solução para a sua "falta de sal" estava a milhares de quilômetros de distância, nas mãos de um guru que ensinaria a ela que o prazer não conhece a compostura.

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