Capitulo 4

Alexander

Eu não acredito em instinto.

Acredito em padrão.

Instinto é uma palavra confortável para explicar o que não se consegue provar. Padrões, não. Padrões deixam rastro. E eu sempre fui treinado para identificar rastros antes que se tornem prejuízo.

Eu não deveria estar pensando no menino.

Não é racional.

Não é estratégico.

Não é produtivo.

Mas estou.

Oliver.

O nome ecoa com uma familiaridade que não sei justificar.

Não é sobre semelhança física. Crianças se parecem com muitas pessoas. Não é sobre expressão. É sobre algo mais sutil. Um tipo específico de silêncio observador. Um modo de inclinar a cabeça antes de formular uma pergunta.

Ele perguntou por que eu o olhava como se o conhecesse.

A pergunta foi direta demais.

Crianças normalmente não confrontam adultos com esse tipo de percepção.

Ele confrontou.

Eu volto mentalmente à cena no lobby. Isabella ajoelhada diante dele. O toque protetor automático. O modo como ela o segura pelo rosto como se estivesse blindando o mundo.

Eu nunca a vi daquele jeito.

Cinco anos transformam pessoas.

Mas não apagam essência.

No dia seguinte ao evento, eu pergunto casualmente se o filho mora com ela.

Ela responde sem hesitar.

Mora.

Pai presente?

— Não.

Resposta curta.

Sem explicação.

Sem defesa.

Sem desconforto aparente.

Isso não significa nada.

E, ao mesmo tempo, significa algo.

Eu não faço perguntas adicionais porque perguntas demais denunciam interesse.

E eu não posso demonstrar interesse sem justificativa plausível.

Mas eu observo.

Sempre observo.

Isabella trabalha como se estivesse constantemente provando algo para si mesma. Não para mim. Não para o conselho. Para si.

Ela chega cinco minutos antes todos os dias.

Cinco.

Eu verifico no sistema de acesso.

07h55.

Exatamente.

Disciplina não é coincidência. É construção.

Ela fala com segurança excessiva para alguém que voltou à empresa depois de cinco anos.

Ela não evita meu olhar.

Mas também não sustenta além do necessário.

Há controle ali.

Controle treinado.

Durante uma reunião com investidores internacionais, eu a observo enquanto ela apresenta projeções futuras. A linguagem é técnica, precisa, objetiva. Nenhuma palavra fora do lugar.

Ela não gagueja.

Não improvisa.

Não pede validação.

Essa não é a mulher que saiu da minha vida em silêncio.

Essa é alguém que aprendeu a sobreviver.

Eu não sei por que isso me incomoda.

No fim da tarde, recebo uma ligação de Victoria.

Ela fala sobre o evento, sobre investidores, sobre posicionamento público. Victoria sempre fala como se cada interação fosse um tabuleiro.

— Você parecia distraído ontem... — ela comenta.

Eu não gosto quando alguém percebe algo que eu não anunciei.

— Eu estava analisando relatórios.

— Você olhou demais para aquela criança...

Silêncio.

Eu não respondo imediatamente.

— Que criança?

— A que estava com Isabella...

Eu mantenho o tom neutro.

— Ele fez uma pergunta incomum.

— Crianças fazem perguntas...

— Nem todas fazem daquele jeito.

Victoria ri baixo.

— Você está imaginando coisas.

Talvez.

Mas imaginação raramente me conduz.

Padrões, sim.

Depois que desligo, abro o relatório de desempenho de Isabella novamente. Não porque eu precise. Mas porque revisar dados organiza pensamentos.

Ela saiu da empresa cinco anos atrás sem justificativa formal.

Eu aceitei.

Na época, havia coisas mais urgentes do que insistir em explicações.

A fotografia.

A imagem.

Eu me lembro dela claramente.

Isabella entrando em um hotel com outro homem.

Ângulo preciso.

Horário sugestivo.

Eu não investiguei a origem.

Isso sempre me incomodou.

Não porque eu duvidei da foto.

Mas porque eu não investiguei o remetente.

Eu estava convencido demais.

Convicção excessiva é falha estratégica.

Eu fecho a tela.

Isso não tem relação com o menino.

Não deveria ter.

Às 18h, quando a maioria já foi embora, eu saio da sala para buscar um documento esquecido na área financeira.

Isabella está ali.

Sozinha.

Revisando contratos.

Ela não percebe minha presença imediata.

Há algo na forma como ela passa os dedos pelas páginas, concentrada, que me faz lembrar de outra época.

Eu limpo a garganta.

Ela levanta os olhos.

— Senhor Moretti.

Formal.

Sempre formal.

— Ainda trabalhando?

— Entrega amanhã cedo.

Eu observo o relógio na parede.

17h55.

Cinco minutos antes do horário oficial de saída.

— Você sempre sai cinco minutos antes?

Ela sustenta o olhar.

— Eu sempre termino cinco minutos antes.

Resposta calculada.

— Por quê?

Ela fecha a pasta devagar.

— Porque imprevistos existem...

A frase ecoa.

Imprevistos existem.

Eu penso no lobby do hotel.

No modo como o menino me observou.

No modo como Isabella reagiu.

Proteção automática.

Não é raro uma mãe proteger o filho.

Mas há algo mais ali.

— Ele é inteligente... — eu digo, como quem comenta clima.

Ela não reage imediatamente.

— Ele é observador.

— Ele parece… atento.

Ela levanta o queixo minimamente.

— Ele aprende rápido.

Eu caminho até a mesa.

— Ele tem cinco anos?

Um microsegundo.

Quase imperceptível.

Mas eu vejo.

— Tem.

Cinco.

Eu faço a conta automaticamente.

Cinco anos.

Eu não continuo.

Porque continuar exige atravessar uma linha que ainda não tenho motivo para cruzar.

— Boa noite, Isabella...

— Boa noite.

Eu saio.

Mas a matemática não sai comigo.

Cinco anos.

Eu entro no carro e permaneço alguns minutos sem ligar o motor.

Eu não acredito em coincidências.

Mas também não acredito em paranoia.

Eu não tenho evidência.

Não tenho lógica concreta.

Tenho apenas uma sequência de pequenas observações que, isoladas, não significam nada.

Mas juntas…

Eu balanço a cabeça.

Isso é absurdo.

Isabella nunca mencionou gravidez.

Nunca procurou contato.

Nunca pediu nada.

Se existisse algo a ser dito, teria sido dito.

Eu não sou homem que se ausenta de responsabilidades.

Mas eu também não sou homem que assume suposições.

No entanto, enquanto dirijo para casa, a pergunta do menino volta.

“O que foi?”

Eu não o conheço.

Mas algo naquela pergunta não foi inocente.

Foi intuitiva.

E intuição infantil costuma nascer de percepção real.

No dia seguinte, eu tomo uma decisão simples.

Nada oficial.

Nada invasivo.

Apenas observação.

Se houver padrão, ele se repetirá.

Se não houver, minha mente voltará ao lugar correto.

Mas uma coisa eu sei com absoluta certeza.

Se existir qualquer variável oculta nessa equação…

Eu vou encontrá-la.

Porque eu posso ignorar curiosidade.

Mas não ignoro dúvida.

E dúvida, quando plantada, cresce.

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