Mundo de ficçãoIniciar sessão
Capítulo 1 — Destinos
O despertador tocou às cinco horas da manhã. Maya estendeu a mão para desligá-lo antes que o som ecoasse pelo pequeno apartamento. Por alguns segundos, permaneceu deitada, observando o teto branco e as pequenas rachaduras que já conhecia de cor. Mais um dia. Ela respirou fundo e sorriu para si mesma. Reclamar não mudaria nada. Levantou-se devagar, calçou os chinelos e caminhou até a cozinha. Enquanto colocava a água para ferver, abriu a janela. O ar fresco da manhã invadiu o apartamento. A cidade ainda despertava. Era o único momento do dia em que tudo parecia calmo. Ela gostava daquele silêncio. Preparou uma caneca de café, comeu uma torrada rapidamente e conferiu as horas. Estava atrasada. Como quase sempre. Pegou a mochila, prendeu os longos cabelos castanhos em um coque simples e saiu de casa. … Às seis e quarenta da manhã, Maya empurrou a porta de vidro da cafeteria. O pequeno sino preso acima da entrada anunciou sua chegada. — Bom dia! — disse uma voz animada. — Bom dia, dona Célia. A proprietária da cafeteria sorriu. — Achei que hoje você fosse se atrasar. — O ônibus resolveu colaborar comigo. As duas riram. Maya amarrou o avental na cintura e começou sua rotina. Ligou a máquina de café. Organizou as mesas. Abasteceu a vitrine com pães, bolos e croissants ainda quentes. O cheiro de café recém-passado tomou conta do ambiente. Era impossível não gostar daquele aroma. Pouco a pouco, os clientes começaram a chegar. Alguns passavam ali todos os dias. Outros apareciam apenas uma vez. Maya conhecia quase todos pelo nome. Sabia quem preferia café sem açúcar. Quem gostava de cappuccino. Quem sempre pedia duas fatias de bolo. E quem apenas precisava de um sorriso antes de enfrentar mais um dia de trabalho. — Bom dia, seu Augusto. — O de sempre? O senhor sorriu. — Você já sabe. Ela serviu o café antes mesmo que ele terminasse de falar. — Obrigado, minha filha. — Eu que agradeço. Era assim todas as manhãs. Simples. Tranquilo. Previsível. … Do outro lado da cidade… No último andar de um edifício de vidro que dominava o centro financeiro, Nicolas Beaumont encerrava mais uma reunião. Os diretores deixavam a sala em silêncio. Ninguém ousava prolongar uma reunião além do necessário. Nicolas fechou a pasta à sua frente. — Quero os novos contratos revisados até o fim do dia. — Sim, senhor. Assim que a porta se fechou, ele afrouxou discretamente a gravata. Seu celular vibrou. Lorenzo Martinelli. Lorenzo: Estou passando aí. Nicolas respondeu apenas: Nicolas: Entre. Menos de cinco minutos depois, a porta da sala se abriu sem que ninguém anunciasse a chegada. — Trabalhando desde cedo? Lorenzo entrou sorrindo, como sempre. Alto, elegante e dono de uma confiança que poucas pessoas tinham. Ao contrário dos funcionários da empresa, ele nunca pedia permissão para entrar. Também nunca chamava Nicolas de “senhor”. Os dois haviam crescido juntos. Eram amigos desde a infância. Mais do que isso. Eram irmãos por escolha. — Você precisa aprender a bater na porta — comentou Nicolas, sem esconder um pequeno sorriso. — Nunca precisei. Lorenzo sentou-se na poltrona à frente da mesa. — E nunca vou precisar. Nicolas fechou o notebook. — O que faz aqui? — Vim te sequestrar. — Não tenho tempo. — Tem, sim. — Minha agenda diz o contrário. Lorenzo deu de ombros. — Sua agenda também dizia que você ia tirar férias no ano passado. Nicolas permaneceu em silêncio. — Você trabalha demais. — Alguém precisa fazer isso. — E alguém precisa lembrar você de viver. Os dois se encararam por alguns segundos. Lorenzo sorriu. — Vamos tomar um café. Nicolas arqueou uma sobrancelha. — Aqui na empresa tem café. — Horrível. — É o melhor café importado da Itália. — Continua horrível. Nicolas soltou uma breve risada pelo nariz. — Você é impossível. — E você está vindo comigo. — Não. Lorenzo levantou-se. — Então vou ficar aqui atrapalhando suas reuniões o dia inteiro. Nicolas já conhecia aquele jogo. Sabia que o amigo não desistiria. Fechou o notebook. Pegou o paletó. — Cinco minutos. O sorriso de Lorenzo aumentou. — É assim que se fala. Os dois deixaram o prédio sem imaginar que uma decisão tão simples mudaria completamente suas vidas. Naquele mesmo instante… A poucos quilômetros dali… Maya servia mais uma xícara de café. Sem saber que, em poucos minutos, um cliente que jamais pisaria em uma cafeteria como aquela atravessaria a porta. E nada voltaria a ser como antes. O trânsito daquela manhã estava mais intenso do que o normal. O motorista conduzia o carro preto em silêncio enquanto Nicolas respondia alguns e-mails no tablet. Lorenzo observava a cidade pela janela. — Você percebe que faz isso o tempo todo? Nicolas não levantou os olhos. — Isso o quê? — Trabalha. — Estamos indo para uma reunião. — Não. Estamos indo tomar café. — E eu continuo trabalhando. Lorenzo soltou uma risada. — Um dia você vai enlouquecer. — Improvável. — Você fala isso porque nunca relaxa. Nicolas fechou o tablet e o deixou ao lado. — Terminou? — Ainda não. Antes que Lorenzo pudesse continuar provocando o amigo, o carro reduziu drasticamente a velocidade. Alguns metros à frente, uma longa fila de veículos se formava. O motorista olhou pelo retrovisor. — Parece que houve um acidente, senhor. Nicolas desviou o olhar para o para-brisa. — Quanto tempo? — Difícil dizer. Lorenzo suspirou. — Pronto… agora sim vamos tomar café. — Podemos esperar. — Esperar uma hora dentro do carro? Nicolas não respondeu. Lorenzo voltou a olhar pela janela. Foi então que seus olhos encontraram uma pequena cafeteria na esquina. A fachada era simples. Mesas de madeira ocupavam parte da calçada. Um letreiro escrito Café Firenze balançava levemente com o vento. — Ali. Nicolas acompanhou a direção do olhar do amigo. — O quê? — Café. — Parece cheio. — Melhor ainda. — Vamos perder tempo. — Você já está perdendo tempo preso no trânsito. Nicolas permaneceu alguns segundos em silêncio. Lorenzo conhecia aquele olhar. Sabia que o amigo estava procurando qualquer desculpa para não descer. — Cinco minutos. Foi tudo o que disse. Nicolas respirou fundo. Abriu a porta do carro. — Cinco minutos. — Eu sabia que você acabaria cedendo. Os dois atravessaram a rua. Assim que empurraram a porta de vidro da cafeteria, um pequeno sino anunciou a chegada de novos clientes. O aroma de café recém-passado tomou conta do ambiente. Nicolas não costumava frequentar lugares assim. Tudo era simples. Aconchegante. Havia estudantes conversando perto da janela. Um casal dividia uma fatia de bolo. Um senhor lia o jornal enquanto tomava café lentamente. Era um lugar comum. Exatamente o tipo de lugar onde ninguém esperaria encontrar um dos homens mais ricos do país. Atrás do balcão, Maya terminava de servir um cappuccino. — Muito obrigada. — Eu que agradeço. Tenha um ótimo dia. Ela entregou o pedido à cliente com um sorriso gentil. Naquele instante, dona Célia aproximou-se. — Maya, pode atender a mesa da janela? — Claro. Ela pegou um cardápio e caminhou na direção dos dois homens. Nicolas ainda observava o ambiente quando ouviu uma voz suave. — Bom dia. Instintivamente, levantou os olhos. Foi a primeira vez que a viu de verdade. Os cabelos castanhos estavam presos em um coque simples. Algumas mechas haviam escapado e emolduravam seu rosto. Ela usava apenas um avental preto sobre a roupa. Nenhuma maquiagem chamativa. Nenhum acessório caro. Ainda assim… Havia alguma coisa nela que chamava atenção. Talvez a calma. Talvez a forma como sorria. Ou talvez o brilho tranquilo dos olhos cor de mel. Maya abriu um sorriso educado. O mesmo sorriso que oferecia a todos os clientes. — Sejam bem-vindos ao Café Firenze. Posso trazer o cardápio ou vocês já sabem o que vão pedir? Por um breve instante… Nicolas simplesmente a encarou. Não por achar que ela era a mulher mais bonita que já tinha visto. Ele conhecia mulheres de todos os lugares do mundo. Mas havia algo diferente. Algo que ele não soube explicar. Lorenzo percebeu o silêncio. Olhou discretamente para o amigo. Depois para Maya. E respondeu por ele. — Dois cafés expressos, por favor. Maya anotou o pedido. — Desejam acompanhar com alguma coisa? Lorenzo olhou para a vitrine. — Aqueles pães de queijo parecem ótimos. Ela sorriu. — Acabaram de sair do forno. — Então pode trazer uma porção. — Perfeito. Já volto. Ela se afastou. Nicolas acompanhou seus passos apenas até ela desaparecer atrás do balcão. Então desviou o olhar imediatamente. Como se tivesse feito algo errado. Lorenzo cruzou os braços. Esperou alguns segundos. E perguntou, com um sorriso discreto: — O que foi? Nicolas pegou o celular da mesa. — Nada. Lorenzo conhecia aquele homem havia quase trinta anos. E tinha absoluta certeza de uma coisa. Pela primeira vez… Nicolas Beaumont havia reparado em uma mulher. O silêncio que se instalou entre os dois durou apenas alguns segundos. Nicolas desbloqueou o celular e fingiu prestar atenção nos e-mails. Mas não leu uma única palavra. Sua atenção permaneceu, involuntariamente, voltada para o balcão. Maya conversava com uma senhora enquanto preparava outro café. Sorria. Gesticulava delicadamente. Parecia conhecer cada cliente que entrava pela porta. — Dona Marta, o de sempre? — Você sabe até demais, menina. — É o meu trabalho. As duas riram. Nicolas observava tudo sem perceber. Não era apenas o sorriso dela. Era a forma como tratava as pessoas. Natural. Sem esforço. Como se realmente gostasse de estar ali. Poucos minutos depois, Maya voltou com a bandeja. Colocou cuidadosamente duas xícaras sobre a mesa. Depois, uma cesta de pães de queijo ainda fumegantes. — Cuidado. Estão bem quentes. Lorenzo sorriu. — Pelo cheiro, já dá para perceber. Ela deu uma pequena risada. — Se precisarem de alguma coisa, é só me chamar. — Obrigado. Ela fez um leve aceno e voltou ao trabalho. Nicolas levou a xícara aos lábios. O café era excelente. Mas ele mal percebeu o sabor. Seus olhos voltaram, mais uma vez, para Maya. Ela ajudava um senhor a acomodar a bengala ao lado da cadeira. Depois levou um copo de água a uma criança antes mesmo que a mãe pedisse. Pequenos gestos. Quase imperceptíveis. Mas genuínos. — Nada mal, não é? — comentou Lorenzo, provando o café. — É bom. — Eu estava falando do lugar. Nicolas desviou os olhos. — Também. Lorenzo arqueou discretamente uma sobrancelha. Era raro Nicolas prestar atenção em qualquer coisa que não envolvesse negócios. Talvez aquele café realmente fosse melhor do que imaginava. Ou talvez… Não. Lorenzo afastou o pensamento. Seria impossível. … Quinze minutos depois, os dois deixaram a cafeteria. Assim que atravessaram a rua, o motorista abriu a porta do carro. Nicolas entrou primeiro. Sem olhar para trás. Ou pelo menos foi isso que tentou fazer. Antes que a porta se fechasse completamente, lançou um último olhar para a fachada do Café Firenze. Maya estava limpando uma das mesas próximas à janela. Ela nem percebeu. A porta se fechou. O carro voltou a seguir pela avenida. Durante todo o caminho até a empresa, Nicolas permaneceu em silêncio. Lorenzo respeitou. Conhecia bem aquele silêncio. Às vezes significava cansaço. Outras vezes, concentração. Naquele dia, não soube dizer o que era.






