Mundo de ficçãoIniciar sessãoBrett
O silêncio dentro do carro é mais alto do que deveria, pesado de um jeito que não vem da falta de som, mas do excesso de tudo que não foi dito, e eu mantenho os olhos na estrada porque sei que, se olhar para o lado, vou encontrar mais do que deveria.
Ela está ali, ao meu lado, próxima demais para ser ignorada, distante demais para ser tocada, o vestido azul ainda preso ao corpo como uma lembrança que se recusa a desaparecer, o perfume preenchendo o espaço fechado, misturado ao ar-condicionado e ao calor que insiste em existir entre nós mesmo sem motivo.
Minha mão ainda lembra.
Não o toque exato, mas o peso, a forma como encaixou na cintura dela durante o jantar, firme o suficiente para parecer natural, constante o suficiente para não ser questionado, e agora o corpo cobra a ausência, como se tivesse sido interrompido no meio de algo que não deveria nem ter começado.
Ela não fala, eu também não, mas o silêncio não é vazio, ele se move, cresce, ocupa cada centímetro do carro, se estica no espaço entre nós e parece menor do que deveria, como se bastasse um movimento errado para eliminar completamente a distância que ainda existe.
Ela cruza as pernas devagar, ajusta o vestido, o tecido roça no banco em um som quase inexistente, e ainda assim suficiente para puxar minha atenção para onde não deveria estar.
Eu desvio o olhar tarde demais, ela percebe mas não diz nada.
Quando o carro para, nenhum de nós se move de imediato, como se sair dali significasse quebrar algo que ainda não entendemos, mas é inevitável, sempre é.
E então o jantar começa.
Luzes demais, vozes controladas demais, sorrisos que nunca chegam aos olhos, e eu assumo o papel que esperam de mim, o homem estável, seguro, previsível, exatamente o tipo de figura que investidores confiam, exatamente o tipo de homem que eles querem ver ao lado de uma mulher adequada.
Zaya acompanha sem falhar, sem hesitar.
A mão na cintura dela volta a ser necessária, justificável, parte da encenação, e eu uso isso como desculpa, mantendo o contato por mais tempo do que deveria, guiando, aproximando, sentindo o corpo dela responder sem recuar completamente, mas também sem ceder.
Equilíbrio, controle, uma mentira bem construída.
Ela responde às perguntas com precisão, sustenta olhares, sorri quando precisa, mas quando mencionam de onde ela veio e ela diz Hialeah com uma firmeza que não combina com vergonha, algo escapa, pequeno, rápido, mas real demais para fazer parte do roteiro e eu noto, mais do que deveria.
O jantar segue, os contratos avançam, as decisões se alinham, mas algo fica fora do lugar, algo que não deveria interferir, mas interfere, um ruído constante que não desaparece mesmo quando tudo parece sob controle.
E é isso que permanece.
Não o que foi dito, mas o que ficou no meio, o que não deveria existir e que agora insiste.
O jantar com os japoneses fica para trás, mas não completamente, ele continua entre nós, nos espaços, nos silêncios, no jeito que ela passa por mim e o perfume permanece no ar por tempo demais, no jeito que eu paro por um segundo a mais do que deveria, respirando como se isso fosse suficiente.
Ela não é mais apenas a secretária eficiente, não é mais só a mulher que aceitou um acordo.
Agora ela ocupa espaço, o quarto ao lado do meu, a cozinha de madrugada.
Os pensamentos que eu deveria manter sob controle.
No escritório, tudo continua igual, pelo menos por fora, reuniões, relatórios, decisões, mas eu mudei, e isso aparece nos detalhes, no tempo que meus olhos permanecem nela além do necessário, no jeito que começo a reparar no que antes não existia para mim, o lábio preso entre os dentes quando está concentrada, os dedos se movendo no teclado, a inclinação do pescoço quando lê.
Ela se aproxima para deixar uma pasta na minha mesa e o braço dela roça no meu.
É rápido.
Mas não o suficiente.
O contato fica, leve demais para justificar reação, forte demais para ser ignorado, e por um segundo eu perco o fio do raciocínio, preciso me ajustar na cadeira, afastar alguns centímetros como se isso resolvesse alguma coisa.
Ela não comenta, mas sabe.
Peter aparece no meio da tarde sem avisar, como sempre, mas desta vez não é casual, eu vejo antes mesmo de ele falar, no jeito que entra, no peso do olhar, na tensão contida.
— Pai, a gente precisa conversar.
— Sobre o quê?
— Sobre ela.
— Ela tem nome.
— Zaya. — ele diz como se fosse um erro
O que você está fazendo, pai? Casando com a sua secretária, uma mulher que você mal conhece, mais nova do que eu?
— Estou perfeitamente bem, e minha vida pessoal não é da sua conta.
— É da minha conta sim.
A discussão se arrasta, cresce, b**e nos mesmos pontos até virar algo maior do que o motivo inicial, e eu sinto o controle escapar em pequenas falhas, no tom, na respiração, no jeito que minha mão aperta a mesa mais do que deveria.
Ele não sabe de nada e mesmo assim acerta mais do que deveria.
Quando ele vai embora, o silêncio que fica é pesado, e eu fico sozinho com a verdade que não digo, com o gosto amargo que não desaparece, com a sensação de que, pela primeira vez em muito tempo, eu não estou completamente no controle.
À noite, quando chego em casa, ela está na sala, sentada com um livro, os pés recolhidos, o cabelo solto, os óculos apoiados no nariz, e a imagem não combina com o que isso deveria ser, não combina com contrato, nem com acordo, nem com distância.
Ela levanta o olhar.
— O senhor está atrasado, a governanta deixou o jantar.
— Não estou com fome.
— O senhor sempre diz isso, e depois come do mesmo jeito.
O canto da boca dela se curva, quase nada, mas o suficiente para quebrar o padrão, e eu percebo tarde demais que é a primeira vez que ela sorri para mim.
Sento ao lado dela, não tão longe quanto deveria, e o silêncio que se instala já não pesa da mesma forma.
— Meu filho foi ao escritório hoje.
— Eu vi.
— Ele desconfia de você.
Ela fecha o livro, tira os óculos, me encara sem desviar.
— Ele tem razão, eu não estou aqui por amor.
A palavra seguinte vem sem esforço.
— Eu sei.
Mas não sei, não completamente.
Ela se levanta, passa por mim, perto demais, o tecido da roupa roça no meu braço, mais lento desta vez, mais consciente, e o impulso de segurar vem antes do pensamento.
Eu não seguro.
Mas quase.
— O senhor também não tinha escolha, não é?
Ela para na porta.
— A diferença é que a minha prisão tem o tamanho da dívida, e a sua tem o tamanho do seu medo.
Ela vai embora e eu fico.
Com a sensação ainda na pele, com o silêncio que já não é vazio, com algo que começou sem permissão.
O contrato diz dezoito meses.
Mas isso já não parece suficiente para conter o que está acontecendo.
O medo eu já tenho.
O que eu não sei ainda é se vou conseguir manter distância.







