Mundo de ficçãoIniciar sessãoBrett
O contrato está assinado há três dias, e desde então eu tenho evitado Zaya como se a proximidade fosse um erro que ainda pode ser corrigido, não olho em sua direção quando passo pelo corredor, não a chamo para nada que não seja absolutamente necessário, não uso o nome dela mais do que o mínimo exigido, como se manter distância fosse suficiente para preservar a lógica do acordo, mas não é sobre ela, nunca foi.
O problema sou eu, é a forma como eu registrei cada detalhe naquele dia, o jeito que ela me olhou depois de assinar, o leve atraso na respiração, o tremor na mão que eu vi e escolhi ignorar, e principalmente a reação que eu tive, imediata, inconveniente, completamente fora de lugar, a vontade de interromper tudo antes que fosse tarde demais, de dizer que não precisava ser assim, de segurar aquela mão antes que ela terminasse de assinar, de apagar a única linha que realmente importava naquele contrato, dita com uma frieza que não combinava com o que estava sendo decidido, nada de toques, nada de sexo e principalmente nada de se apaixonar.
Mas eu não fiz nada disso.
E não vou fazer.
A mudança está marcada para o sábado, faltam dois dias, e a casa em Coconut Grove permanece exatamente como sempre foi, silenciosa, organizada demais, cada objeto no lugar certo, cada espaço sem marcas, como se ninguém realmente vivesse ali, a governanta perguntou sobre o quarto de hóspedes e eu disse que fosse preparado, tudo impecável, como sempre, lençóis novos, flores, toalhas, como se a formalidade pudesse manter as coisas dentro de um limite controlável.
Ela vai ocupar o quarto ao lado do meu.
Vai circular pelos mesmos espaços.
Vai existir dentro de uma rotina que não foi feita para duas pessoas.
E isso cria um desconforto que eu não esperava sentir.
O telefone toca no meio da tarde, é o advogado confirmando que o contrato foi registrado, que não há brechas, que tudo está protegido, e eu escuto apenas o suficiente para encerrar a ligação, porque não há nada ali que eu precise confirmar, tudo já foi decidido antes mesmo da assinatura.
Ainda assim, a palavra casamento permanece.
E não deveria ter peso nenhum.
Mas tem.
A lembrança vem sem esforço, como sempre vem quando eu não estou completamente ocupado, o rosto dela, o sorriso fácil, a forma como acreditava em coisas que eu hoje considero irrelevantes, e por um instante eu me pergunto o que ela diria se visse isso, não a decisão em si, mas a forma como eu cheguei até ela, transformando algo que antes significava tudo em uma cláusula com prazo determinado.
Eu desvio o pensamento antes que ele se prolongue.
Não serve para nada.
O sábado chega e eu acordo mais cedo do que o habitual, sem motivo claro, apenas a sensação de que o dia já começou antes de eu abrir os olhos, e fico na varanda com o café nas mãos, observando o jardim enquanto o sol sobe devagar, tentando identificar o que exatamente está diferente, mas a casa ainda está vazia, o silêncio ainda é o mesmo, e mesmo assim não parece suficiente.
Às onze, o interfone toca.
Pontual.
Claro que é.
Autorizo a entrada e permaneço onde estou, no meio da sala, as mãos nos bolsos, postura neutra, como se isso fosse apenas mais uma formalidade, como se não houvesse nada além do que já foi acordado.
A porta se abre e ela entra sozinha, puxando uma mala que claramente pesa mais do que deveria, o movimento leve demais para o esforço que exige, o cabelo preso, o rosto pálido, o cansaço visível mesmo na tentativa de manter a postura, e por um segundo eu tenho a impressão de que ela considera me olhar diretamente, mas desiste antes de completar o gesto.
— A governanta vai mostrar o seu quarto.
Minha voz sai seca, controlada, e eu não corrijo.
— Obrigada.
A palavra vem baixa, contida, como se fosse necessária apenas para encerrar o momento, não para expressar qualquer tipo de gratidão, e a governanta surge logo depois, guiando-a pelo corredor enquanto o som das rodas da mala ecoa mais do que deveria no piso de madeira, preenchendo o silêncio de uma forma incômoda.
Eu permaneço parado por alguns segundos depois que ela desaparece.
Não há nada para fazer.
E ainda assim, a sensação é de que algo já saiu do lugar.
O resto do dia passa como esperado, reuniões, ligações, qualquer coisa que mantenha a atenção ocupada o suficiente para não acompanhar mentalmente cada movimento dela dentro da casa, cada porta abrindo, cada passo no corredor, cada sinal de presença onde antes só havia ausência.
À noite, jantamos em silêncio, cada um em uma ponta da mesa, a distância mais do que suficiente para manter a formalidade, mas não o bastante para ignorar completamente o outro, e eu percebo mais do que deveria, o ritmo em que ela come, a forma como evita levantar o olhar, o cuidado exagerado nos movimentos, como se qualquer erro fosse notado.
Eu não olho diretamente.
Mas sei que ela também percebe.
Terminamos e ela se levanta antes de mim, recolhe o próprio prato, e por um momento parece hesitar antes de falar.
— Posso ficar na sala? Para ler?
A pergunta é simples, mas não é sobre a sala.
— A sala também é sua, Zaya. Esta casa é sua pelos próximos 18 meses.
A resposta sai automática demais, como se fosse apenas uma repetição do contrato, e no instante seguinte eu percebo que não era isso que ela estava pedindo, não exatamente.
Ela me olha por um segundo, e há algo ali que não é surpresa, nem exatamente indignação, é mais próximo de reconhecimento, como se ela estivesse confirmando algo que já esperava encontrar.
Eu me levanto antes que esse olhar dure mais do que deveria.
Não digo mais nada, não explico.
Não suavizo.
Vou para o meu quarto e fecho a porta, mantendo a mesma distância que estabeleci desde o início.
A madrugada chega e o sono não vem.
A casa está silenciosa, completamente silenciosa, e ainda assim não parece vazia como antes, há uma presença constante, difícil de ignorar, mesmo sem som, mesmo sem movimento, como se o simples fato de ela estar ali alterasse o espaço.
Olho para a foto na mesa de cabeceira e, pela primeira vez em anos, não sustento o olhar por muito tempo.
Levanto e vou até a cozinha.
Ela está sentada à mesa, uma xícara de chá entre as mãos, o cabelo solto, a postura menos rígida do que durante o dia, como se a ausência de observadores permitisse que alguma coisa relaxasse, ainda que pouco.
— Não consegue dormir?
A voz é mais baixa, menos controlada.
— Não.
Sento na cadeira à frente dela e o silêncio volta, mas não é o mesmo silêncio de antes, não é apenas desconforto, há uma pausa diferente ali, menos defensiva, como se por alguns minutos nenhum dos dois precisasse sustentar completamente o papel que aceitou.
Ela toma um gole de chá e me observa por cima da xícara.
— O senhor sempre teve insônia?
Eu poderia responder de várias formas.
Escolho a única que não exige explicação.
— Desde que ela morreu.
O silêncio que vem depois não é pesado.
Ela não pergunta, não reage além de um leve aceno.
E isso, de alguma forma, é pior do que qualquer comentário.
Ficamos ali, sem dizer mais nada, até a luz começar a entrar pela janela.
Quando volto para o quarto e fecho a porta, a sensação é clara o suficiente para não ser ignorada.
Nada saiu do controle.
Mas também não está exatamente como antes.
E isso, por si só, já é um problema.







