Mundo de ficçãoIniciar sessãoE o problema crescente dentro do meu peito, Valentina finalmente soltou meu braço e o ar frio ocupou imediatamente o espaço onde o toque dela estava segundos antes.
Ridículo. — Então… Ela murmurou. — Essa carona imaginária realmente existe ou vou precisar me arriscar no táxi? Sorri de verdade agora, ela me intriga e me desestabiliza na mesma proporção. Os olhos verdes dela acompanharam o movimento como se aquilo também tivesse significado alguma coisa. E talvez tivesse, e esse era exatamente o problema. — Existe. Respondi. — Meu carro está na garagem privativa. — Claro que está. — Você parece decepcionada. — Eu esperava uma motocicleta e tendências autodestrutivas. A risada escapou antes que eu pudesse impedir, baixa, breve e perigosamente genuína. Valentina pareceu surpresa por um segundo. Como se não esperasse atravessar minha compostura daquele jeito. Para ser bem sincero, nem eu esperava. Ela caminhou em direção à saída principal e eu a acompanhei logo atrás. O vestido preto dela se movia elegantemente a cada passo e minha mente, num ato claro de sabotagem profissional, começou imediatamente a imaginar minhas mãos deslizando por aquelas costas nuas. Tentei me trazer de volta, murmurei. “Controle, Dante. Controle.” Do lado de fora, o frio suíço atingiu nossa pele imediatamente e um funcionário abriu um enorme guarda-chuva preto enquanto nos aproximávamos da escadaria. Vi um movimento perto do táxi, e aquela sensação familiar que me salvou algumas vezes surgiu. Meus olhos percorreram a rua automaticamente, o homem ainda estava parado perto do táxi, boné escuro, com as mãos nos bolsos. Observando não o hotel, e sim Valentina. Meu corpo inteiro ficou alerta no mesmo instante e, pela primeira vez naquela noite, tive certeza de uma coisa: Eu não era o único que estava caçando. Valentina O frio de Genebra atingiu minha pele no instante em que saímos do hotel. A chuva havia engrossado, transformando as ruas em espelhos distorcidos de luz dourada e neon. Um funcionário segurava um guarda-chuva acima de nós enquanto descíamos os degraus da entrada principal. Dante caminhava ao meu lado em silêncio, parecia controlado por fora, mas eu já tinha aprendido uma coisa sobre Dante Valenti: o corpo dele denunciava o que o rosto escondia. O olhar atento demais, o maxilar rígido e a postura sutilmente tensionada. Ele tinha sentido alguma coisa, mas eu também. Foi quase instintivo. Do outro lado da rua, perto do táxi estacionado, um homem de boné escuro permanecia imóvel demais para alguém esperando uma corrida, mantinha as mãos no bolso e o olhar fixo em nós. Treinamento reconhece treinamento. Meu coração desacelerou imediatamente daquele jeito frio que sempre acontecia antes do caos. Dante percebeu o homem no mesmo instante, eu vi quando seus ombros mudaram minimamente de posição, já se preparando. Então tudo aconteceu rápido, surgiu outro homem que puxou a arma e apontou não para mim, mas para Dante. — Abaixe! Gritei. Segurei o braço dele violentamente e o empurrei contra a lateral da escadaria no exato instante em que o disparo cortou a chuva. O vidro atrás de nós explodiu, o rapaz soltou o guarda-chuva e saiu correndo, gritos ecoaram na entrada do hotel. Outro tiro. Dante me puxou pela cintura antes mesmo que eu recuperasse o equilíbrio. Meu corpo colidiu contra o dele, enquanto nos empurrava atrás de uma coluna de mármore. Mais disparos. As pessoas começaram a correr em pânico, com champanhe sendo derramado, salto alto e milionários covardes espalhando-se como formigas assustadas. — Você quer me explicar por que estão tentando matar você? Dante perguntou com a voz perigosamente calma, olhei para ele incrédula. — Eu ia perguntar exatamente a mesma coisa. Outro tiro atingiu a coluna acima da nossa cabeça e pedaços de mármore voaram sobre nós. Droga. Dante puxou uma arma da parte interna do paletó com rapidez impressionante. Bonita, preta, compacta e cara. — Então você realmente não é só um bilionário. Murmurei. — E você definitivamente não é só uma curadora. O homem atravessou a rua atirando, profissional, com movimentos firmes e sem hesitação. Aquilo não parecia um assalto e sim uma execução. Dante segurou minha cintura e me puxou ainda mais para perto quando outro disparo atingiu a lateral da coluna. Tão perto que meu corpo inteiro ficou consciente do corpo dele num timing completamente inadequado. O calor subiu rápido, o perfume masculino e a respiração controlada contra minha pele. Tentei me controlar, falei para minha cabeça: “Concentre-se, Valentina.” — Quantos? Perguntei. Os olhos dele percorreram a rua rapidamente. — Pelo menos dois, talvez três. Claro! Porque aparentemente o universo havia decidido transformar nossa tensão sexual em esporte radical. — Seu carro está onde? — Garagem subterrânea. — Isso sei, qual a distância? — Cinquenta metros. — Horrível. — Concordo. Os olhos escuros dele encontraram os meus e, desta vez, toda ironia havia desaparecido, só restou perigo real. — Quando eu mandar correr, não pare por nada. Usou um tom de voz de comando, autoritário, firme e eu não sei porque mas meu cérebro achou muito sexy. E escolheu aquele momento horrível para imaginar como seria obedecer aquele tom de comando em outro contexto. Outro disparo. Voltei à realidade, Dante se inclinou para fora da coluna e atirou duas vezes em sequência. O homem perto do táxi se jogou atrás de um carro estacionado, movimento de quem estava acostumado a tiroteios. — Agora! Dante ordenou. E corremos. A chuva castigava o asfalto enquanto atravessávamos a entrada lateral do hotel. Meus saltos escorregaram perigosamente na pedra molhada e a mão de Dante apertava a minha cintura com força suficiente para me manter equilibrada. Atrás de nós: gritos, disparos e vidro quebrando. Meu vestido estava grudado na pele por causa da chuva e do movimento, mas a adrenalina já tinha tomado conta do meu corpo inteiro. Descemos a escadaria da garagem subterrânea quase tropeçando um no outro. Outro tiro ecoou acima de nós e passou muito perto. Dante me empurrou brutalmente contra a parede no segundo seguinte. O corpo dele cobriu o meu instintivamente e o disparo atingiu o concreto atrás de nós. A respiração dele estava quente no meu pescoço, muito quente e por um segundo absurdo, perigoso e completamente inadequado… Não nos mexemos, meu coração batia rápido demais e o dele também, os olhos escuros desceram involuntariamente para minha boca. E lá estávamos nós, no meio de um tiroteio, e a única coisa que queríamos era a boca um do outro. Como se o mundo inteiro tivesse encolhido até restar apenas aquela respiração compartilhada entre nós. Então os passos ecoaram na escada na entrada do estacionamento e a realidade voltou como um soco. Dante segurou minha mão novamente. — Depois que isso terminar, você pode me beijar. Ele murmurou. Em seguida, ele me puxou pela garagem em direção ao carro dele e eu não consegui responder porque se ele me beijasse, eu ia deixar e que se dane se tomasse um tiro.






