Ele não vai gostar

A porta traseira abriu imediatamente, Valentina segurou meu braço para me ajudar a ir até a porta aberta.

— Mas o que…? 

Comecei.

Ela me lançou um olhar rápido.

— Ponto de extração, ou você é mesmo só um bilionário excêntrico e estão tentando te sequestrar, ou sua agência é muito fraca.

Apesar da dor queimando no meu braço, quase ri e entrei no carro ainda atordoado.

Não sabia se pela perda de sangue ou pela presença daquela mulher, que parecia transformar qualquer situação em caos elegante.

A porta bateu e o motorista arrancou imediatamente.

Foi então que percebi o rapaz no banco da frente.

Óculos redondos, moletom escuro, cara de quem definitivamente não estava preparado para encontrar um homem ensanguentado no banco traseiro.

Ele virou para trás e congelou.

— Val?

Valentina passou a mão molhada pelo rosto como quem já estava cansada daquela noite há umas três guerras internacionais atrás.

— Não pergunte, só nos tire daqui.

Os olhos do rapaz deslizaram para mim lentamente, a desconfiança brilhando por trás dos óculos.

— Ele não vai gostar disso.

Murmurou.

Valentina soltou uma respiração irritada.

— Ele não manda em mim… quer dizer, manda um pouco, mas não em todas as minhas decisões.

Aquilo chamou minha atenção imediatamente.

Interessante, muito interessante mesmo, quem será ele? Talvez o marido?

O rapaz pareceu avaliar se discutir valia a pena e claramente concluiu que não.

— Se você está dizendo…

— Já disse.

Ela cortou. 

— E nos leve para minha casa.

Minha cabeça virou lentamente em direção a ela.

Casa?

Ela havia acabado de dizer que ia me levar para a própria casa?

Ou: 

A) ela estava desesperada, 

B) Confiava demais em mim, ou: 

C) Era tão perigosa quanto eu suspeitava e acreditava conseguir me matar se necessário.

Minha aposta era na terceira opção.

O táxi atravessava as ruas chuvosas de Genebra em velocidade absurda enquanto eu observava discretamente o reflexo de Valentina na janela.

Ela parecia mais cansada agora, não fisicamente, emocionalmente.

Como se o peso daquela noite estivesse finalmente começando a atingi-la.

O motorista desviou rapidamente por uma rua estreita enquanto o rapaz da frente verificava algo num tablet pequeno.

— Temos movimentação policial perto do hotel.

Ele comentou. 

— E alguém já está procurando o carro no lago.

— Claro que estão.

Murmurei.

Os olhos dele voltaram imediatamente para mim pelo retrovisor, estreitou os olhos desconfiado outra vez.

— Quem é você?

Valentina respondeu antes que eu pudesse abrir a boca.

— Um problema bem grande, mas é meu problema.

O rapaz assentiu como se aquilo explicasse perfeitamente.

— Faz sentido.

Olhei para ela.

— Essa é oficialmente a apresentação mais ofensiva que já recebi.

— Você sobrevive.

— Ainda estou decidindo.

O canto da boca dela ameaçou subir, um sorriso pequeno, quase invisível, mas suficiente para causar efeitos profundamente inconvenientes no meu sistema nervoso.

Dio mio!

O carro fez outra curva brusca, Valentina se inclinou para frente entre os bancos.

— Noah, mude a rota.

Instantaneamente, meu corpo ficou alerta.

— O quê?

Ela apontou discretamente para o retrovisor lateral.

— Faróis nos seguindo.

O rapaz chamado Noah praguejou baixo.

— Há quanto tempo?

— Desde a ponte.

Perfeito.

Porque aparentemente aquela noite tinha decidido nos transformar oficialmente em fugitivos internacionais.

Noah acelerou imediatamente, entrando em ruas cada vez mais estreitas enquanto a cidade passava borrada do lado de fora.

Meu braço pulsava forte agora, sangue demais perdido e a adrenalina começando a baixar.

Valentina percebeu de novo, tirou algo pequeno da bolsa e pressionou discretamente na minha mão.

Olhei para baixo e era um comprimido.

— O que é isso?

— Ou você toma e para de sangrar em cima do banco do Noah… ou desmaia. Escolha.

Encarei o comprimido por dois segundos e depois ela.

— Você droga homens com frequência?

— Só os italianos dramáticos.

Noah soltou uma risada nervosa na frente e eu tomei o comprimido principalmente porque começava a suspeitar que, se Valentina quisesse me matar, já teria feito isso umas seis vezes naquela noite.

Ela observou enquanto eu engolia o remédio e depois relaxou minimamente no banco.

Foi só uma pequena mudança, mas suficiente para eu perceber algo perigoso:

Aquela mulher estava começando a confiar em mim.

E a pior parte?

Eu estava começando a confiar nela também.

Noah olhava alternadamente para o tablet e para o retrovisor enquanto o táxi atravessava uma sequência absurda de ruas estreitas.

Os faróis atrás de nós continuavam lá, firmes e chegando cada vez mais perto.

— Eles estão muito próximos.

Murmurei, observando o reflexo branco deslizando pela chuva.

— Eu percebi, James Bond ferido.

Noah respondeu sem tirar os olhos da tela, os dedos dele começaram a correr rapidamente pelo tablet enquanto várias janelas surgiam refletidas nas lentes dos óculos.

Linhas, mapas, números e códigos rápidos demais para acompanhar.

— O que exatamente você está fazendo?

Perguntei, ainda desconfiado do amadorismo.

— Invadindo o sistema urbano de tráfego de Genebra.

Respondeu como se estivesse dizendo “comprando pão”.

Olhei lentamente para Valentina e ela deu de ombros.

— Ele fica insuportável quando hackeia alguma coisa importante.

— Ouvi isso.

Noah murmurou, concentrado no que fazia.

Os faróis atrás de nós chegaram perigosamente perto.

Droga.

O táxi virou outra esquina molhada e o sedã preto apareceu novamente logo atrás.

São persistentes.

Noah estalou a língua, irritado.

— Tá bom. Vocês pediram educação suíça… mas vamos fazer do jeito divertido.

— Essa frase não me tranquiliza.

Comentei.

E no segundo seguinte, todos os semáforos do cruzamento à frente mudaram simultaneamente.

Verde para nós e vermelho para todo o resto.

O táxi atravessou a avenida em velocidade enquanto caminhões e carros surgiam lateralmente bloqueando o caminho e o sedã preto freou brutalmente tentando evitar a colisão, mas foi tarde demais.

Uma van atravessou na frente dele, obrigando o carro a girar parcialmente na pista molhada.

Noah abriu um sorriso satisfeito sem desgrudar da tela.

— E foi por isso que fui expulso da universidade.

Valentina soltou uma risada baixa ao meu lado e eu fiquei olhando para o rapaz no banco da frente por dois segundos.

— Estou começando a entender porque vocês fazem parte da mesma equipe.

— Obrigado.

Noah respondeu imediatamente.

— Isso definitivamente não foi um elogio.

Noah sorriu e olhou para Valentina, demonstrando cumplicidade. Fiquei com um pouco de inveja porque o sorriso que ela destinou a ele era puro e não desconfiado como os que destinava a mim.

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