Você me deve um beijo

Finalmente olhei para Dante de verdade, estava molhado da cabeça aos pés com a respiração pesada e sangue escorrendo pelo braço porque meu curativo era provisório.

Mesmo ferido, ele ainda parecia perigosamente funcional e irritantemente bonito também, aquele terno colado ao corpo definitivamente não ajudava.

— Você está olhando para meu ferimento ou para outra coisa? 

Ele perguntou calmamente.

Droga, fui pega.

— Estou decidindo se valeu a pena destruir um vestido caríssimo para salvar sua vida.

Dante se aproximou devagar, próximo o suficiente para eu ver a luz distante da cidade refletida nos olhos dele.

A chuva escorria lentamente pelo rosto dele enquanto os olhos escuros permaneciam presos aos meus de um jeito absurdamente intenso.

— E chegou a alguma conclusão?

Meu coração deu aquela batida errada, aquela maldita batida que fazia anos que não dava.

— Ainda estou avaliando.

Mentira.

Meu corpo inteiro já tinha chegado à conclusão fazia tempo.

Quase gritava: beija, beija.

Dante inclinou levemente a cabeça, observando meu rosto como se tentasse decidir alguma coisa perigosa.

— Você ainda me deve um beijo.

A voz dele saiu baixa, rouca e absurdamente próxima.

Senti o calor subir pelo meu corpo inteiro num movimento rápido demais para controlar.

— Achei que homens da Interpol eram mais pacientes.

— Achei que mulheres armadas com facas eram menos provocadoras.

O canto da minha boca subiu sem autorização e isso foi um erro.

Os olhos dele desceram imediatamente para minha boca outra vez e dessa vez não voltaram.

O ar entre nós parecia curto e tenso demais.

Meu cérebro ainda gritava cautela, estratégia, distância…

Mas meu corpo parecia completamente cansado de escutar.

Dante segurou minha cintura devagar, como se ainda estivesse me dando uma chance de fugir.

Mas quem disse que eu queria fugir? Puxei o paletó molhado dele pela frente e o beijei primeiro.

Foi um beijo violento, quente e totalmente impulsivo.

A boca dele encontrou a minha com uma intensidade que quase arrancou o resto do ar dos meus pulmões.

Não houve hesitação e nem delicadeza, só horas de tensão comprimidas explodindo de uma vez só.

As mãos dele apertaram minha cintura com força enquanto meu corpo colidia contra o dele outra vez, molhado, quente e perigosamente vivo sob meus dedos.

O gosto de chuva, adrenalina e whisky ainda permanecia na boca dele.

Dio mio.

O som baixo que Dante soltou contra meus lábios destruiu qualquer tentativa restante de raciocínio lógico.

A mão dele subiu pelas minhas costas molhadas lentamente até parar na minha nuca e aquilo piorou tudo.

Porque o beijo deixou de ser só desejo e virou fome.

Quando ele aprofundou o beijo, senti meu corpo inteiro responder imediatamente, como se alguma parte irracional minha tivesse finalmente decidido parar de fugir dele e talvez tivesse mesmo.

Só nos afastamos quando a necessidade de respirar venceu e por muito pouco.

A testa dele encostou na minha enquanto nossas respirações continuavam completamente desreguladas.

Dante abriu os olhos devagar e murmurou rouco:

— Valeu, definitivamente o vestido.

Dei uma risada nervosa, mas o cheiro metálico do sangue dele atravessou a chuva no instante seguinte e destruiu completamente qualquer resto de vertigem dentro da minha cabeça.

A realidade voltou, o perigo e tudo o que estava protegendo.

Afastei-me apenas o suficiente para voltar a respirar direito.

Os olhos escuros de Dante continuavam presos aos meus e aquilo piorava tudo absurdamente.

Porque eu havia gostado, e muito.

Droga! 

Minha mão ainda segurava o paletó molhado dele quando finalmente forcei meus dedos a soltarem o tecido.

— Isso não pode acontecer.

Minha voz saiu mais baixa do que eu queria,

Dante permaneceu imóvel, observando meu rosto atentamente, como se tentasse entender qual parte de mim havia mudado tão rápido.

Mal sabia ele que eu estava tentando entender exatamente a mesma coisa, balancei a cabeça devagar.

— Isso foi um erro.

A voz dele saiu rouca:

— Não pareceu.

Ele não estava ajudando.

Passei a mão molhada pelo rosto tentando reorganizar os próprios pensamentos.

— Dante…

Hesitei só meio segundo, tempo suficiente para escolher a mentira menos desastrosa.

— Tenho um compromisso com alguém.

O silêncio entre nós mudou imediatamente e 

Interessante como até a chuva pareceu mais fria.

Os olhos dele escureceram quase imperceptivelmente, mas percebi, sabia com que tipo de homem estava lidando.

Dante era treinado demais para demonstrar reação completa, mas não o suficiente para esconder tudo.

— Seu marido?

Perguntou calmo demais e a calma dele parecia perigosa.

Sustentei o olhar por alguns segundos.

— Algo parecido.

A mandíbula dele travou e instantaneamente tirou a mão do meu quadril.

Excelente, agora criei uma barreira intransponível.

Dante

Eu ainda estava tentando digerir a frase que ela soltou.

“Tenho compromisso com alguém”

Olhei no dedo dela e não tinha uma aliança, mas tinha um anel delicado no lugar.

Dio mio, essa mulher vai me matar.

Valentina observou a rua escura por alguns segundos enquanto a chuva diminuía lentamente ao nosso redor.

Ela parecia totalmente no controle, sempre calculando riscos e perigos, e isso me irritou, porque eu ainda sentia o calor do corpo dela e o sabor da boca dela na minha.

Merda.

O lago atrás de nós ainda engolia os últimos sinais do Maserati enquanto sirenes começavam a ecoar ao longe, polícia, talvez reforços e talvez mais assassinos.

Naquela noite, honestamente, podia ser qualquer coisa, então vi no olhar e no jeito que mexeu nos cabelos a decisão sendo tomada.

— Vem comigo.

Disse finalmente. 

— Vamos para um local seguro e depois resolvemos se você vai me matar ou eu a você.

A frase deveria soar ameaçadora.

Deveria.

O problema era o jeito como a água escorria pela pele dela, o vestido rasgado revelando a faca presa à coxa e aqueles olhos verdes me encarando como um desafio pessoal enviado diretamente pelo inferno.

Perigosa.

Absolutamente perigosa e mortal, e eu fui mesmo assim, porque mistério sempre havia sido minha maior fraqueza.

Quando vinha acompanhado de uma mulher bonita… meu autocontrole ficava perigosamente opcional.

Seguimos pela margem do lago em silêncio, a cidade parecia distante dali, escondida atrás da chuva, dos reflexos dourados e do caos que havíamos deixado para trás.

Meu braço queimava, o curativo improvisado dela havia estancado boa parte do sangramento, mas o impacto do tiro ainda pulsava irritantemente sob a pele.

Valentina percebeu… claro que percebeu, ela observava tudo e mais um pouco.

— Você está perdendo a cor.

 

Comentou sem olhar para mim.

— Você diz as coisas mais românticas.

Ela ignorou meu sarcasmo, se manteve fria, mas não completamente.

Porque continuava diminuindo discretamente o ritmo dos passos para acompanhar o meu.

Chegamos a um ponto de ônibus quase vazio alguns minutos depois. 

A estrutura de vidro estava parcialmente molhada pela chuva lateral e as luzes da avenida refletiam no asfalto como pinceladas douradas.

Valentina sentou no banco metálico como se não tivesse acabado de sobreviver a um atentado internacional.

Permaneci em pé, observando a rua, as sombras e as possíveis ameaças; ela me observava de volta.

— Você sempre parece prestes a atirar em alguém? 

Perguntou.

— Só em dias que tentam me matar.

— E hoje está especialmente inspirado.

O canto da minha boca ameaçou subir outra vez.

Ridículo.

Passei a mão pelo rosto molhado, tentando reorganizar os próprios pensamentos, e não estava funcionando.

Nada naquela mulher facilitava o raciocínio lógico, ela cruzou as pernas lentamente e apoiou os cotovelos nos joelhos.

Mesmo exausta, parecia elegante.

Como diabos alguém conseguia parecer elegante depois de:

Sobreviver a tiros, atravessar um lago, e arremessar uma faca num assassino?

— Então… 

Ela murmurou. 

— Você vai continuar fingindo que é um bilionário excêntrico?

— Você vai continuar fingindo que é curadora de uma galeria?

Os olhos verdes encontraram os meus e ficaram me encarando.

Valentina desviou o olhar primeiro dessa vez, ponto para mim.

— Você desligou seu ponto eletrônico antes de vir conversar comigo na varanda.

Ela comentou.

Meu corpo inteiro ficou alerta imediatamente.

— Você percebeu?

Ela soltou uma risada baixa.

— Dante… percebo até quando um homem respira diferente perto de mim, um equipamento de comunicação não seria exatamente difícil.

Nossa.

Aquilo me fez pensar se sou um bom agente, se ela fosse minha inimiga, teria me descoberto de primeira.

A chuva fina continuava caindo ao redor do ponto de ônibus enquanto um silêncio estranho se instalava entre nós.

Não desconfortável e sim pior, muito familiar.

Como se estivéssemos perigosamente próximos de esquecer que deveríamos desconfiar um do outro.

Então Valentina fez algo inesperado, levantou lentamente e se aproximou de mim, chegou perto o suficiente para eu repensar se queria fugir ou beijá-la de novo.

Os dedos frios tocaram meu braço ferido com cuidado surpreendente enquanto ela verificava o curativo improvisado.

A concentração dela era quase cruelmente bonita.

— Você deveria tirar a bala logo.

Murmurou.

— Pretende fazer isso num ponto de ônibus suíço?

— Já trabalhei em lugares piores.

Meu olhar caiu involuntariamente para a boca dela, isso foi um erro e ela percebeu imediatamente.

Valentina ergueu os olhos devagar até encontrar os meus e, naquele instante, alguma coisa mudou.

Não era mais apenas tensão, era consciência física, perigosa e quente.

A cidade parecia distante, as sirenes, a chuva e os carros passando.

Tudo desapareceu lentamente enquanto ela permaneceu perto demais e eu esqueci completamente todas as decisões inteligentes da minha vida, inclusive a frase de momentos atrás.

Desci o rosto sem pensar muito e, quando nossos lábios iam se encostar, as luzes de um táxi amarelo surgiram na avenida molhada e, em seguida, parou exatamente diante do ponto.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP