A casa

Não sei exatamente em que momento comecei a perder a consciência, talvez no táxi. 

Talvez quando a adrenalina finalmente abandonou meu corpo ou talvez quando Valentina tocou meu rosto rapidamente para verificar se eu ainda estava acordado.

Só sei que, quando voltei a perceber o mundo ao redor, ela estava praticamente me carregando pela chuva.

Humilhante.

Meu braço ardia como fogo líquido enquanto tentava manter os olhos abertos. 

O táxi amarelo desapareceu na rua molhada atrás de nós exatamente quando Valentina parou diante de uma casa discreta no subúrbio.

Nada luxuosa e nem chamativa, só inteligente.

Ela digitou rapidamente uma senha na porta e, em qualquer outro dia, eu teria memorizado cada movimento dos dedos dela.

Hoje? Meu cérebro parecia ocupado demais tentando não apagar igual a um notebook velho.

A porta abriu e Valentina me puxou para dentro imediatamente.

O cheiro da casa me atingiu primeiro: canela suave, livros antigos e alguma coisa delicadamente floral.

Vida real, aquilo não parecia um esconderijo operacional.

Parecia um lar.

O pensamento me atingiu de forma estranhamente desconfortável, ela me guiou até a sala enquanto eu tentava inútilmente continuar funcional. 

O espaço era elegante sem exagero: sofá claro, estantes cheias, quadros pequenos, mantas jogadas casualmente.

Detalhes humanos e perigosos, Valentina me sentou no sofá com um cuidado surpreendente.

— Vou buscar os utensílios para extrair a bala.

Disse enquanto prendia o cabelo molhado de qualquer jeito. 

— Depois arrumamos roupas secas para você.

Pisquei lentamente, ela falou que vai extrair a bala?

Como se estivéssemos falando sobre trocar uma lâmpada e não perfurar meu braço numa casa aleatória em Genebra.

Observei-a desaparecer pelo corredor e minha mente girava devagar agora.

Que tipo de mulher salva um homem num tiroteio, arremessa facas com precisão cirúrgica, organiza rotas de fuga e depois casualmente menciona remover projéteis?

A resposta mais lógica era: uma mulher da qual eu deveria manter distância absoluta.

Pena que meu corpo inteiro parecia comprometido em fazer exatamente o oposto, fechei os olhos por dois segundos.

Quando abri novamente, percebi algo pequeno sobre a mesa lateral.

Um desenho infantil colocado em uma moldura, meu olhar fixou-se imediatamente.

Crayons, sol amarelo torto, flores e uma mulher de vestido preto de mãos dadas com uma criança.

O ar pareceu mudar ao meu redor.

Interessante.

Peguei o desenho lentamente e no canto inferior havia letras infantis tortas:

“Para mamãe.”

Meu cérebro conectou as peças no mesmo instante, Valentina, filha, ele? Uma família completa.

Olhei em direção à porta pela qual ela passou, esperando um homem aparecer com uma arma em punho e querendo satisfações sobre o que eu estava fazendo com a esposa dele e ainda sangrando em seu sofá, mas não aconteceu.

Valentina voltou para a sala antes que eu pudesse processar completamente minhas deduções. Ela carregava uma caixa metálica de primeiros socorros e uma toalha escura sobre o ombro.

Então percebeu o desenho na minha mão e parou, foi uma mudança mínima, uma pausa de menos de um segundo, mas foi o suficiente.

O olhar dela mudou, não completamente. Só… endureceu um pouco, proteção.

Guardei o desenho exatamente onde estava, com cuidado.

— Você tem família.

Falei calmamente.

A chuva batia suavemente nas janelas enquanto ela me observava do outro lado da sala, os olhos verdes perderam parte do calor instantaneamente.

Merda.

Entrei em um território sensível, Valentina colocou a caixa metálica na mesa de centro sem desviar o olhar do meu.

— Tire o paletó.

Disse friamente. 

— Vai ficar mais difícil salvar sua vida se continuar sangrando em tecido italiano.

Deflexão, Anotado.

Tirei o paletó lentamente enquanto ela organizava instrumentos esterilizados sobre a mesa, com os gestos precisos, profissionais, experientes demais.

— Você já fez isso antes.

Murmurei e não foi uma pergunta, foi constatação.

Ela ergueu os olhos rapidamente.

— Mais vezes do que gostaria.

A resposta veio carregada de alguma coisa antiga, pesada, e senti dor.

Aquilo me atingiu num lugar perigosamente humano.

Valentina se aproximou do sofá e ajoelhou diante de mim, perto demais outra vez.

Esticou meu braço no braço da poltrona e começou a cortar cuidadosamente a manga da camisa ensanguentada.

Lavou o ferimento com soro e, com a toalha, secou parte da água no meu braço.

As mãos dela eram firmes, sem tremor e sem hesitação.

Mas os dedos ficaram mais lentos quando tocaram minha pele.

A respiração mudou por um milissegundo, quase imperceptível, mas percebi mesmo assim.

Os olhos dela continuavam concentrados no ferimento quando falou:

— Isso vai doer.

— Você sempre avisa antes de torturar os homens?

— Só os arrogantes.

Sorri de lado apesar da dor e vi quando ela torceu o lábio afetada e sei que odiou sentir isso.

Excelente.

Valentina aproximou mais o corpo enquanto preparava a pinça metálica.

O cheiro dela me atingiu imediatamente, um toque de jasmim em um dia de chuva, e somei definitivamente a palavra perigo.

— Tente não desmaiar 

Murmurou.

Olhei para ela, para o cabelo ainda úmido, a boca séria e os olhos verdes focados.

Então falei a única coisa que meu cérebro traumatizado decidiu produzir naquele momento:

— Você é a mulher mais assustadoramente bonita que já conheci.

O canto da boca dela finalmente subiu.

— E mesmo assim entrou no carro comigo.

Olhei para ela por alguns segundos e respondi com sinceridade.

— Ou eu entrava no carro ou ficava lá para morrer.

Respondi observando ela preparar os instrumentos. 

— Acho que não tinha muita opção.

Valentina soltou um som baixo que quase pareceu deboche.

— Tinha sim, era só chamar as pessoas para quem você trabalha.

Ela ergueu os olhos verdes para mim precisos, atentos e perigosamente inteligentes.

— Quem são elas? Não quer me contar?

Mesmo ajoelhada diante de mim, segurando uma pinça ensanguentada e prestes a arrancar uma bala do meu braço, ela ainda parecia estar conduzindo um interrogatório.

Fiquei impressionado com o controle.

Inclinei levemente a cabeça.

— Fale você primeiro e eu juro te contar.

— Estou salvando sua vida.

Rebateu imediatamente. 

— Você me deve uma explicação.

Aquela frase teria funcionado melhor se ela não estivesse segurando um instrumento cirúrgico como quem já ameaçou pessoas com aquilo antes.

Resolvi provocar.

— Sou Dante Valenti, bilionário excêntrico.

Murmurei. 

— Adoro uma boa obra de arte e uma mulher bonita.

Ela me encarou em silêncio por dois segundos e depois soltou uma risada curta e incrédula.

Finalmente.

—Tá bom! Se você quer assim… então sou Valentina Svanova, curadora de artes da galeria e sua anfitriã momentânea.

— Mentira.

O canto da boca dela subiu lentamente.

— Será? Talvez eu só tenha algumas habilidades diferentes.

— Curadoras normalmente não arremessam facas em assassinos e tiram balas do braço de estranhos.

— E bilionários normalmente não reagem a emboscadas como agentes treinados.

Ponto para ela.

Droga.

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