Aurora Moretti
O relógio de parede na sala de estar marcava quase meia-noite quando ouvi o som da porta da frente se fechando. Eu estava sentada no escuro, apenas com a luz da cozinha acesa, esperando. Ricardo já tinha se retirado para o seu quarto, mas eu sabia que ele não dormia; ele apenas vigiava em silêncio.
Minha mãe entrou, retirando as luvas e o casaco com a elegância de quem acabara de sair de um evento beneficente, mas seus olhos carregavam uma intensidade que eu não via desde o dia em que deixamos o Brasil.
— Onde você estava, mãe? — perguntei, a voz saindo mais afiada do que eu pretendia. — Você não foi ao cinema com a Sara. Eu liguei para lá.
Stella parou, olhou para mim e caminhou lentamente em direção à poltrona à minha frente. Ela não tentou mentir. Ela nunca mentia para mim quando estávamos sozinhas. Minha mãe era uma mulher tão forte que ela não tinha medo de nada, somente dos filhos sofrerem.
— Fui fazer o que ninguém nesta família tem coragem de fazer, Aurora