Mundo de ficçãoIniciar sessãoNada é perfeito, pelo menos não na minha vida.
Eu ainda estou tentando entender por que o deus grego loiro não tira os olhos de mim quando uma garota igualmente loira aparece e segura o braço dele, ela sorri gentil pra mim como se a gente fosse amiga ou alguma coisa assim, mas o que eu queria mesmo era arrancar os cabelos dela.
O garoto loiro sussurra alguma coisa no ouvido dela e ela o olha com aquela expressão de garota perfeita que está prestes a chorar, mas assente, toda certinha, como se estivesse acostumada a fazer o que esperam dela.
É então que Teron, vulgo meu pai, entra no quarto e praticamente corre até mim, como se o resto do mundo não existisse.
“Você está bem?” ele pergunta, sem nem respirar, e não espera resposta antes de soltar:
“Todos, saiam do quarto.”
A garota loira solta o braço do deus grego e murmura “claro, papai”, e eu encaro ela, depois encaro ele, que porra é essa, além de um pai agora eu tenho uma irmã também e, claro, ela é o completo oposto de mim, como pra provar isso meus olhos escorregam pro espelho e lá estou eu, cabelo castanho escuro quase preto completamente desordenado, olhos castanhos claros e a cara amassada, eu gemo, porque é um milagre aquele garoto ainda ter me encarado.
Teron pega a minha mão como se isso fosse normal, como se ele tivesse esse direito.
“Onde eu estou? E por que você me tirou do convento?” eu pergunto, puxando a mão de volta.
Ele dá uma risadinha, como se tivesse lembrado de alguma coisa engraçada.
“Depois de o padre gastar todo o estoque de água benta do convento, ele ficou muito feliz quando eu disse que ia te levar comigo.”
Meu peito aperta, não porque eu vá sentir falta daquele lugar, mas porque foi o único lugar que eu conheci como lar, por pior que fosse, era o que eu tinha, e Theron, claro, parece ler isso direto da minha cabeça quando solta um “aqui é o seu lar”, como se fosse tão simples assim.
Eu empurro a mão dele, irritada.
“Você pode parar com isso.”
“Parar com o quê?” ele franze a testa.
Eu aponto pra ele.
“Com tudo isso.”
Ele ri sem graça, como se não soubesse o que fazer comigo. Eu suspiro.
“Se começar parando de ler minha mente já é um bom começo.”
“Quando você se transformar, a sua loba vai te ensinar a bloquear o que você não quer que outros lobos ouçam”, ele responde, como se estivesse explicando a previsão do tempo.
Eu travo.
“Que porra é essa de me transformar?” Me levanto tão rápido que quase cambaleio e encaro ele em pânico. “Eu viro um cachorro também?”
Theron solta um rosnado baixo. E, do nada, algo dentro de mim rosna junto, como se tivesse respondido por conta própria.
Pelo visto, a palavra “cachorro” não era bem-vinda.
Theron respira fundo e diz:
“Me desculpe, nós, lobos, temos um temperamento forte, e Platon, meu lobo, é muito temperamental.”
Meus olhos se arregalam, minha cabeça gira e eu solto uma risada histérica, porque é isso ou surtar de vez.
“Quer dizer que seu… lobo tem até nome?”
Ele não parece achar graça, mas também não parece ofendido, só passa a mão no rosto, se acomoda melhor ao meu lado na cama, como se aquilo fosse uma conversa normal de família na sala no domingo de manhã, e não uma revelação de que monstros, deuses e maldições existem de verdade.
“Todo lobo conta essa história a seus filhos desde quando nascem”, ele diz.
Os olhos dele começam a encher de lágrimas, e isso acerta um pedaço de mim que eu realmente achei que tinha morrido faz tempo, a parte idiota que ainda quer acreditar que alguém pode me amar de verdade, que se importa, que fica, que não vai me enfiar de volta num lugar qualquer e sumir.
Ele inspira devagar, como se estivesse se preparando pra um discurso que ensaiou a vida inteira.
“Quando o mundo ainda era primitivo, a deusa da lua desceu à Terra”, ele começa, na voz de quem já contou isso mil vezes. “Ela quase foi morta, mas foi salva por um caçador. Ele cuidou dela, protegeu, e ela se apaixonou por ele.”
Eu reviro os olhos sem nem tentar disfarçar.
“Claro, óbvio, homem aleatório número um e a deusa se apaixona, porque por que não”, eu murmuro.
Theron finge que não ouviu, ou escolhe ignorar, e continua:
“A deusa engravidou de gêmeos e ficou com ele, escondida, vivendo entre humanos como se fosse uma mulher comum. Mas Zeus descobriu que uma de suas filhas estava vivendo na Terra, misturada com mortais, e ficou furioso. Ele desceu e matou o caçador.”
Eu aperto os dedos no lençol sem perceber. Não sei por quê, mas esse pedaço me incomoda mais do que o resto. Talvez porque morte de pai não seja exatamente um conceito abstrato pra mim.
Theron continua:
“Quando ele ia matar as crianças, a deusa da lua as protegeu, deu a elas parte dos próprios poderes. Vendo que não podia matá-los, Zeus os amaldiçoou. O gêmeo mais velho precisaria se alimentar de sangue pra viver, o mais novo dividiria o corpo com uma fera e se transformaria nela sempre que quisesse.”
Eu levanto a mão bem na cara dele, cortando o teatrinho mitológico.
“Pera. Você tá querendo dizer que, além de lobos, existem vampiros por aí?”
Theron sorri, como se eu tivesse finalmente alcançado a parte óbvia da história.
“E muitas outras coisas que os humanos sequer imaginam, como gnomos e fadas. Ah, e bruxos… sim, esses são uma praga.”
Eu encaro ele por alguns segundos, tentando decidir se dou outra risada histérica ou se levanto e saio andando até acordar de verdade, porque a sensação é essa: que eu tô presa em um sonho ruim com roteiro de fã de Crepúsculo.
Minha cabeça começa a girar, e eu só penso em como, exatamente, eu fui parar em um livro de fantasia estilo Crepúsculo, versão bootleg. Que merda era aquela. Até ontem eu tinha que lidar com freira, oração e prato repetido. Hoje é lobo com nome, deusa da lua, Zeus surtado, vampiro sanguessuga e bruxo praga.
Eu o encaro, assustada, irritada e cansada ao mesmo tempo.
“E a história do imprint?”, pergunto, porque já que estou aqui, quero pelo menos saber até onde vai essa palhaçada.
Theron faz uma careta como se eu tivesse acabado de falar a maior besteira possível.
“Ah, pelo amor da deusa da lua, não me diga que você assistiu Crepúsculo.”
Eu faço que não com a cabeça. Não porque eu seja muito superior intelectual, mas porque simplesmente não era o tipo de filme que dava pra ver no convento, e também porque romance sobrenatural meloso nunca foi a minha praia, a ironia é que ali estava eu, vivendo dentro de um.
“Ótimo”, ele resmunga, “já é um começo.”
“Mas você não respondeu”, eu corto.
Ele revira os olhos, rende-se.
“Mas essa parte do filme é verdade. Temos nossa alma gêmea, que chamamos de companheiro.”
Eu fico calada por um segundo. Alma gêmea. Companheiro. Imprint. É muita palavra grande pra uma vida que até outro dia era só barulho de sino e oração antes das refeições.
“Deixa eu ver se eu entendi”, digo devagar. “Vocês têm um lobo dentro da cabeça, que tem nome, tem opinião, tem temperamento, vocês descem de uma deusa barraqueira que comprou briga com Zeus por conta de macho, têm parentes vampiros sanguessugas e, no meio disso tudo, ainda rola um pacote romântico de alma gêmea.”
“Basicamente”, ele responde, com um encolher de ombros.
“E eu… sou o quê nessa história? Um brinde? Um bug do sistema?”, pergunto, cruzando os braços.
Theron me olha como se quisesse escolher bem as palavras. O que, vindo dele, já é progresso.
“Você é uma loba”, ele diz, simples. “Ainda não despertou, mas vai. E quando isso acontecer, sua loba vai te ensinar a bloquear o que você não quer que outros lobos ouçam, vai te mostrar quem você realmente é, vai…”
“Vai o caralho”, eu corto, porque se eu deixar, ele entra no discurso motivacional. “Esse negócio de alma gêmea é obrigatório? Tipo contrato? Chega um cara, ou uma garota, sei lá, o lobo dentro da minha cabeça tem um treco e pronto, eu tô presa ali pra sempre?”
Ele hesita. Isso não me tranquiliza nem um pouco.
“Não é bem assim”, ele diz.
“Então explica ‘bem assim’”, eu retruco.
Ele passa a mão no rosto de novo, cansado.
“Quando um lobo encontra o companheiro, tudo faz sentido. O lobo reconhece, a ligação é… forte. Você pode até negar, pode tentar fugir, pode bater, pode xingar, pode fingir que não liga, mas o vínculo tá lá. Ignorar dói, aceitar assusta.”
“Legal”, eu falo seca. “Então é tipo uma algema emocional com efeito colateral físico. Maravilhoso. Exatamente o que eu sempre quis.”
Ele me encara por um tempo, e eu não sei se ele tá tentando decidir se ri ou se briga comigo.
“Não é uma prisão, Lira”, ele diz baixinho. “É proteção. É ter alguém que nunca vai te abandonar.”
“Você fala isso como se eu soubesse o que é isso”, eu respondo, quase sem pensar.
O silêncio que cai depois disso é pesado. Nem Platon rosna, pelo menos eu acho. Ainda não sei diferenciar o que é meu e o que é dele, se é que ele já tá ouvindo.
Theron suspira.
“Eu sei que eu errei por não estar com você antes”, ele diz. “Eu devia ter ido te buscar há muito tempo. Mas eu tô aqui agora, e eu não vou embora.”
Eu desvio o olhar, porque sentir dó de mim mesma na frente dele seria humilhação demais pro meu primeiro dia como quase-loba.
“Tá”, eu digo, sem prometer nada. “Então temos deusa, maldição, vampiro, lobo, bruxo praga e alma gêmea. Falta mais alguma coisa ou o pacote infernal é só isso mesmo?”
Theron respira fundo, como se estivesse escolhendo o que contar agora e o que deixar pra depois, e eu já sei que lá vem mais problema.
De repente a porta se abre sem nenhum aviso, e um homem sentado em uma cadeira de rodas entra, como se o quarto fosse dele e eu fosse a intrusa, e na minha mente eu praticamente grito puta merda, será que só tem homem gostoso aqui, porque esse, diferente do deus grego loiro, era mais velho, talvez uns trinta anos, com cabelos negros como a noite e olhos intensos, o tipo de homem que serviria muito bem pra interpretar o papel de um mafioso gostoso em um filme daqueles cheios de traição e olhares que matam.
Meus olhos caem na cadeira de rodas e eu não consigo evitar o pensamento de pena, tipo, coitado, o que será que aconteceu com ele, até que escuto a voz dele, rouca e irritada:
"Já acabou de me escanear? Agora tire os olhos de mim, pirralha."







