Mundo de ficçãoIniciar sessãoMerda. Desvio o olhar imediatamente, pensando que beleza não é tudo, esse aí até pode ser bonito, mas é azedo como limão, o tipo de cara que você sabe que é problema só de bater o olho.
O bonitão me ignora completamente e encara Theron.
“Mandou me chamar?”
Meu pai, que até então parecia um homem forte ao meu ver, o macho alfa poderoso que entrou no convento como se mandasse no mundo, agora parece menor, os ombros tensos, quase como se temesse o homem na cadeira de rodas, e isso diz muito mais sobre Eron do que qualquer apresentação formal.
Theron respira fundo antes de responder:
“Eron, bem, eu só queria avisar que achei minha filha e a trouxe para cá.”
O bonitão, que agora eu sabia se chamar Eron, dá uma risada sarcástica, seca, sem nenhum traço de humor.
“Embora eu tenha nascido para ser o supremo rei alfa, é você que ocupa esse papel, não precisa me avisar nada.”
Theron se levanta, a indignação estampada na cara, o maxilar travado como se estivesse se segurando pra não rosnar.
“Não estou tomando seu papel, todos sabem que você é o supremo rei alfa, eu só estou cuidando das coisas enquanto você não se recupera.”
Eron dá outra risada, agora amarga, carregada de rancor, e diz:
“Certo, não tenho interesse na sua filha, por mim ela pode ficar, desde que não cruze meu caminho.”
Um arrepio percorre meu corpo, não era medo, era algo diferente, um incômodo estranho, como se alguma coisa dentro de mim tivesse reagido ao timbre de voz dele, e eu não fazia ideia de como explicar aquilo.
Eron sai batendo a porta, sem olhar pra trás.
Meu pai me encara, constrangido, passa a mão na nuca, desconfortável, e diz:
“Como eu disse, somos temperamentais.”
Quando ficamos sozinhos, eu praticamente dou um tapa mental em mim mesma: foco, esquece o bonitão mal-humorado, foca no que importa agora.
“Então eu tenho uma irmã?”, pergunto.
Meu pai volta a se sentar e diz:
“Sofri muito com a morte de sua mãe e seu desaparecimento. Ines era a melhor amiga de sua mãe e me ajudou no processo, ela era viúva também e acabou que as coisas evoluíram e a gente ficou junto. Ela estava grávida e criei Princesa como se fosse minha filha.”
Eu não consigo evitar e digo:
“Deu o meu nome pra ela? Quer dizer, o nome que iam dar pra mim.”
Theron abaixa o olhar e diz:
“Sim, foi uma homenagem a você e à sua mãe, mas agora que está de volta…”
Antes que ele termine, eu interrompo:
“Não. Meu nome é Lira e não, não pretendo mudar.”
Em minha mente, acrescento: quem quer um nome tão idiota como Princesa.
Como se já não fosse muita coisa para uma única pessoa — ou lobo, sei lá — ainda tenho que lidar com alguém vivendo a vida que era pra ser minha. Faço uma careta, porque a ficha ainda nem terminou de cair e já estão jogando mais coisa em cima.
Antes que eu possa falar qualquer coisa com Theron, a porta se abre e uma mulher loira, alta e esguia entra com os olhos cheios de lágrimas. Ela nem hesita, simplesmente atravessa o quarto em passos rápidos e corre até minha cama, me puxando pra um abraço apertado.
“Oh, querida, você se parece tanto com sua mãe.”
Tudo na mulher — expressão, tom, voz, jeito de segurar meu rosto como se eu fosse um tesouro perdido — gritava carinho, acolhimento, aquele tipo de amor de filme que abraça e aceita. Mas algo dentro de mim, aquela vozinha chata que sempre aparece pra me lembrar que o mundo não é um lugar fofo, aquela que diz que quando a esmola é demais, o santo desconfia, gritava uma única palavra: falsidade.
Eu fico dura no abraço, não retribuo, não encosto os braços nela, e ela percebe. Se afasta um pouco, parecendo sem graça, e antes que ela tente dizer qualquer coisa, meu pai fala:
“Essa é Ines, ela era a melhor amiga de sua mãe e hoje minha luna.”
Eu repito, franzindo a testa:
“Luna?”
Ines sorri e, num tom leve, meio repreendendo, diz para ele:
“Querido, ela não é uma de nós.”
Meu pai responde na mesma hora:
“Claro que ela é uma de nós.”
Ines rapidamente corrige, voltando o sorriso pra mim, doce demais pro meu gosto:
“Não foi isso que quis dizer, querida, é que você ainda não entende certas coisas.”
Meu pai parece satisfeito com a explicação dela, como se tudo estivesse resolvido com essa frase bonita, mas eu não. A desconfiança ainda cutuca, insistente. Ao mesmo tempo, eu me repreendo mentalmente: não é porque eu comi o pão que o diabo amassou no orfanato que todas as pessoas do mundo vão me sacanear. Ou vão. Mas eu não posso viver só nisso, né.
Theron me puxa de volta dos meus pensamentos:
“Luna é o que os humanos chamam de esposa, acho.”
Assinto, sem comentar nada. Eu queria, na verdade, ficar sozinha. Era muita coisa pra assimilar de uma vez: o deus grego de olhos vermelhos dizendo que é meu pai, uma falsa irmã com meu nome emprestado, um paralítico gostoso e azedo que é o tal do supremo rei alfa, e agora uma madrasta loira, perfeita e chorosa.
Ines parece perceber o quanto eu tô saturada e diz, virando-se para Theron:
“Querido, deixe ela descansar.”
Depois ela me encara, o sorriso ainda firme no rosto, como se não tivesse percebido que eu não comprei completamente aquela cena carinhosa.
“Mais tarde vamos apresentar você no jantar para a matilha”, ela avisa, como se estivesse dizendo que vão me levar num passeio no parque.
Mas então ela olha para minhas roupas — o moletom velho, a calça larga, tudo completamente fora do padrão mansão rica de lobos — e completa, com um tom gentil que quase me dá urticária:
“Não se preocupe, vou pedir para Princesa te emprestar algo.”
Princesa. Ótimo. Além de tudo, eu ainda tenho que usar roupa da menina que pegou o nome que era pra ser meu.
Eles saem em seguida, Theron lançando um último olhar preocupado pra mim antes de fechar a porta. Finalmente o quarto fica silencioso, e pela primeira vez desde que cheguei aqui, eu estou sozinha. Ou quase.
Porque é nesse momento que eu sinto algo se remexer dentro de mim.
Não é físico, tipo dor de barriga ou fome. É mais fundo, mais estranho, como se alguma coisa que estava encolhida no canto escuro da minha alma se espreguiçasse depois de um sono muito longo. Um calor começa a se espalhar pelo peito, pelo pescoço, pela nuca, um formigamento nas mãos, como se a pele estivesse apertada demais pra mim.
Eu fecho os olhos, tentando controlar a respiração. Não quero surtar. Não agora. Não depois de escutar história de deusa da lua, maldição, vampiro, rei alfa em cadeira de rodas, irmã perfeita e madrasta carinhosa demais. Tem um limite de loucura que uma pessoa consegue lidar em um dia só, e o meu claramente acabou.
O formigamento aumenta, como se algo lá dentro estivesse cutucando, impaciente, tipo “oi, tô aqui, lembra de mim?”. Eu levo a mão ao peito, sem saber se tento empurrar aquilo pra longe ou puxar mais pra perto. Sinto o coração bater mais forte, os ouvidos zunindo, a respiração ficando mais pesada.
Por um momento, penso que vou desmaiar, mas, em vez disso, a sensação muda. De repente, não é mais só incômodo, é também familiar. Como se eu tivesse encontrado uma parte de mim que eu nem sabia que tinha perdido.
Abro os olhos devagar e encaro meu reflexo no espelho do quarto. Não vejo nada de diferente à primeira vista, ainda sou eu, cabelo bagunçado, olheiras, expressão cansada. Mas o jeito como eu me olho… isso mudou. Tem algo mais selvagem ali, mais afiado, mais atento.
O remexer dentro de mim se aquieta um pouco, como se estivesse satisfeita só por ter sido notada.
“Ótimo”, penso, sem falar em voz alta. “Além de tudo, agora tenho uma coisa nova morando dentro de mim. Perfeito. Só que não.”
Eu me afundo um pouco mais no travesseiro, ainda encarando o teto. O dia começou com sino de convento e freira enchendo o saco, e agora termina com eu deitada numa cama macia demais, numa casa grande demais, cercada de lobos que me chamam de família, de um pai que não sabe consertar o que quebrou, de uma madrasta que parece saída de comercial de margarina e de um rei alfa que não quer nem me ver na frente.
E, dentro de mim, algo cresce, acorda, observa.
Eu inspiro fundo, solto o ar devagar, tentando colocar tudo em ordem na cabeça. Não consigo. Mas uma coisa eu sei: por mais que todo mundo aqui tente me encaixar em algum papel — filha perdida, irmã, enteada, futura loba obediente — ninguém vai decidir quem eu sou por mim.
Tem uma loba dentro de mim, ou seja lá o que for isso que acordou agora, e, se ela acha que vai mandar, vai descobrir bem rápido que eu não sou fácil de domar.
Por enquanto, eu deixo o peso das cobertas me segurar na cama e fecho os olhos, não porque eu esteja em paz, mas porque meu corpo não aguenta mais. A mansão é silenciosa do lado de fora, mas aqui dentro de mim tudo é barulho.
E mesmo assim, no meio do caos, uma certeza estranha se instala: por mais que eu odeie admitir, esse lugar, essas pessoas, essa confusão toda… é só o começo. E eu vou ter que aguentar.







