Que Nome É Esse

Eu fico ali parada encarando o homem em silêncio.

E então explodo.

Começo a rir como se fosse a única coisa a se fazer, e devia ser, afinal aquilo só podia ser piada. E uma piada de muito mau gosto.

“Tá. Claro. Lobo.” digo, rindo. “Faltava isso pra completar a festa.”

Mas é então que meus olhos encontram os dele de novo e minha risada morre, virando um soluço esganiçado. Os olhos dele continuam vermelhos, continuam intensos, e nada na expressão dele diz que aquilo é brincadeira.

Ele dá um passo na minha direção.

Ergo o dedo na hora, apontando pra ele.

“Parado aí.”

Ele para. Suspira, como se estivesse cansado de um peso que eu nem faço ideia qual é, e diz:

“Vamos começar do começo. Eu sou Theron, seu pai.”

O nome fica girando na minha cabeça por um segundo.

“Theron…” murmuro, mais pra mim do que pra ele.

Continuo encarando o homem como se ele fosse se desintegrar ali na minha frente. Não desintegra. Não some. Continua parado, olhando pra mim como se eu fosse a coisa mais importante daquela sala.

Que porra é essa.

Ele continua:

“Sua mãe se chamava Luara, e seu nome era para ser Princesa.”

Eu faço uma careta imediata.

“Princesa? Que merda de nome é esse.”

Ele solta um suspiro mais pesado, baixa um pouco a voz.

“Você não é humana, Lira.”

“Sou sim.” respondo rápido, sem pensar duas vezes.

Mas a dúvida começa a se instalar na mesma hora, ainda mais quando algo se remexe dentro de mim. Não é imaginação. É uma sensação real, como se alguma coisa estivesse espreguiçando por baixo da pele, empurrando, pedindo espaço.

Theron parece perceber.

“Sua loba quer sair. Você a prendeu por muito tempo. Você não pode ficar aqui. Seu lugar é comigo. Com nossa família.”

A palavra “família” mal chega inteira até mim. A dor vem antes.

Sinto de novo a dor excruciante. Como se algo estivesse rasgando por dentro do meu corpo, empurrando meus ossos, queimando minhas veias. Meu peito aperta, minha respiração falha, minha visão embaça nas bordas. Alguma coisa quer sair, e não é pequena.

Eu solto um grito, alto, bruto, sem conseguir segurar.

Antes que Theron chegue até mim, a porta do salão se abre de uma vez. As freiras entram correndo, com o padre atrás delas. Duas delas carregam uma corrente de prata, já prontas para me prender e me arrastar para o porão, para mais um ritual de expulsão.

Ao ver como eu sou tratada, Theron rosna, furioso. O som preenche a sala inteira, denso, ameaçador. Ele perde o controle ali mesmo.

O corpo dele começa a mudar na minha frente, rápido demais. Ossos estalam, roupas rasgam, a pele parece esticar. Em poucos segundos, no meio da sala, não tem mais um homem.

Tem um lobo gigantesco.

Negro, enorme, ocupando metade do espaço, o focinho baixo, os pelos eriçados,os olhos vermelhos cravados em todo mundo que ousasse chegar perto de mim.

Algumas freiras desmaiam na hora, caem duro no chão, sem nem tentar entender o que estão vendo. Outras começam a correr para trás, gritando “Meu Deus!” como se Deus estivesse com tempo sobrando para convento no fim do mundo.

O padre, porém, não corre.

Ele treme, empalidece, mas continua ali, com o balde de água benta nas mãos. Ergue o braço, respira fundo como se fosse um herói de filme barato e j**a água benta em Theron.

A água atinge o lobo em cheio. Eu espero que ele exploda, pegue fogo, qualquer coisa dessas que o padre sempre prometeu que ia acontecer com o demônio. O que acontece é um rosnado ainda mais fundo, mais irritado. Theron dá um passo à frente, os olhos vermelhos brilhando, os dentes à mostra. A água escorre pelos pelos negros, inútil.

Duas freiras ainda tentam vir na minha direção com a corrente de prata. O lobo se posiciona entre mim e elas num movimento tão rápido que eu quase não acompanho. Ele abaixa o corpo, pronto para atacar se for preciso. As freiras congelam, apertando a corrente como se isso fosse protegê-las de um bicho daquele tamanho.

Eu continuo ali, meio curvada pela dor, tentando respirar. Tudo queima, tudo lateja. Minha visão falha, borra as bordas, mas eu ainda consigo ver a cena: o lobo gigantesco parado, firme, na minha frente, me protegendo.

Protegendo. Ninguém nunca fez isso antes.

O padre levanta o crucifixo na direção de Theron, a voz falhando quando começa a rezar em latim. O lobo nem pisca. Só solta outro rosnado que faz o crucifixo tremer na mão dele.

A dor dentro de mim aumenta, como se estivesse respondendo a tudo aquilo. Meu corpo não sabe se desmaia logo ou se entra em combustão espontânea. Meus joelhos cedem um pouco, o chão parece vir na minha direção.

Vejo o lobo virar a cabeça na minha direção por um segundo, como se estivesse checando se eu ainda estou ali. Os olhos vermelhos encontram os meus. Tem alguma coisa ali que não é só fúria. Tem algo… meu.

Eu tento dar um passo, mas o corpo não obedece. Um novo espasmo atravessa minhas costas, fazendo minha visão escurecer nas bordas. O som das freiras gritando, do padre rezando, do lobo rosnando, tudo se mistura até virar um zumbido distante.

O último pedaço de imagem que eu consigo segurar é o lobo, parado entre mim e todo o resto, como uma muralha negra.

Depois disso, tudo apaga.

Eu desmaio.

Quando volto a mim, não sei se se passaram horas ou dias. Só sei que não estou mais no convento.

Fico de olhos fechados, imóvel. Não quero arriscar. A lembrança vem em sequência: o homem dizendo que era meu pai, a dor rasgando tudo por dentro, e o lobo. Merda. O lobo.

Só de lembrar, meu corpo dá um tranco. Eu me sento e abro os olhos de uma vez.

Arrependimento imediato.

Eu devia ter ficado apagada.

Não estou no beliche duro do convento. Estou em um quarto luxuoso, claramente caro. Isso é tudo que eu preciso saber pra entender que deu muito errado.

E, na minha frente, tem um grupo de pessoas que eu nunca vi na vida.

Eles estão parados, me encarando. Uns com curiosidade, outros com expressão fechada, alguns com um tipo de expectativa que me dá vontade de levantar e sair andando pela janela.

Mas meus olhos não ficam muito tempo neles.

Param nele.

Um garoto, alguns anos mais velho do que eu, no máximo. Alto, postura relaxada, como se aquilo fosse só mais um dia normal pra ele. Cabelo loiro, meio bagunçado, como se ele tivesse passado a mão e deixado assim de propósito. Rosto bonito de um jeito que irrita, como se o universo tivesse decidido caprichar.

É como se tudo nele chamasse a minha atenção sem pedir permissão. Como se o resto da sala tivesse diminuído.

Lindo de morrer.

Ele não fala nada. Não dá um passo. Só fica ali, parado, me encarando.

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